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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Rafael Pereira de Aguiar

Hostiário,
fechai todas as portas,
o poeta Rafael hoje não vem
sonhar com Laura.
Abriu seu coração
as portas da sua alma
e teima no céu
a eternizar sonetos

você já vai tarde 2010

você ja vai tarde 2010
você me causou uma dor
tamanha
e cravou no meu peito
uma saudade
que não há nada que apague.
você já tarde 2010
deixou triste a pátria de chuteiras
destruiu minha cidade
mas não a solidariedade.
você ja vai tarde
e se vai no seu tempo findo
2010
e só uma coisa me deixou amplo de paixão:
o twitter
e meus novos amigos.
Vai com Deus 2010
e adeus 2010

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Uma conversa com Octavio Paz:Betty Milan

Poeta e ensaísta, Octavio Paz foi Prêmio Nobel de Literatura em 1990. Nasceu no México em 1914 e passou a infância nos Estados Unidos com a família. De volta ao México, formou-se em direito e fez especialização em literatura. Lutou na Espanha, em 1937, ao lado dos republicanos, mas nunca abraçou o comunismo. De 1946 a 1951, viveu em Paris, onde se ligou a André Breton e freqentou o grupo surrealista, no qual encontrou o poeta Benjamin Peret, que viveu no Brasil e no México e foi seu tradutor para o francês. Além de escritor e tradutor, Octavio Paz foi diplomata. Demitiu-se do cargo de embaixador de seu país na Índia em protesto contra o massacre da Praça das Três Culturas (Tlatelolco, 1968), no qual morreram mais de cem estudantes mexicanos. Comentando sua morte em 1998, o escritor peruano Mario Vargas Llosa o qualificou como “a consciência viva de sua era”. É conhecido no Brasil, sobretudo, por seus ensaios, como O arco e a lira, Signos em rotação, O labirinto da solidão entre outros.

À jornalista que perguntou a Octavio Paz se ele acaso não temia ficar colado à imagem que a notoriedade lhe dava, ele respondeu: “Não acredito nessas consagrações. A única consagração é um leitor capaz de dialogar com a gente. Não, eu não penso que esteja impressionado com os meus sucessos. A vida inteira as minhas opiniões foram minoritárias”.

Precisamente por querer o diálogo ou o encontro, ele lançou um ensaio sobre o amor, A dupla chama, que não cessa de reenviar o leitor à sua própria experiência e de fazê-lo considerar, através desta, as diferentes ideias do texto.

Escrito para nos convencer do caráter historicamente subversivo do amor, que, contrariando a tradição ocidental, enobreceu o corpo, o livro é um ensaio de poeta. Por isso mesmo, a chama que ele acende não vai se apagar. “O amor é uma flor sangrenta e é também um talismã: a vulnerabilidade dos amantes os protege”, escreve Octavio Paz. E quem poderá se esquecer do que ele diz da pessoa amada: “Terra a descobrir e casa natal”.

Tendo em vista A dupla chama, fui ter com Paz no Hotel Lutetia onde, apesar da minha oposição inicial, ele deu a entrevista num salão repleto. As idas e vindas das pessoas em momento algum o molestaram, e eu, que temia não compreender o seu espanhol, logo fiquei à vontade. Só quando eu não ouvia ou não entendia, Octavio Paz passava do espanhol para o francês, a língua em que eu lhe fazia as perguntas, não por ele desconhecer o português, mas por conhecer menos o português do que o francês, a segunda língua dos escritores latino-americanos da sua geração.

Depois da entrevista, Paz me convidou para tomar um café. Contou-me, durante a conversa, que foi tradutor de Fernando Pessoa e falou com admiração de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira [1]. [BM]

BM O senhor diz na introdução ao livro A dupla chama que, antes de escrevê-lo, hesitou muito, mas não teve como não escrever este livro sobre o amor e fez isso com um “desespero alegre”. Que relação o senhor estabelece entre a escrita e o amor?

OP Há uma relação íntima quando se trata de certo tipo de escrita – a escrita literária, a poesia ou o romance. Há muitas formas de escrever. Quando a gente quer expressar algo de muito profundo, escreve um poema ou um romance, procura assim objetivar a paixão. Em geral, a escrita nasce de uma vocação, a gente está condenada a escrever sobre certos temas. Você, que é escritora, sabe disso. Acontece a mesma