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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Rafael Pereira de Aguiar

Hostiário,
fechai todas as portas,
o poeta Rafael hoje não vem
sonhar com Laura.
Abriu seu coração
as portas da sua alma
e teima no céu
a eternizar sonetos

você já vai tarde 2010

você ja vai tarde 2010
você me causou uma dor
tamanha
e cravou no meu peito
uma saudade
que não há nada que apague.
você já tarde 2010
deixou triste a pátria de chuteiras
destruiu minha cidade
mas não a solidariedade.
você ja vai tarde
e se vai no seu tempo findo
2010
e só uma coisa me deixou amplo de paixão:
o twitter
e meus novos amigos.
Vai com Deus 2010
e adeus 2010

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Uma conversa com Octavio Paz:Betty Milan

Poeta e ensaísta, Octavio Paz foi Prêmio Nobel de Literatura em 1990. Nasceu no México em 1914 e passou a infância nos Estados Unidos com a família. De volta ao México, formou-se em direito e fez especialização em literatura. Lutou na Espanha, em 1937, ao lado dos republicanos, mas nunca abraçou o comunismo. De 1946 a 1951, viveu em Paris, onde se ligou a André Breton e freqentou o grupo surrealista, no qual encontrou o poeta Benjamin Peret, que viveu no Brasil e no México e foi seu tradutor para o francês. Além de escritor e tradutor, Octavio Paz foi diplomata. Demitiu-se do cargo de embaixador de seu país na Índia em protesto contra o massacre da Praça das Três Culturas (Tlatelolco, 1968), no qual morreram mais de cem estudantes mexicanos. Comentando sua morte em 1998, o escritor peruano Mario Vargas Llosa o qualificou como “a consciência viva de sua era”. É conhecido no Brasil, sobretudo, por seus ensaios, como O arco e a lira, Signos em rotação, O labirinto da solidão entre outros.

À jornalista que perguntou a Octavio Paz se ele acaso não temia ficar colado à imagem que a notoriedade lhe dava, ele respondeu: “Não acredito nessas consagrações. A única consagração é um leitor capaz de dialogar com a gente. Não, eu não penso que esteja impressionado com os meus sucessos. A vida inteira as minhas opiniões foram minoritárias”.

Precisamente por querer o diálogo ou o encontro, ele lançou um ensaio sobre o amor, A dupla chama, que não cessa de reenviar o leitor à sua própria experiência e de fazê-lo considerar, através desta, as diferentes ideias do texto.

Escrito para nos convencer do caráter historicamente subversivo do amor, que, contrariando a tradição ocidental, enobreceu o corpo, o livro é um ensaio de poeta. Por isso mesmo, a chama que ele acende não vai se apagar. “O amor é uma flor sangrenta e é também um talismã: a vulnerabilidade dos amantes os protege”, escreve Octavio Paz. E quem poderá se esquecer do que ele diz da pessoa amada: “Terra a descobrir e casa natal”.

Tendo em vista A dupla chama, fui ter com Paz no Hotel Lutetia onde, apesar da minha oposição inicial, ele deu a entrevista num salão repleto. As idas e vindas das pessoas em momento algum o molestaram, e eu, que temia não compreender o seu espanhol, logo fiquei à vontade. Só quando eu não ouvia ou não entendia, Octavio Paz passava do espanhol para o francês, a língua em que eu lhe fazia as perguntas, não por ele desconhecer o português, mas por conhecer menos o português do que o francês, a segunda língua dos escritores latino-americanos da sua geração.

Depois da entrevista, Paz me convidou para tomar um café. Contou-me, durante a conversa, que foi tradutor de Fernando Pessoa e falou com admiração de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira [1]. [BM]

BM O senhor diz na introdução ao livro A dupla chama que, antes de escrevê-lo, hesitou muito, mas não teve como não escrever este livro sobre o amor e fez isso com um “desespero alegre”. Que relação o senhor estabelece entre a escrita e o amor?

OP Há uma relação íntima quando se trata de certo tipo de escrita – a escrita literária, a poesia ou o romance. Há muitas formas de escrever. Quando a gente quer expressar algo de muito profundo, escreve um poema ou um romance, procura assim objetivar a paixão. Em geral, a escrita nasce de uma vocação, a gente está condenada a escrever sobre certos temas. Você, que é escritora, sabe disso. Acontece a mesma coisa no amor, que começa com uma atração involuntária – a que a gente está destinada – e depois se converte, através do livre-arbítrio, numa forma de liberdade.

BM O senhor utilizou a palavra condenada. Em que medida existe um livre-arbítrio?

OP Trata-se de uma questão tão antiga quanto a filosofia. Não há resposta e as respostas que eu encontrei me parecem igualmente insatisfatórias. Há uma eterna relação entre a palavra “destino” e a palavra “liberdade”. Os gregos viram isso muito bem. Para que o destino se realize, é necessário que ele conte com a cumplicidade dos homens. Para que Édipo [2] cumpra o seu trágico destino, ele tem que escolher voluntariamente, sem saber o que está fazendo, claro. Quero dizer que em cada ato humano há uma dose de determinismo, mas este não pode se realizar sem a liberdade, que, por sua vez, necessita do destino para se realizar. Podemos dizer que, se a liberdade é uma condição da necessidade, o inverso também é verdadeiro. Não há como considerar separadamente a palavra destino e a palavra liberdade. Os dois termos estão perpetuamente em luta; e um não vive sem o outro.

BM Agora que o senhor já escreveu o livro com um “desespero alegre”, talvez seja possível me dizer por que escolheu o amor como tema.

OP Eu o escrevi com um “desespero alegre” porque o escrevi no final da minha vida. Mas o que importa é que eu o escrevi. Por que o fiz? Desde que comecei, quisera ser, quisera ter sido… a gente até começa a falar no passado… bem, quisera ter sido poeta. Os meus melhores poemas foram de amor. Às vezes foram poemas eróticos. O tema do amor é uma das minhas obsessões, um dos eixos em torno dos quais girou a minha vida pessoal e também a minha vida intelectual.

BM Sim, mas por que o senhor escreveu um ensaio?

OP Porque queria explicar o amor para mim mesmo. Quando comecei a escrever poemas, eu me disse que precisava escrever algum ensaio para justificar o ato aparentemente absurdo de escrever poemas. O mesmo ocorreu com o amor.

BM O senhor afirma que Platão [3] teria ficado escandalizado com o que nós chamamos amor. Seria possível comentar essa frase?

OP Para Platão, o amor não tinha o sentido que damos a ele e que surgiu na Idade Média com a poesia provençal. O amor, para Platão, era o erotismo, a ação de Eros, o deus da luz e da escuridão, o mensageiro, a força atuante. Platão concebia o amor como um desejo de beleza que terminava na contemplação das ideias eternas. Ademais, o amor não se dirigia a uma mulher, e sim aos efebos. O amor de que falamos, e que hoje pode ser homossexual, nasceu como uma paixão heterossexual. Nele existe um gosto pelo sofrimento, pela tragédia – como em Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta [4] –, que teria escandalizado Platão. O amor também escandalizou os cristãos, pelo fato de se colocar numa criatura humana o que é próprio da divindade. Lope de Vega [5] diz que, no amor, a gente busca o eterno no que é perecível. O amor é uma blasfêmia para a Igreja; ele é subversivo diante da filosofia e da religião.

BM O senhor diz que o amor é uma aposta extravagante na liberdade, pois o livre-arbítrio transforma uma atração involuntária entre duas pessoas em união voluntária. Isso é bastante claro quando pensamos em Tristão e Isolda ou em Romeu e Julieta. Mas o romance História de O [6] não é uma aposta extravagante na servidão?

OP A questão é muito interessante. Mas O decide, porque ama René, que deseja se deixar escravizar. Os estoicos pensavam que só se pode afirmar a liberdade dentro dos limites do destino. Epicteto [7] dizia que o escravo tem a liberdade, pelo menos no seu interior, de dizer não. O mesmo ocorre com O, que é uma mulher livre e se vale da liberdade para se converter numa escrava.

BM Cabe perguntar se O teria podido dizer que não queria ser escrava ou, em outras palavras, se ela teria tido a possibilidade subjetiva de escolher a posição de quem não é escrava.

OP Sim, poderia ter recusado o amor. Falei algumas vezes com Paulhan sobre isso. No meu livro sobre Sade [8], eu desenvolvo a ideia. O livro se chama Um mais além erótico: Sade, e também acaba de sair pela Gallimard. Contém um poema e dois ensaios. A parte final trata da História de O. Creio que O escolhe a servidão porque está apaixonada. Todos os apaixonados, no fundo, seguem O, na medida em que todos aceitam a servidão. Na poesia provençal, que codificou o amor, se diz que o apaixonado é um vassalo e a amada é uma senhora. Mas o apaixonado decidiu se converter em vassalo, por estar apaixonado, ele não nasceu escravo. A origem de O se encontra na poesia provençal. Se O fosse somente masoquista, ela seguiria suas inclinações eróticas e ponto final, mas ela está apaixonada…

BM O senhor não acha que o amor implicaria uma revisão completa da noção de escolha?

OP Sim, porém o amor lança luz sobre a relação entre necessidade e liberdade, sobre o livre-arbítrio, o grande tema do teatro espanhol.

BM O amor move o sol e as estrelas, mas não se dissocia do ódio e pode se tornar mortífero. Por que o senhor só fala do amor como um bem?

OP Mencionam com freqência o caráter mortífero do amor. Possivelmente, eu falo dele, sobretudo como um bem por reação contra essa predileção do século XX, predileção pelos lados negros do amor. Trata-se também de uma reação contra a exaltação do Marquês de Sade… Mas eu penso que o ódio é inseparável do amor.

BM Existe mesmo o conceito de hainamoration, em Lacan [9].

OP O quê?

BM Hainamoration, um neologismo que junta o ódio (haine) e o amor (amour).

OP Os psicólogos dizem de modo mais ou menos pedante o que os poetas dizem de forma simples. Catulo [10] diz num poema famoso: “Amo e odeio ao mesmo tempo/ Por que?/ Não sei,/ mas eu disso padeço”. É magnífico, em quatro versos, diz o que os psicólogos e os psicanalistas precisam de mil páginas para dizer.

BM (Risos) O senhor diz, no seu livro, que o amor é incompatível com a infidelidade. Isso significaria que a revolução erótica deste século [11] não mudou em nada a noção tradicional de infidelidade?

OP A revolução erótica nos trouxe uma ideia mais limpa do corpo… O amor não existe sem a liberdade feminina. Por isso, desde sempre, os grandes períodos do amor coincidiram com a liberdade da mulher ou com a sua rebelião. Afinal de contas, Isolda se rebelou, Julieta também…

BM Voltando à questão anterior, eu lhe pergunto se um simples encontro erótico é um ato de infidelidade.

OP Sim, em geral sim, porque o amor está fundado na união do corpo e do espírito. No passado, havia o problema da paternidade. Hoje, a infidelidade é menos grave, porque não interfere na procriação, mas o amor parte da decisão de que “iremos juntos até o final”.

BM Será mesmo que a revolução erótica não implica que possa haver fidelidade do espírito e liberdade do corpo?

OP Parece complicado. As experiências dos que tentaram esse tipo de amizade amorosa não deram certo. É muito difícil evitar o sofrimento do companheiro. A infidelidade, em si mesma, poderia não ser grave, mas fere profundamente o outro. Isso, todos nós sabemos pela experiência.

BM Os autores árabes celebram os amores castos. Qual a diferença entre a erótica árabe e a platônica?

OP A ideia da castidade é uma ideia muito antiga. No Oriente, nasce da ideia de que toda descarga sexual implica perda de vida. É preciso ser casto para conseguir mais vida. A castidade é uma receita de imortalidade. No taoísmo e na ioga [12], a castidade existe para que o sujeito tenha mais controle sobre si mesmo. No caso de Platão, a castidade está ligada ao dualismo do corpo e da alma e à necessidade de salvar esta última. Cada ato sexual, para ele, é uma queda no mundo informe da matéria. Nós amamos uma forma; porém, no momento em que a abraçamos, ela se dissolve. Isso, para mim, é maravilhoso, porque é um contato com o universo.

BM O senhor escreve que a maior defesa contra a Aids é o amor, por implicar a fidelidade. A sua posição é a do papa.

OP Possivelmente. Mas D. H. Lawrence [13] já dizia que o papa sabia mais de sexo e erotismo do que os tratados todos.

BM Segundo o seu livro, o último grande movimento estético do século XX teria sido o surrealismo, e o movimento beat [14] foi uma derivação daquele. Seria possível explicar isso?

OP Toda a doutrina da beat generation parte da espontaneidade da escrita, que é uma ideia dos surrealistas.

BM Obrigada pela entrevista.

OP Você quer tomar um café?

BM Aceito.



NOTAS



1. Do português Fernando Pessoa (1888-1935), considerado um dos maiores poetas da lusofonia, Octavio Paz traduziu Antología, lançado em 1984. Figura inaugural do modernismo em Portugal, Pessoa é ele mesmo e seus heterônimos – os principais sendo Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, que são personagens ficcionais com vida, obra e estilo próprios. Já os poemas do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e do pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) – ambos modernistas – aparecem no volume Versiones y diversiones, livro de 1974, que recebeu forma definitiva em 2001, no projeto de edição da obra completa de Paz, da Editorial Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores de Barcelona. Esse título inclui agora todas as traduções feitas pelo autor mexicano.

2. Édipo é personagem central da peça Édipo rei, de Sófocles (496 a.C.-406 a.C.), que foi considerada por Aristóteles o exemplo máximo da tragédia. Ele procura decifrar o assassinato de seu pai, Laio, governante de Tebas. Para seu horror, ele descobrirá ter matado o pai e se casado com a mãe, Jocasta. A dor o leva a arrancar os próprios olhos.

3. Ateniense de estirpe nobre, Platão (428 a.C.-347 a.C.) foi discípulo de Sócrates (470 a.C.-399 a.C.). Depois da morte do mestre, fundou a Academia, onde foi professor de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). Sobre o amor, escreveu O banquete, em sua tradicional forma de diálogos, no qual aborda as manifestações e o significado do amor sensual. O tema volta a ser tratado em outros de seus diálogos, como Lísias e Fedro.

4. Tristão e Isolda e Romeu e Julieta poderiam ser chamadas de tragédias do amor proibido. A primeira foi celebrizada modernamente na ópera homônima de Richard Wagner (1813-1883). A lenda, de origem celta, remonta ao século IX e, a partir do século XIII, foi incorporada ao ciclo do Rei Artur e a Távola Redonda. Na história, Isolda é prometida em casamento ao príncipe Marke, que manda seu sobrinho, o cavaleiro Tristão, buscá-la na terra dela. A caminho, os dois bebem uma poção mágica e se rendem ao amor impossível. Segundo os especialistas em literatura trovadoresca e medieval, Romeu e Julieta, o drama eternizado por William Shakespeare (1564-1616), inspira-se na história de Tristão e Isolda, que foi tema de muitos poemas na Europa medieval. O amor dos dois, bloqueado pela inimizade entre suas respectivas famílias, acaba na morte dos amantes.

5. Lope de Vega (1562-1630), poeta e dramaturgo espanhol formado pelos jesuítas, foi secretário de poderosos da Igreja e da Coroa, emergindo como autor de sucesso em 1598. Tendo perdido a mulher e um filho, entrou em crise e resolveu ordenar-se. Foi nomeado para o tribunal da Inquisição. A adoção do hábito religioso não o impediu de casar-se várias vezes nem de ter numerosas amantes e de protagonizar situações escandalosas em Madri, onde viveu e apresentou a maioria de sua obra numerosíssima – segundo os estudiosos, com mais de 400 comédias, dramas épicos, volumes de poesia, inclusive o famoso Amarílis, em homenagem à amante morta.

6. História de O, relançado no Brasil em 2005, é obra de Anne Desclos (1907-1998), nome real da escritora e editora francesa DominiquebAury, que o assinou com o pseudônimo de Pauline Réage. Foi criado para provar a seu amante – o escritor Jean Paulhan (1884-1968), com quem ela trabalhava na Nouvelle Revue Française – que a literatura erótica não é exclusividade do homem. História de O é um romance sadomasoquista que escandalizou os franceses em 1954, ao ser lançado, e não demorou a ganhar o mundo. Em 1975, virou filme, dirigido por Just Jaeckin e estrelado por Corinne Cléry.

7. O filósofo grego Epicteto (55-135) viveu a maior parte de sua vida em Roma como escravo de um ex-escravo do imperador Nero. Foi seu senhor que lhe permitiu estudar com um filósofo da escola estoica, Musonius Rufus, e depois lecionar na cidade, já como liberto. Ele voltou para a Grécia e continuou a ensinar quando o imperador Diocleniano expulsou todos os filósofos de Roma, no ano de 94. Para os estoicos, que introduziram na ética a noção de responsabilidade, a virtude é o único bem – e, conseqentemente, o vício é o único mal. A virtude é identificada com a razão, ao passo que os afetos correspondem ao lado patológico da realidade humana. Seus escritos assumem a forma de máximas morais, com as quais pregava a reforma dos homens, propondo a austeridade e o desprendimento como o caminho para a felicidade, a realização pessoal e a tranqilidade de espírito.

8. Jean Paulhan (1884-1968), professor, crítico, editor e escritor francês. Estudou psicologia e desde cedo se envolveu com o editorial de revistas – de filosofia, de ciências sociais e de literatura, como Les Temps Modernes, de Sartre, e a Nouvelle Revue Française, na qual foi secretário e editor (1925-1940) e diretor de 1953 até sua morte. Pertenceu à Resistência Francesa e teve papel determinante em defesa da publicação das obras dos escritores colaboracionistas, que, tendo afinado com os nazistas durante a ocupação, eram bloqueados pelos editores no pós-guerra. Foi eleito para a Academia Francesa em 1963. Foi também um estudioso da literatura erótica e autor, em 1951, do ensaio Le Marquis de Sade et sa complice ou Les revanches de la pudeur (“O Marquês de Sade e seu cúmplice ou As revanches do pudor”). Paulhan foi ainda o inspirador do romance Histoire d’O. Ver Nota 6. O livro de Octavio Paz mencionado, Um mais além erótico: Sade, foi publicado no Brasil em 1999.

9. Jacques Lacan (1901-1988) nasceu em Paris e se formou em medicina, especializando-se em psiquiatria antes de se tornar o psicanalista mais polêmico do século XX, desenvolvendo sua teoria e sua clínica em nome de um retorno a Freud. Para ele, o ser humano só se constitui como sujeito através da palavra e a estrutura do inconsciente é a da linguagem. Ao “Penso, logo existo” de Descartes, Lacan opôs um “Digo, logo existo”. A obra de Jacques Lacan e de grande parte de seus alunos vem sendo traduzida e publicada pela editora Jorge Zahar e pela Companhia de Freud, ambas do Rio de Janeiro.

10. Caio Valério Catulo (provavelmente 84.a.C-54 a.C.), pequeno nobre da província de Verona, foi um modernizador da poesia em Roma, onde viveu, trabalhando sobretudo com poemas líricos, curtos, dedicados a temas como o amor ou os pássaros e denominados “carmes” (do latim carmen, carminis, que quer dizer “poesia”). O erotismo é forte componente de seus versos. Nos anos 1930, Catulli carmina, os poemas eróticos de Catulo, foram transformados em cantata pelo compositor Carl Orff (1895-1982), formando um tríptico ao lado de Carmina Burana e Triunfos de Afrodite.

11. A expressão revolução erótica deste século faz referência aos novos comportamentos afetivos e sexuais decorrentes da eliminação ou abrandamento da repressão sexual, sobretudo na segunda metade do século XX, com o advento da pílula anticoncepcional, libertando a mulher do tabu da virgindade e do risco da gravidez involuntária. Além de afetar profundamente o relacionamento entre homens e mulheres, em decorrência das lutas por maior abertura comportamental e por novos direitos, encetadas pelo movimento feminista, a sociedade assistiu também aos movimentos de homossexuais e transgêneros por liberdade e igualdade de direitos.

12. Os adeptos do taoísmo, uma antiga religião chinesa, crêem que o tao (caminho) é a origem do universo e o criador de todos os seres. Pela prática da austeridade e do respeito a todas as criações e criaturas da natureza, o homem pode tornar-se imortal e converter-se em um ser celeste. Já a ioga é prática de origem indiana, que visa promover a união entre o ser humano e sua essência, mediante o equilíbrio de corpo e mente. Em ambas as linhas espirituais, assim como em várias crenças orientais, a castidade é vista como economia de energia.

13. David Herbert ou D. H. Lawrence (1885-1930), escritor britânico, aborda temas controversos, sobretudo de caráter sexual e relações destrutivas, tendo produzido em todos os gêneros literários – novelas, contos, poemas, peças de teatro, livros de viagens, traduções, livros sobre arte, crítica literária e correspondência. Entre suas obras mais conhecidas estão O amante de Lady Chatterley, que foi proibido e circulou clandestinamente na Inglaterra, Mulheres apaixonadas, Filhos e amantes e A serpente emplumada.

14. O surrealismo, considerado a última das vanguardas artísticas da Europa, propõe a libertação do criador em relação às normas e regras do pensamento racional, optando pela exploração do inconsciente e do subconsciente, como acaso, sonhos, alucinações, delírio e humor. Para tanto, trabalha com o automatismo como método (sem controle racional nem antes nem durante ou depois da criação) e, nas artes visuais, adota novas mídias, como colagem, foto-montagem, assemblage etc. São muitos e grandes os nomes que se ligaram ao surrealismo desde o Manifesto Surrealista, lançado pelo escritor francês André Breton em 1924. Nas artes visuais, Paul Klee, Joan Miró, Salvador Dalí, Marc Chagall, o cineasta Luis Buñuel, entre outros, enquanto na literatura comparecem Tristan Tzara, Paul Éluard, Louis Aragon, Guillaume Apollinaire. Quanto ao movimento beat, surgiu nos Estados Unidos nos anos 1950 como protesto contra o estilo de vida vazio e consumista do pós-guerra. O livro de Jack Kerouac On the road, traduzido no Brasil como Pé na estrada, é dado como seu ponto inicial. Allen Ginsberg, William Burroughs, Lawrence Ferlinghetti são alguns dos escritores do movimento, que foi intensamente ligado à música – inclusive à música oriental, que iria depois inspirar os Beatles e compor o universo da geração “paz e amor”, representada pelos hippies.

Betty Milan (Brasil, 1944). Romancista, ensaísta e dramaturga. Colaborou nos principais jornais brasileiros e atualmente é colunista da revista Veja. Sua bibliografia inclui títulos como O papagaio e o doutor (1991), Paris não acaba nunca (1996), e Fale com ela (2007). Entrevista realizada em 19/06/1994, publicada na Folha de S. Paulo, figura no livro A força da palavra (Editora Record, 1996). Contato: bettymilan@free.fr. Página ilustrada com obras do artista Edgar Negret (Colombia).

PORTADA DE LA PRESENTE EDICIÓN


El Proyecto Editorial Banda Hispánica crea su propia revista para atender la necesidad de circulación periódica de ideas, reflexiones, propuestas, acompañamiento crítico de aspectos relevantes en lo que se refiere al tema de la cultura en América Hispánica. Agulha Hispânica tratará de temas generales ligados al arte y a la cultura, constituyendo un forum amplio de discusión de asuntos diversos, estableciendo puntos de contacto entre los países hispano-americanos que posibiliten una mayor articulación entre sus referentes. Revista de circulación bimestral, invitará en cada edición un artista plástico para ilustrar integralmente sus páginas. Las materias a ser publicadas dependerán con exclusividad de la invitación de la coordinación general. Comentarios de lectores y colaboradores deben ser encaminados a bandahispanica@gmail.com.
Acompañamiento general de traducción y revisión a cargo de Gladys Mendía y Floriano Martins.

A SOLIDÂO

“A solidão, o sentir-se e saber-se só, desligado do mundo e alheio a si mesmo, separado de si, não é característica exclusiva do mexicano. Todos os homens, em algum momento da vida sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que vamos ser, futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que sente só e o único que é busca de outro. Sua natureza – se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao homem, exatamente o ser que se inventou a si mesmo quando disse “não” à natureza – consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e busca de comunhão. Por isso, cada vez que sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão”.

PAZ, Octávio. O labirinto da solidão e Post-scriptum; tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984. p. 175.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

@jlgoldfarb da campanha doeumlivro, numa entrevista supimpa fala de Murici AL

quero me encantar

quero que voce me leve
ao Rio
e eu menino com pares de sustos
quero conhecer o mar
do Rio
a estátua do Manequinho
a Cinelândia de Jorge de Lima
e de longe olhar o Cristo.

quero que voce me leve
prum chopp
antes de vibrar com o Glorioso.
quero que voce me leve
pruma visita breve.



para elena só pra ela

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Notícia da manhã

Eu sei que todos viram
e jamais esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormindos-e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la,
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração
a todos que não a viram
contratei desta manhã
-manhã é céu derramado
é cristal de claridão-
que reinou de leste a oeste
de morro e mar-na cidade.

Pois dentro deste manhã
vou caminhando.
E me vou tão feliz como uma criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo memino
(ele conhece caminhos
e mundo melhor que eu),

Amorosa e tranparente,
esta é a sagrada manhã
que o céu inteiro derrama
sobre os campos,sobre as casas,
sobre os homens,sobre o mar.
Sua doce claridade
já se espalhou mansamente
por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
vai lavando corações
(não o do menino,o meu,
que é cheio de escuridões).


Por verdadeira, a manhã
vai chamado outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e 'as vezes tarde despotam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens e das coisas
na roupa estendida 'a corda,
nos navios chegamdo
nas torres das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa,tão bonita!
A manhã está no chão, está nas palmeiras,
estáno quintal dos subúrbios,
está nas avenidas centrais,
está nos terraços dos arranha-céus.
(Ha muita,muita manhã
no menino,e um pouco em mim).

A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.


A manhã é geral.

As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com a cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde.
Os passarinho namorando
-ah! pois todas essas coisas
que a minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
'a mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança,
mais além uma coragem,
e além,aqui e ali
pelo campo pela serra,
aos mendigos, aos sovinas,
aos desgarrados, aos prósperos,
'as velhas virgens, 'as puras
e as doidivanas também,
a manhã vai derramando
ama alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.


E de repente a manhã
-manhã é céu derramado,
é claridade, claridão-
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão




Viva! Viva thiago de melo!!!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Poema Para Mozart Damasceno

Há um silêncio na casa 51
da Rua Durval de Goes Monteiro.
Despem os nossos olhos
penetrante e estranho halo.

__As carambolas,
as mangas e pitangas
prostadas sobre o chão
indegustáveis.

Mozart,
por ti ficaram inertes
teus pássaros acrobatas
sobre os nossos ombros.
Na tua longa mesa de tantos longos dias
já não se brinda o licor proposital,
da alegria cultivada,
irmanada.

__Onde está o calcário homem
de olhar metálico

Há um silêncio que nos povoa a alma,
uma falta que clama por teu nome de argila




in colheita
cícero gomes

BICICLETA

__ Mamãe, mamãe... Papai Noel
me deu o presente errado.

aqui ó bh

e não deu tempo
pra gente se entender
trocar passos
na contorno
findar a noite
no macarrão do bola.
tão pouco tempo
pruma breja
no buléia,
uns lances de cinema
do maletta
e se encher pinga e poesia
no
lua nova.
não deu tempo pra nada
não houve tempo pra nada
e essa minha mania
de encurta estradas
e você com seu sorriso
de brevidade
e sua voz de encantar passarinho
foi embora numa manhã
e para sempre
me deixou sozinho

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

MURICY REVISITED

uma cidade não cabe em livro
por mais livre que seja
livro e cidade

não se traça uma cidade
com seus anos em conta
sua gasta geografia
não se conta uma cidade
pela mão da poesia
não se pinta uma cidade
com papel e tinta

(leit-motiv)

O POEMA NÃO CALA
BERRA
FALA


pálida te sinto cidade
cálida te vejo cidade


(Chão Usual)

o rio
os troços
os destroços

manhãs
mormaços
gasta bandeira
cana-bananeira


extasiadas as mornas
horas
na desordem dos dias


Murici
tudo em ti
tão parca poesia





in chão usual
cícero gomes

MURICI

Essa cidade me vence.
E de tal modo me envolve,
Que já não sei se habito
Ou se é ela que vive em mim.



diógenes tenório júnior

domingo, 19 de dezembro de 2010

Monólogo do Natal

Eu não gosto de você,Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel de vender ilusões 'a burquesia.
Se os garotos da cidade soubessem do seu ódio a humildade,
Jogavam pedras nessa fantasia.
Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa me tornei rapaz, sem esquecer no entanto o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, e a noite inteira eu esperei contente.
Chegou o sol e você não chegou.
Dias depois, meu pobre pai cansado, trouxe um trenzinho feio, empoeirado,
Que me entregou com certa excitaçãO.
fechou os olhos e balbuciou:__É pra você,Papai Noel Mandou!
E se esquivou contendo a emoção.
Alegre e inocente neste caso, eu pensei que meu bilherte com atraso,
chegara em suas mãos.
No fim do mês,
Limpei o trem, dei corda,ele partiu dando muitas voltas.
Meu pai sorriu e me abraçou pela última vez.
O resto eu só pude compreender quando cresci e comecei a ver todas
as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a seco:
__Onde tá aquele seu brinquedo,
Eu vou trocar por outro da cidade.
Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar e,
Como quem não quer abandonar um mimo
que nos deu, quem nos quer bem,disse:
__O Senhor vai trocar ele,
Eu não quero outro brinquedo eu quero aquele.
E por favor não vá levar meu trem.
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que,
Eu ainda creio, tanto e tão santo, só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou, ele não deu ouvidos.
saiu correndo e nunca mais voltou!
Você, Papai Noel, me transformou num homem que a infância aruinou.
Sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não um que sobre para a riqueza do menino pobre
Que sonha o ano inteiro com o Natal.
Meu pobre pai doente,mal vestido, para não me ver assim desiludido,
Comprou por qualquer preço uma ilusão e, num gesto nobre, humano e decisivo,
Foi longe pra me trazer um lenitivo, roubando o trem do filho do patrão.
Pensei que viajara, no entanto, depois de grande,minha mãe, em prantos,
Contou-me que fora preso.
E como réu ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia, da cela o libertou pro céu.
É por isso que eu não gosto de você, Papai Noel.





Mestre Aldhemar Paiva

Quazul

Azul e quando
sapituca tipiti.
Quazul e ando
noiteca peteleco.
Atrapalho alho
treco terereco.
Chaleirento ento.
Chaleirento que só:


__ Que só ela!

__ Que só vendo!






in galeio
francisco marques

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Murici,18 de Junho de 2010 'as 21:00 horas

O Rio Mundau
transbordou
entrou na cidade
derrubou casas
escolas
fez nosso povo gemer de dor.
Destruiu:
A Escola Juvenal Lopes de Omena
Creche Menino Jesus de Praga
Câmara municipal
Casa paroquial
Escola de segundo grau Professor Loureiro
A Bibliotreca Mozart Damasceno
perdeu todo seu acervo
e 2400 famílias perderam suas casas.

As famílias não só perderam
casas
perderam seus pertences
a mémoria de suas vidas
expostas em rôtas
fotografias.

A economia de Murici
foi abalada
(até hoje sofrem
os pequenos comerciantes)

Milhares de pessoas ainda vivem
sob quentes barracas.

Sou filho desta terra sofrida de
pessoas de coragem e trabalho.



Por isso lancei a campanha #doelivrospmurici
no twitter.
Vamos recriar o acervo da Biblioteca Muncipal Mozart Damasceno.

Envie livros para a Secretaria Municipal de Educação de Murici
aos cuidados de Maria da Glória
Murici Alagoas
cep:57820 000


E como dizia Monteiro Lobato
"Um país se faz com homens e livros"

BRUNA

O Jornalista Maurício Mello Jr., na época crítico literário do Correio Brasiliense e bom conhecedor da literatura do Rio Grande do Sul (com a motivação extra deser casado com uma gaúcha), esteve em Porto Alegre por volta de 1985 para entrevistar Mario Quintana.Depois de muita conversa séria, deixou para o fim uma questão que sabia ser do
interesse dos leitores.

__Fale a respeito de sua amizade com Bruna Lombardi.


Mario pensou um pouco, bem pouco, e expôs o seu lado:

__Pois é...Não sei o que ela quer comigo.
Mas eu estou cheio de más intenções...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

EVA

Dentro de mí
vive un bicho,
aprisionado
en el cuerpo,
que traigo
escondido,
bajo el yugo
de mi dorso,
y que amanso
y agrado,
cuandomme enrosca
el cuello,
cuando grita y amenaza
dejar a la vista
en mi cara
todo dolor
que me traspassa.

Dentro de mí,
como larva,
ese bicho
corrosivo
carcome el casco
de la barca
que me caga
los sentidos,
dejando el alma
a la deriva
al borde
de una carcaza.



amneres
poeta de brasília

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

SUPERQUADRAS

na entrada
um quebra-molas
e uma banca de jornal


blocos blocos blocos
blocos blocos blocos
blocos blocos blocos


não consigo
sair destas palavras:
setor comercial sul

em que banco eu pago
pra sair do
setor comercial sul?

em quantas prestações
eu saio do
setor comercial sul?

você quer 30%
do meu salário
pra me livrar do
setor comercial sul?

dois litros do meu sangue
todos os dias
pra me tirar do
setor comercial sul?


pra sair do
setor comercial sul
eu faço qualque negócio


só não vendo a alma




salve nicolas behr!
poeta porreta de brasília

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Harvard Square

passeando pela
Harvard Square
vi um cara diferente
com um violão diferente

ouvi uma canção diferente
sobre coisas diferentes

a platéia era diferente
e os transeuntes
diferentes também

na Harvard Square
todos parecem iguais
eis a diferença





miguel canguçu alves

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

GARÇA

Garça
branca
silenciosa
meditativa
de passos pensados
olhar esguio
Senhora suprema
do Araguaia
e desses lagos
mornos
cristalinos
Garça cor-paz
que voa
em câmera lenta
Pureza
beleza
deste sertão
Amiga do sol
do céu
Me quedo na harmonia
de teus passos calculados
Me perco na oração
do teu silencioso vôo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

1000

1000
vezes
o amor
chega
ao seu alcançe
num só lançe
de olhar nos
olhos

o amor, a poesia,as viagens

Atirei um céu aberto
na janela do meu bem:
caí na Lapa__um deserto
__Pará,capital Belém!...





manuel bandeira

o amor

"o amor é escolha.livre escolha,
talvez, da nossa fatalidade, súbita descoberta
da parte mais secreta e fatal do nosso ser"


octávio paz

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

com que roupa?

com roupa eu vou pru samba
lá do noel?
se meu feitiço
da vila
não me quer
em coversa de botequim.

Palavras

E as palavras riscam.
Passamos por todas aquelas
querelas
com seus pares de sustos.

O entojo do purgante-de-jalapa manicado.
O peixe remoso.
A fruta verdolenga.
O disparate do azul arregalado.
O frege,o galeio,o saracotico, o peteco.
Desbarrela, trubufu espandongado!
O destempero da velocidade.

Enguiçosas
as palavras espeticam
escarrapacham
espantalham


enquanto
arrastamos
o silêncio
com os pés




(francisco marques)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Escola

meu pouco estudo
minha leitura fraca
eu aprendi numa escola rural
__dessas pequeninas que cabem no bolso.
dessas que numa olhadela
cabe a escola todinha
e aguenta ainda litros de céu
árvores e árvores
cachorros e cocôs no corredor
e um menino com a cara breada de terra
brincando com os números.




(francisco marques)

um trato com nicolas behr

um trato
com vc
nicolas behr

cante sua
braxília
brasília
é luxo
é lixo
e tudo
fede ao poder.

um pacto com vc
nicolas behr
cante o cerrado
eu canto a mata
atlantica

chore
o guará
eu choro
o tamanduá


afogo minhas dores
no mundáu
e vc
no paranoá



eu falo com vc
nicolas behr
desta paulicéia
desvairada
onde assola
o crack
o mijo
a gasolina


e vc concreto
objeto
entre quadras
superquadras
na mais imperfeita rima



um trato com vc
nicolas behr

depois de muito anos
que tal um desafio:
eu vou de rimbaud
vc de mallarme

sábado, 4 de dezembro de 2010

os fazedores

os fazedores
de deserto
se aproximam
e os cerrados
se despedem
da paisagem
brasileira

uma casca grossa
envolve meu coração




(nicolas behr)

Ninã Morena Y Ágil

ninã morena y ágil,el sol que hace frutas,
el que cuaja los trigos, el que turce las algas,
hizo tu cuerpo alegre, tus luminosos ojos
y tua boca que tiene la sonrisa del agua.

un sol negro y ansioso se te arrola en las hebras
de la negra melena, cuando estiras los brazos.
ú juegas con el sol como un estereo
y él deja en los ojos os oscuros remansos.


mi corazón sombrío te busca, sin embargo,
y amo tu cuerpo alegre, tu voz suelta y delgada,
mariposa morena dulce y difinitiva,
como el trigal y el sol, la amapola y el agua.







(p. neruda)

Morena, La Besadora

Cabellera rubia, suelta,
corriendo como un esterro,
cabellera.

Uñas duras y doradas,
flores curvas y sensuales,
uñas duras y doradas.

comba del vientre,
condida,
y abierta como una fruta
o una ferida

dulce rodilla desnuda
apretada en mis rondillas,
dulce rodilla desnuda.

enredada del pelo
entre la oferta redonda
de los senos.

huella que dura en el lecho,
huella dormida en el alma,
palabras locas.

perdidas palabras locas:
rematarán mis canciones,
se morirán nuestras bocas.

morena, la besadora,
rosal de todas las roas
en una hora.

besadora dulce y rubia,
me iré,
te irás, besadora.

pero aún tengo la aurora
enredada en cada sien.

bésame, por eso,ahora,
bésame, besadora,
ahora y en la hora
de nuestra muerte.
Amén





(neruda)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Carlos Moura - "Água de cheiro"

SI TÚ ME OLVIDAS

quiero que sepas
una cosa.
tú sabes cómo esto:
si miro
la luna de cristal,la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas,luz, metales,
fueram pequeños barcos que navegam
hacia las islas tuyas que me aguardan.




(neruda)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

de trem para arapiraca

meu pai falou apressado:
__vamo de trem prarapiraca!

...e eu ali
na janela do vagão
ao vento minha camisa voltaomundo
e com olhos de espanto
decorando nomes
e paisagens.

o barulho do trem
e seu apito
balançavam
a minha meninice.

como achei grande
arapiraca
sua feira na segunda,
o mundo de tordas
enfileiradas,principalmente
o cheiro de fumo
eternizando no ar.

achei singela a igreijinha
do alto do cruzeiro.
a mesa farta de tio nezinho
a timidez de meus olhos
voltados para o chão.

foi a primeira vez que vi
a besta fera da televisão:
meus olhos quase pularam pra fora
com a correria dos cavalos
índios e tanto tiro.

ah! o tempo boi que traga tudo.
duas coisas achei grande por
demais no meu tempo de menino:
o mar de maceió
a feira de arapiraca.

Fina Inspiração

Mesmo sabendo que sou ausente,
Andarilho cheio de paixão
Relembrando beijos eloquentes,
Imortalizando-os em outros corações,
Agora peço-te que sejas meu...
Com voce seguirei eternamente,
Linda flor,inspiradora dos meus versos;
Estrela maravilhosa do universo...
Andando por eternas madrugadas,
Decifrando a vida já descrente,
Estarei te esperando quando quiser...
No mar...




(salve mellina freitas!)

a serenata

uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
quando ele vier, porque é certo que vem,
de modo que vou chegar ao balcão sem juventude
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
__só a mulher entre coisas envelhece.
de modo vou abrir a janela, se não for doida
Como a fecharei, se não for santa




(adélia prado)

Não ter onde morar

Eu moro em São Paulo
bairro de Jaçanã
eternizado por Adoniran.
Confusão na vila
nunca vi coisa daquela!
Em questão de instantes
acabou a favela.
Muitos barracos no chão
é a hora da desapropriação.
Cada tábua que caia,
doia no coração.
E a população
ficou sem eira,
nem beira,nem chão.
Houve até manifestação!
Sem ter onde morar
fiquei sem lar.
A favela era o meu lugar.
Agora só resta a mudança
acreditar na esperança
ainda sou uma criança
e espero a bonança.
Palavras do poeta
inspiram lembranças.
Saudosa maloca,maloca querida.
Lá na terra nóis passemo
dias feliz da nossa vida.
Quero um mundo melhor
e sair dessa pior.
Já são onze horas,não posso perder o trem
Que já vem...Que já vem...Que já vem...


(salve fábio henrique silva anjos, aluno
da e.e.f. frei antonio sant'ana galvão
cidade de são paulo)

HEXAGRAMA 65

Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.

1 dia
1 mês,1
ano



(salve paulo leminski)

pequenas coisas

pequenas coisas
deixavam meu coração
sossegado:
o cheiro da nossa velha casa
do café
do pão do Pinheiro.
o bom mesmo eram as madrugadas:
o barulho do trem
dos galos.
o coração disparado
no nascedouro das manhãs
na voz de espanto do meu pai
a nos acordar pra vida.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

momento

enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
o bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
resistiram em seus lugares, em seus ofícios,
constituindo um mundo para mim, anteparo
para o que foi um acontecimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. a vida é mais tempo
alegre do que triste. melhor ser.



(salve adélia prado)

tome nota

...a independência de Juazeiro não teria acontecido se para isso não houvesse concorrido uma conjunção de fatores.Além do justo reconhecimento 'a iniciativa dos juazeirenses natos representados pelo major Joaquim Bezerra de Menezes e do engajamento dos demais participantes, mais tarde sobre a liderança do Padre Cícero e da bandeira erguida pelo combatvo jornal O Rebate.


Leiam a História Da Independência De Juazeiro Do Norte

de
Daniel Walker

confissões

eis-me aqui
um poeta vegetativo
as pessoas passam
meus versos morrem
só eu fico
sozinho
concreto
nu e primitivo
no lodaçal do tempo

meu grito é tardio
sombrio
como essa escassa luz
que me doi a vista

é escondido

minha putice é esta
bruta
animal
capaz da morte
e nisso fico preso

tô sabendo de mim
do meu mal
e até da úlcera canônica
que tortura o meu duodeno

tô sabendo das minhas

que eu só sei meias palavras
do medo de ser preso
que não consigo te olhar nos olhos
do meu atraso sexual

eu sou jogado no mundo
talvez voce poderia me achar
num brilho que cega o olho
ou numa lata de lixo

bem que eu queria invadir o espaço
porém, estou nu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

aos amigos

vcs que por aqui encontro
no grito de cada poema
A cada comentário
tecido
a cada palavra dita
vai aqui o meu apreço
vai aqui o meu abraço.
Um beijo
um pedaço de queijo.

cícero sincero

cabôco disisperado

dotô,mi incine uma coisa
queu nunca pude aprendê
Ou é pecado inciná
Lê a quem num sabe lê
Mi incine eu lê as praca
apregada nas istaca
pula bêra das istrada
pra quando eu fô viajá
num prisiZá preguntá
essas coisa aos camarada.

Mi incine eu lê os nome
das penção qui tem nas rua,
pra qundo eu for me arranxá
num pidí ajuda sua
Mi incine seu dotô
Andá no mundo sem medo
Tirá carta de chofé
e deixá de assiná papé
Cá carapua os dedo


(salve o mestre chico pedrosa)

insignificâncias

exibirei a série de cores da minha imaginação como a cauda de um pavão,
entregarei minha alma a um enxame de rimas desconhecidas.
quero ainda ouvir nas colunas dos jornais rezingar
aqueles
que com focinho zurzem as raízes
do carvalho que os alimenta.


(vladimir maiakovski)

Cristo no Madeiro

Cheguei perto de Cristo no Madeiro
e perguntei:__O que estais fazendo ai
Uma voz respondeu dum nevoeiro:
Até hoje não sei nem entendi,
Me trouxeram arrastado pelas ruas
me pregaram nesta madeira crua
e hoje vago entre nebulosas
Sou aquele menino da cocheira
que hoje vive pregado na madeira
pelas mãos imbecis pecaminosas.

Nestas mãos cravejadas a martelo
e neste corpo pedente sobre a cruz
observam-se as marcas do fragelo
que sofri por ter nome de Jesus
Vim ao mundo para remir pecado
e por amor acabei crucificado
ladeado por dois salteadores
'a direita, um pedia pra salva-se
e 'a esquerda, um pedia pra livrar-se,
e são assim até hoje os pecadores



(salve o meste chico pedrosa)

sábado, 27 de novembro de 2010

Amor ao Rio

agora que sangras pra valer,
teu sangue é fruto
de erros do passado,Rio
Tão belo
e por tanto tempo abandonado
quando nas mãos de pífios
governantes.
Amo-te Rio,
mesmo não te conhecendo
e de ti
apenas sabendo ao longe.
Não é o Rio apenas
que sangra.
Sangra o povo brasileiro
nas balelas impressas
do discurso oficial.
Sangram nossos filhos
ao açoite das drogas
neste país da mentira oficial.
Amo o Rio
como tambem amo
todos os podres do nordeste tragados
pelo crack
e pela omissão.
O Rio
sangra
como há muito tempo
sangra
toda nação

Salve Neruda

para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre , minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o alföjar 'as corolas.
Escavas o horizonte com tua ausencia,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
Tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

a última estação

há cem anos
na estação de trem de Astapovo
Lev Tostoi
dava fim a sua fuga

aquele graveto verde
mágico
enterrado
por ele e o irmão Nicolai
nos arredores de Iásnaia Poliana
não legou-lhe o paraiso
e nem fez todos os homens felizes
(como assim sonhou o conde Lev)

Ah! Tostoi!
o buraco é mais embaixo.
Grande metáfora
aquela estação,a última, de sua  solidão eterna.
Aos diabos com a igreja
e a usura dos homens!

Há anos
tambem enterrei o meu graveto verde
no fundo do quintal da minha infância
 não me fiz feliz
tão pouco vi
esse estado estampando na cara
dos homens

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

cogito

eu sou o que sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do possível

eu sou com eu sou
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço e mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim


  (salve torquato pereira de araújo neto)

'a flor da pele

meia noite
os ponteiros se tocam no futuro
no ar
frio
e medo
Esta cidade cheira a latrina:
brigadeiro, paulista, ipiranga
luzes ao longe
bëbadas
labirinto fluorescente
no sonämbulo céu
de setembro
truvo guardião
de nada
manto espesso
sobre o lixo das calçadas
Olhos
läminas
fumaça
lama
Nas esquinas há sangue
e hirtos assassinos
...por enquanto quieto
formigueiro
(explodirá a última madrugada)
como cães raivosos
os homofóbos
atacam no coração da cidade.
__onde o paraiso
__ cadë consolação
Meu Deus o zoológico!
O intransponível!
Eis a vida labirinta
tudo aqui é infinito

até o ovo que gora

litoral

Cidade em armas, rabiscada.
Cheiro de suor morto 'a luz latejante
da sirene, com sonoplastia feita
de rumores,dos sustos curtos sob o cerco
das amontoadas montanhas atormentadas
não pelo raio, nem por nuvens pretas
ou chuva de pedra, trovoada, tempestade
A natureza, num instante sai do lugar
da margem do risco que o mapa permite:
nada, como um dia depois do outro, nada.
O insulto do azul automático reina
absurdo e indeferente, e sugere
sol, férias, verão, que ocorrem paralelos
ao desastre deste dia intransitável:
na calçada, calçada com corpos
no sinal vermelho coagulado em cima
dos malabaristas do mal-estar
diante dos corpos de caras amarradas
nas praias, de mar impróprio

terça-feira, 23 de novembro de 2010

agora

agora sim
luiza está comigo
bem aqui pertinho do peito
no silencio
brando da noite
luiza comigo está
entre palavras
versos
vaga-música
entre uma batida
e outra
do meu peito
luiza está

apelo do poeta 'as autoridades competentes sobre a fatídica sina do sertanejo

Por que oprimir um povo
que já nasceu com a injustiça
de morrer
sem nunca ver o mar

mulher

De saia flutuante
Maria, onde vais tão de repente

ou vais ao rio lavar a rede, ou vais 'a esquina vender a alma
alma, que alma
quem vende o que já não lhe pertence
De Antonio, de José, de Pedro
Maria dos peões,Maria sem um peão.
Maria que de flutuante tem a alma e as saias.
Dona  menina, como vencer as ondas deste Araguaia
quando as ondas de dentro já romperam todas as barragens
e inundaram todas as comportas!
Maria das marias que grita na praia!
Maria, Maria não vais de repente.
Ou vais atar a rede ao rio, ou rio não há

Dona menina, quem fostes
Maria sem saias flutuantes, Maria das marias, dos peões ,das ondas,
das esquinas, das praias!
Maria que atou a rede nas ondas do rio e dorme placidamente





    (salve ricardo rezende)

a saudade aperreia

A saudade
aperreia outra vez


Quem me substituirá
na compra diária do pão e leite
na Panificação Pinheiro

Por isso
trago no bolso da camisa
uma lágrima recolhida 'as pressas
na concha de minha mão

o calo do vinho

Mas Liber chama seu poeta, ele tambem protege os amantes e favorece os amores que a ele próprio inflamam


      Ovídio



O adeus dos sonhos



Os sonhos iam viajar. Helena ia até a estação de trem.
Da plataforma, dizia adeus aos sonhos com um lencinho.

A função da arte


Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
  Viajaram até o sul.

  Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

    Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar,
o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta imensidão do mar, e tanto o seu fulgor,
que o menino ficou mudo de beleza.
   E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando pediu ao pai:
    __Me ajuda a olhar!



       (eduardo galeano)

salve mia couto

* eu não tenho coração para adeuses.


* __ Tens medo de fazer amor comigo
__ Tenho__respondeu ele.
__Por que sou preta
__Tu não és preta.
__Aqui sou.
__Não,não é por seres preta que tenho medo.
__Tens medo que eu esteja doente...
__Sei prevenir-me.
__É porque então
__Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

kassab e os artistas

não é fácil vida de artista:
ser palhaço estátua
malabarista.
no circo pode
só não pode
na Paulista.
daqui a pouco
será proibido
transeuntes,
pois podem gastar
o cimento das calçadas.
daqui a pouco
Kassab vai proibir
a luz do sol.
meu Deus como
é biltre e idiota
o alcaide
de San Pablo!

a pequena morte

não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que doi. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebra-nos faz por juntar-nos, e pedendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem, mas grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.




      (salve eduardo galeano)

domingo, 21 de novembro de 2010

soluço como o do mar

eu vou cantar baixinho ao pé do seu ouvido uma canção
estranha!
mas exijo que um grande silencio se faça entre nós dois...
__um silencio como o que desce sobre a minha vida
quando os teus olhos  se debruçam sobre mim.
escuta,meu amor:
melhor seria que o portador do meu recado fosse o vento!
só ele é bastante brando para conduzir os meus pensamentos
invisíveis...
__os meus lindos pensamentos frágeis como o teu ser!
porém, para mandar sobre os ventos, preciso seria
que eu fosse um deus
__eu que na vida nem sequer pude ser um demônio!
mas, ai, que aquilo que eu te queria dizer se transformou

num grande soluço...
um soluço como o do mar
que vai de canto a canto do mundo...
.........................................................
ouçamos as vozes do mar, meu amor!






      (salve mestre ascenso ferreira)

a infinita fiadeira

a aranha
ateia
diz
ao aranho
na teia:
o nosso amor
está
por
um fio!



...e os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia. Até que um mais -velho, se lembrou. que houvera um tempo, em tempos de que já perdera  memória, em que alguns se
ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses poucos rentáveis produtos__chamados de arte__ tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembravam bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.




                (salve mia couto)

a morena do twitter

por ti geme
a minha alma sertão
meu coração desanda
em serena serenata
quando pinta na
minha timeline
a morena do twitter

sábado, 20 de novembro de 2010

instantes

se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
não tentaria ser tão perfeito, relaxaria  mais.
seria mais tolo aonda do que tenho sido, na
verdade pouca coisa levaria a sério.
seria menos higiënico.
correria mais riscos,viajaria mais, contenplaria
mais entardeceres,subiria mais montanhas,
nadaria mais rios.
iria a mais lugares onde nunca fui,tomaria
mais sorvete e menos lentilha,teria mais problemas
reais e menos imaginários.
eu fui dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada momento dessa vida.
claro que tive momentos de alegria.
mas, se pudesse voltar a viver trataria de ter
só bons momentos.
porque, se não sabem,disso é feita a vida,
só de momentos, não percas o agora.
eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termömetro,
uma bolsa de água quente,um guarda-chuva e um para-quedas.
se voltasse a viver viajaria mais leve.
se eu pudesse voltar a viver,começaria a andar descalço
no começo da
 primavera e continuaria assim até o fim do outono.
daria mais volta na minha rua,contemplaria mais amanheceres,
brincaria mais com as crianças,se eu tivesse outra vez
uma vida pela frente.Mas já viram,tenho 85 anos
e sei que estou morrendo


(dizem que é de jorge luis borges)

Trio Esperança-Rua Ramalhete

segunda canção do beco

teu corpo moreno
é da cor da praia.
deve ter o cheiro
que tem ao mormaço
a areia da praia.


teu corpo moreno
deve ter o gosto
de fruta de praia.
deve ter o travo,
deve ter a cica
dos cajus da praia.

não sei, não sei, ma s
uma coisa me diz
que teu corpo magro
nuca foi feliz.



(salve manuel bandeira)

poema do beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do hori-
                                                                               te

__O que eu vejo é o beco



    (salve manuel bandeira)

vire a página

o poeta é um gradíssimo filho-da-puta
idiota
biruta
besta quadrada
(digo isso com todo respeito que tenho pela laia)
enquanto perdem tempo
sonhando no poema
a vida lhes dá uma porrada


eis aí meu chapa
a primeira verdade do poema
a primeira mentira do poeta



in Labirinto
poemas 'a flor da pele

cicero gomes

Deus e o Poeta

se eu falar
que o poeta come vidro
tem nëgo que acredita
e mais ainda
que o poeta conhece Deus
e até twittou com ele
e foi 'a lua antes que os astronautas
tem menino que não duvida, ah! se tem.
se eu falar em praça pública
que o poeta tem oito vidas
e foi o primeiro homem a mentir
o povo todo estára comigo

o poeta
vire a página

desejo

esqueço todo o enredo
anseio por algum antigo sentimento
que reaqueça o ambiente
e me esqueça por algum tempo
ao alcance de tuas mãos





(ana salvagni)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

queria que voce voltasse

queria que voce
voltasse com aquele sorriso largo
e tirasse a lama da minha alma

e enchesse a casa toda
com sua alegre displicëncia
e pusesse em desordem
os objetos do dia

queria que voce voltasse
assim sem hora marcada
para transbordar melhor
a alegria

...ah! como eu teria tempo
para ouvir tuas maluquices
nos estilhaços da noite

vem!
volta logo
que já me sobram
desamparos
e abandonos

cruzada

Araguaia
            Alagoas
                  Thainan
Wãpura
Eh Lanna
             Amayi
              Apoena
  rio e mortre
  mar e sonhor
         vida cruzada

Murici

amar a quem


...aos passarinhos
         que são livres e podem voar

pense

cada momento
tem o tamanho
do eterno

Porto de Pedras

porta do sol
morada de areias desertas
mar manso
solidário
soliítario
de peixes-vidas
Porto de Pedras
de ondas
arrefices
praias encoqueiradas
brisas marinhas
Porto de Pedras
com suas casinhas
tímidas
desgastadas de maresia
de ruazinhas apertadas
descalças
Porto de Pedras
cidadizinha calminha
refúgio de velhos pescadores
contadores de estórias do mar
Porto de Pedras
brinquedo de meninas
levadas
lavadas de sol
Porto de Pedras
de tiradores de cocos
de cantadores de cocos
de curtidores de couros
                       e sonhos

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

cinema

__Mas D. Nina,
aquilo que é o tal de cinema

O homem saiu atrás da moça,
pega aqui, pega acolá,
pega aqui, pega acolá,
até que pégou-la.
Pegou-la e sustentou-la!
Danou-lhe um beijo,
danou-lhe um beijo!...

Depois entram pra dentro dum quarto!
Fëz-se aquela escuridão
e só se via o lençol bulindo...
...........................................

__Me diga uma coisa,D. Nina:
isso presta pra moça ver..


Filosofia


Hora de  comer __comer!
hora de dormir__dormir!
Hora de vadiar__vadiar!



Hora de trabalhar
__pernas pru ar que ninguem é de ferro!



   (salve o mestre ascenso ferreira)
       

predestinação

__Entra pra dentro, Chiquinha!
  Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que voce vai
voce acaba prostituta!

E ela:

__Deus te ouça, minha mãe..
Deus te ouça...



     (salve o mestre Ascenso Fereira)

trem de alagoas

o sino bate,
o condutor apita o apito,
solta o tem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar...

__vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

mergulham mocambos
nos mangues molhados
moleques mulatos,
vëm vë-lo passar.

__adeus!
__adeus!

mangueiras, coqueiros
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bom de chupar...

__adeus, morena do cabelo cacheado!

mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos
que amostram, molengos,
as mamas macias
pra gente mamar...

__vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...


na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

__ali mora o Pai-da-Mata!
__ali  é a casa das caiporas!

meu Deus! já deixamos
a praia tão longe...
no entanto, avistamos
bem perto outro mar...

danou-se! se move
se arqueia, faz onda...
que nada! é um partido
já bom de cortar...

cana-caiana
cana-roxa,
cana-fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...

__adeus, morena do cabelo cacheado!

__ali dorme o Pai-da-Mata!
__ali é a casa das caiporas!

__vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...


(salve o mestre Ascenso Ferreira!)

Ytxala

o berocan* voce não viu,
Karajá olhando tori** com os olhos de fogo
não,voce não viu
a graça
 branca rubricando o ar.
voce nem viu
o pör do sol mais lindo da vida
voce não viu
(ali no Araguaia)
as estrelas brilham mais.
voce e sua velha mania
de reunir ruas
e amigos
não teve nem tempo para o silencio.
sorveu o veneno da noite
e as frias horas madrugadas.
suas mãos grandes mãos
pareciam abarcar os sonhos.
sua voz suave
a nos encantar
no insulmo do azul
do dia.
 queria um dia te levar
a conhecer Ytxala***
mas Retorancã****
não tendo outra tainá disponível
de mim te roubou pro céu.




*berocam, rio araguaia
** tori, homem branco
*** ytaxa, aldeia karajá
**** retorancã, deus karajá

Salve Minha Couto e Suas Frases

* a saudade é um morcego cego que falhou o fruto e mordeu a noite.

* A terra é página de Deus.

*Quando se faz amor assim, de paixão total, fica-se longe
das palavras. O encantamento é uma coisa que tem  o silencio por teto.

* O problema da solidão é que não temos ninguem a quem mentir.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

salve mia

...mas a paixão é coisa que morre mesmo antes de se extinguir, tão sorrateira que nem lhe
notamos enterro nem velório. No jejum do coração quem emagrece é a alma. Até
que o céu perde o cheiro, o tempo não tem sabores e a vida se deslocará.


          in A Outra
                 Mia Couto

Distribuição da Poesia

Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Escuta,meus irmão: poesia tirei de tudo
para oferecer ao Senhor.
Não tirei ouro da terra
nem sangue de meus irmãos.
Estalajadeiros e banqueiros
sei fabricar distancias
para vos recuar.
A vida está malograda,
creio nas mágicas de Deus.
Os galos não cantam,
a manhã não raiou.
Vi os navios irem e voltarem.
Vi os infelizes irem e voltarem.
Vi os homens obesos dentro do fogo.
Vi ziguezagues na escuridão.
Capitão-mor onde é o Congo
Onde é a ilha de São Brandão
Capitão-mor que noite escura
Uivam molossos na escuridão.
Ó indesejáveis, qual o país,
qaul o país que desejais
Mel silvestres tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos, meus irmãos.


(Jorge de Lima)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

dos bares, o saber

há um falar alagoano
que nos bares a vida pulsa
com seu pulsar mais sincero

há um dizer nordestino
que cada bar tem sua fala
seu ritmo rito cumplicidade
e a complacëncia do dono
para arquivar no prego
a tonta conta

dizem as boas línguas
que prego de bar a conta
envelhecida não fica
e sim dita esquecida

afoguem freud, torturem reich
fora jung aos diabos com lacan
morte aos livros de auto-ajuda
desintegrem a melancolia
o baixo astral,a terapia

tome um chopp e vá 'a luta
que a vida pulsa nos bares
no aconchego dos amigos
no sorriso dos confrades

DA MATA 'A CIDADE

ruas planas de asfalto
que como os negros
pisadas
cruzam
se entrecruzam
e se abraçam em cada canto
pálidos edifícios ousados
tentam roubar o céu

ruídos
gases assassinos
estúpidas geometrias
agridem meus olhos sombrios

onde a mata
onde o rio

...e eu que num sö dos que adula
vim foi da foice e da faca
canto de cara mia bula
___óia seu mundo ,babaca!
ocë que pensa que me anula
coa sua soberba de jaca
pode ficar co a sua gula
sua zoada véia de matraca.
feito esses fio caçula
fujo de tu,da tua taca
enquanto ocë só regula
quá cobradö na catraca
da goela um riso me pula
zombo de tu iguá macaca:
tá escondidim na matula
minha farofa de paca.

cúmplices do extermínio
teus alicerces
escondem traiçoeiros
fósseis dos Tamoios
araras emudecidas
cinzas de pau-brasil

onde o ouro
onde o rio
onde o cio

...pode vim, vem sua peste,
cë que pensa que me cala
sö cabra macho do agreste
resorvo nas leis ou na bala
num söde prosa ou intriga
mai num injeito uma briga
cë que põe tudo na linha
esbarra que eu berro e te falo
tu sobe em mim como um galo
mai desce feito galinha


pelos teus calabouços
circulam massas formiguentas

tuas asfixias
esterilizam gradativas

...até o mar lá se some com seu ar fugigio

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Minas Gerais - Milton Nascimento

cravo minha alma em minas
com segredo e silencio
nesta montanhas
de beleza
e assombro
Minas
por te
minha gratidão
e em teu solo
sagrado
meu sangue

está
pétreo
no bronze de
de tuas entranhas

Anima - Milton Nascimento

QUEM SABE ISSO QUER DIZER AMOR - MILTON NASCIMENTO

poema relativo

vem,ó bem-amada
junto 'a minha casa tem um regato
(até quieto o regato).´
não tem pássaros que pena!
mas os coqueiros fazem,
quando o vento passa,
um barulho que 'as vezes parece
bate-bate de asas.

supõe, ó bem-amada,
se o vento não sopra,
podem vir borboletas
'a procura das minhas jarras
onde há flores debruçadas,
tão debruçadas que parecem escutar.

todos os homens tëm seus crentes,
ó bem-amada:
-os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.

mas tudo é pequeno e ligeiro no mundo,
ó amada.
só o clamor dos desgraçados
é cada vez mais imenso!


vem, ó bem amada.
junto 'a minha casa
tem um regato até manso.
e os teus cabelos podem ir devagar
pelos caminhos:
-aqui não há inquietação
de se atravessar o asfato.

vem, ó bem-amada,
porque como te disse
se não há pássaros no meu parque,
pode ser, se o o vento
não soprar forte
que venham borboletas.
tudo é relativo
e incerto no mundo.
também tuas sobrancelhas
parecem asas aberta.




(jorge de lima)

hoje

hoje eu estou com meus
blues
travo amargo
na garganta
sem o chão
da esperança
hoje
eu
estou sem sentido
e na outra margem
do rio
hoje
perdi a chave
de casa
fiquei preso
na rua
mas sou amigo
dos cachorros

Internet Coco - Mácleim



esse cara aí do violão
correu o mundo com seu som
fez dueto com hermeto
e aprontou no velho mundo.
esse cara aí do violão
é meu amigo maiculino.
__mais respeito! é Mácleim__
é pra ele eu tiro
o chapéu.

colheita

um pingo de lua esquiva
um brilho de esparsas estrelas
por entre as frestas da porta
no silencio adrede das formas

alinhavo

meu pai
trabalhava a cangalha
em silencio
sob a luz do candeeiro
e
eu com a boca aberta de
sonho
voava
conspirava
transpirava
mundos
de tarzan
e robin wood

bicicleta

mamãe, mamãe...papai noel
me deu o presente errado

domingo, 14 de novembro de 2010

o poeta descobre o amor

te amei de longe
vindo de tão longe.
meus olhos miravam tua
distancia.
amei teu corpo longo
escultural.
meus pés
caminhavam ao teu
encontro
tomado da emoção
primeira.
quis tomar-te
em meu braços
mas eras demasiada
grande, tão longa
que minhas mãos
jamais poderia tocar-te
em todo.
mas te amei
'a distancia,
o verde-azul
predominando
tuas escarpas.
te amei de longe
morada de Deus
jardim dos deuses:
Chapada do Araripe

salve neruda

déjame que te hable también con tu silencio
claro como lámpara, simples como un anillo.
Eres como una noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas quando callas porque estás como ausente.
Distante y dolosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto

Salve Mia

É esta história que , agora, Eulália conta quando, na aldeia, os outros lhe pedem para falar do dia que choveu peixe. E riem-se do pasmo ao espasmo. Com a fartura de quem sabe da magreza de suas vidas. Vale não haver escassez de loucos. Uns seguindo-se aos outros, em rosário. Como contas de missangas, alinhadas no fio da descrença.



(mia couto)

sábado, 13 de novembro de 2010

FRUTA

gosto da palavra
barro,
me lembra a infäncia.
das bricadeiras de menino
ainda sei todos os códigos.
minha primeira viagem deslumbrante
foi de trem 'a Maceió.
dela lembro:
a calça azul de mescla do meu pai,
o barulho dos vagões
e a beleza ainda primitiva da Lagoa de
Mundaú.
das rezas de minha mãe
vieram-me o temor de Deus
__nunca entendi o sofrimento de Cristo
num quadro de parede__.
(por que os santos possuem os olhos tristes)
resposta que nunca tive.

fatalidade

fogo selvagem acelera a madrugada
e se antecipa 'a chama submissa
do dia pleno, que atinge, por igual
com a dor ainda maquiada, a pele.
queima, concentrado, detalhes do rosto
corpo, a mão inteira da escrita, do estigma
e marca o acidente da beleza.

PAIXÃO E FÉ 1978

o poema que me cabe

o poema que me cabe
contém o cheiro de
 terra molhada.

a solidão das montanhas
os sinos de minas
meu coração barroco

o poema que me cabe
contém
as longas mãos
e sorriso de wápurã
as traquinagens
de apoena
o araguaia de thainan
os devaneios de amayi.

o poema que me cabe
desagua no mundau
rio da minha vida
do meu destino na terra

loa

rasgar a cena,
estilizar o ato.
no átrio da voz
algo veloz
deslizando


rarefeita luz
alumbrando horas.
a partir de agora
vale como canção
este assovio:

  __ ó sol
  __ ö lua
       céu azul!


desatar as palavras,
destinando ao poema
a redescoberta das cores

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

coração abandonado

por ela
reinventei noites
e luas.
larguei
tambem meus poucos
amigos.
elogiei
até
o frio
dos seus esmaltes.
por elas
troquei
a noite pelo dia
e disse não a minha poesia

...e por fim tão fria
suas ultimas palavras


e hoje
não tenho casa
nem país
e aqui
eu não fico
pra dormir

lapinha sertaneja

um dia eu fui a Piranhas.
um dia fui conhecer
Piranhas.
suas ladeiras,
a sua história.
No silencio da noite
quem tem bom ouvido
ainda pode  ouvir
os gritos
do cangaceiro Gato.
o São Francisco lá embaixo
desliza suave e profundo
assuntado seus mistérios.
o fantasma da cabeça de Maria Bonita
ainda ronda a memória
dos meninos impossiveis.
meu Deus!
como é singela,Piranhas!
como é bela!
tão bela
que merece outro nome:
Lapinha Sertaneja

a sala

meu bisavö foi 'a guerra,
lutou contra Solano.
trouxe a espada.
ganhou honrarias e medalhas,
terras e muita fama.
matou e amansou índios,
possuiu muitas mulheres
e conheceu poucos filhos.
amaou as farras e o fado.
viveu cento e tantos anos
entre vinhos e memórias.
jamais caducou.

meu avö possuiu mulheres tantas
que nunca soube seus nomes.
perdeu,nas noites,a terra
com mulheres,jogos e amigos.
morreu e nada deixou.

meu pai só legou o nome
desta vil genealogia.
e ajudou a alimentar
este clã de além mar.
como todos, amou a noite.
e alegrou a noite com sanfona e canto.

hoje, todos nas molduras tão douradas
me olham com espanto e vasculham a sala
entre jacarandás seculares.
e já não andam e nem sonham
com seus próprios pés.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

herança nordestina

O pai:

__ fio voce já chegou
     terra no pé da bananeira

O filho:

__ sinhö

__ já comeu carne mijada

__ heim

__ quantos anos voce tem

__ tenho quinze!

__ ö maricota toma tres contos
     me descabaça  esse muleque

uma flor

vejo uma flor de pequi
uma beleza.
vejo uma flor de pequi.
é tua pele recortando a persistencia do fogo.
vejo uma flor de pequi.
é teu rosto armado
engalobando a noite.

vejo uma flor de pequi.
são tuas mãos treinadas
em reunir terra
ventos e rios.
vejo uma flor de pequi.
é teu corpo refeito
na vigorosa e rigorosa
consequencia
de sua fala e mala.
são teus olhos
atinando a presença bruta
do amor
em natural sintonia
sem o amparo de nenhuma dor.

vejo uma flor de pequi.
e ofereço:
uma beleza a outra beleza.


(francisco marques)

magia

a magia
do papel
que inspira
qualquer treco
palavrinha por
palavra como
quem pega
borboleta
com os olhos
de pescador
eu chego de
mansinho e fisgo
o peixe-poema
tinjo-o de cor
de rosa,
um pouquinho de azul
e lá se
vai meu poema
filho da mesma
cria
rolando
na beira
do mundo

o amor

o amor quando chega
deixa tudo de pernas pro ar
avessa a vida da gente
invade o peito
não pede licença


o amor quando se vai
não mede a dor
não se justifica
deixa um turbilhão
e nossa casa  vazia

a descoberta da poesia

O Pai:

__Esse menino não ri,Maria,
mania essa de juntar palavras,
vai aluar e correr rua
quando chegar a grande lua.


A Mãe:


__Deixa o menino,Antonio,
no seu brinquedo de silencios...



(para claudia costin)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

BJORK - "TRAVESSIA" de Milton Nascimento

la luna

a lua
lavra
livre
o lume
na rua
passam libres
los passos
no ar
passeiam livres
los pájaros



(a ariana para que seja libre sua vnz)

tayra e os poetas

senhor,
já que levastes para perto
de ti
aquela
que amava os poetas
e seus escritos pendurava
em cordeis
pelas praças
pelas ruas
Delega-lhe a função
de pendurar poemas
no
céu,
Senhor.
Outra coisa,
Senhor,
quem colocará no varal:
os nossos sonhos
as nossas iras
as nossas dores
derretidas em versos,
já que levastes
Tayra
e
Wãpurã.*
Senhor
tens a mania
de responder
apenas em silencios
enquanto sangra
os nossos corações...



*tayra,jovem de maceió que participava do projeto Poesia no Varal
**wãpura,meu filho de 23 anos que se encantou

ah belo horizonte

belzonte do maleta
da cantina do lucas
e do lua nova
belo horizonte
das minhas madrugadas
vadias
fugidias.
...e aquela minha
mania antiga de
renomear estrelas
tudo isso vem de ti
belo horizonte.
meu caminhar
no mangabeiras
um papo largo no buléia
regado a pinga solidária
o tiragosto da hora.
ah! belohorizonte!
me deste um filho
me adormecestes
um filho para sempre
só para fazer
de ferro meu coração.
ah! belo horioznte!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Milton Nascimento - Para Lennon & McCartney (1983)

balada

tinhas em ti
quando te vi
a doçura dos cajus
da minha terra

o amor é uma fruta

meu amor é uma fruta
maria

sem título

o barulho subindo
as escadas
o barulho de voce
subindo as escadas
meu coração disparando
a campainha
tocando


não era cinthya
era o síndico


(nicolas behr)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

o olhar

o olhar daquele homem
e seu corpo era um só músculo,
o coração espasmódico
sua fé lämina despedida
__ele ali e seu Padim_,

seus dedos como um relógio
rosário da sua vida
pedia e agredecia
a graça obtida

o olhar daquele homem
singela fé de sertão
o seu corpo em genuflexo
na fria lage do dia.
na igreja do Socorro
extinguia ácidos do sol
sua alma candieira

fome e olhos de esperança

agora a erva da fome
da sede nos abatia
além do sol quente de morte
no calor do meiodia
Ah! infinito estradar
de murici a juazeiro,
As palmas batidas ao portão,
a dona da casa que chega
e nos serve a fria água
dessa gente hospitalheira
de quentura nordestina
daquele sertão de mundo.
Djalma embola as palavras
ao pedir pouca comida,
a dona adenra a casa
muito bem compreendida,
no portão a nossa espera
uma hora vale uma era.
Passam solenes minutos
da cozinha a mulher não sai,
os olhos firmes de Djalma
penetram toda morada,e,
estático seu corpo está
como natureza morta,enquanto
o pequeno ponteiro
no relógo dar sua volta.
Saimos dali cabisbaixos.
__ela nos deu a melhor água,
o resto não mais importa.


(a memória de seu djalma,
cicero gomes)

alagoanës

Bulacheira


é uma mulher que se relaciona emocionalmente e
sexualmente com uma pessoa do mesmo
sexo.


(em palavras populares de alagoas,de luciano langman)

mundo cão

grato pela compreensão
te apresento o mundo cão
nenhum prazer

não, não arranhei
seu carro não, moço

só olhei, passei perto
não atira não



(nicolas behr)

perdas número 2

perdi
a minha casa da infância
seus objetos rotos
os tortos quadros
na parede.
perdi
os resmungos de meu pai
bulindo em suas catrevagens.
o coqueiro magestoso
o mundau carregou.
setembro sem sentido
levou o sorriso do meu filho
e hoje resta
essa lágrima acesa
na concha da mão

domingo, 7 de novembro de 2010

Solilóquio

só quero
a solidão do mar
pra chorar
o não do meu amor

só quero a imensidão
do mar
pra sarar
a dor
do meu amor

Olhar no olho

paixão é sem freio
ditame de bem querer
fogo de corpos

luau

meu amor surgiu
por trás dos edifícios
quarado de lua

Ennio Morricone - Cinema Paradiso

sábado, 6 de novembro de 2010

Lá onde Helena
trocou seu trono
pelos amores
de um troiano,

Lá onde a língua
inculta e bela
nas mãos de um náufrago
tornou-se aquela

Orgulho e raça
dos lusiranos
em que Caminha
fundou seu canto

Na utopia
de um mundo novo,
miscigenado
e vagabundo,

O mesmo mundo
onde a menina,
pelo sentidos,
pelas retinas

Nas águas mornas
do Cabo Branco,
traçou seu fado
teceu seu manto:

Amores raros,
heróicos cantos.


poeta de Brasília
Amneres

George Harrison My Sweet Lord

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

o sorriso de isolda

pegue uma poção do mar de pajussara
uma dose do por do sol da lagoa de mundau
uma viagem bucólica de trem até lourenço de albuquerque
um beijo ao luar na ilha de santa rita
um gol do meu csa
ai estará
o sorriso de isolda

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

RIORIOS

do cerne da minha alma
fluvial
passam águas
muitos rios
Do Rio das Mortes
ao Araguaia
me tranporto rio afora
sertão adentro
pra longe do mar.
Vou escrevivendo
entre águas
novas águas
cursos novos
sob atento olhos
caminheiros.
Passar por Minas é
passar por muitas Minas
montanhas muitas
e rios múltiplos
de águas vindas de lugares tantos.
Do Rio das Velhas
ao Velho Chico
tudo é um céu mineral.
Muitos rios se encontrando
águas abarcando a vida
ouro sonho
diamante
e líquida miséria
barrancando a vida lentamente.
rio são águas
águas são rios
e o mar assombra
atrai devora.
RioRIOS
como fugir do mar
se o mar é rio mor
é água mãe
Hoje
além dos parcos sonhos
nossas infâncias
recolhidas
retorcidas
como arestas.
...e as águas vão
se vão vivas mortas
do Araguaia
das Velhas
ao Sono
ao Chico
ao Mundaú aporto solítario.
E meu corpo se refaz em sonho
em águas
de um triângulo
sentimental
fluvial
escaleno
no Mar de Alagoas
minha vida
se recolhe
entre águas renovadas
lapidadas

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PaLavrAmiga: Carrego seu coração comigoeu carrego no meu coraçã...

PaLavrAmiga: Carrego seu coração comigo eu carrego no meu coraçã...: "Carrego seu coração comigo eu carrego no meu coraçãonunca estou sem eleonde quer que eu vá,voce vai comigoe o que quer que eu façaeu faço por..."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Carrego seu coração comigo
eu carrego no meu coração
nunca estou sem ele
onde quer que eu vá,voce vai comigo
e o que quer que eu faça
eu faço por voce
não temo o destino
voce é o meu destino meu doce
eu não quero o mundo por mais belo que seja
voce é meu mundo,minha verdade.
eis o grande segredo que ninguem sabe.
aqui está a raiz da vida
o broto do broto e o céu do céu
de uma árvore chamada vida
que cresce mais que a alma pode esperar ou a mente pode esconder
e esse é o pródigio que mantém as estrelas a distancia

eu carrego seu coração comigo
eu o carrego no meu coração

(a wãpurã,meu filho encantado)

Eu carrego voce comigo
E.E. Cummings

volta atrás vida vivida

deixa eu refazer o que não dei conta,
volta de novo vida vivida
quero primaveras
outras noites de são joão
a sanfona do meu pai
solunçando as madrugadas.

quero ao filho contar estórias
de malasartes e malasombro...

perdas

perdi a casa da minha infância,
o Mundau a levou
com suas histórias
abacateiro
um pé de pitanga
duas goiabeiras
um pé de acerola
um pé de manga espada
da minha mãe
e o grande coqueiro
que com olhos de espanto ajudei
meu pai plantar.
perdi a minha casa
e nela esta contida
os temores da minha meninice
as grandes dúvidas da minha juventude.
tudu,tudo o rio levou para o mar sem fim.

sábado, 30 de outubro de 2010

POEMA DO BECO

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte

__ O que eu vejo é o beco


salve manuel bandeira

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

um só palavra

de sepre gado

DESEMPREGADO

frequentemente cometemos erros tão bonitos

foi uma tarde,
jaboticabas e manga-rosa.
voce me disse
que a boniteza da vida
é roupa no varal.
foi numa belohorizontina tarde
que a verdura da paixão ardia em nossas mãos.
dela só sei o seu nome,
dos seus olhos sei a cor
estrábica luz e torpor.
tudo foi tão poesia
até o duro do adeus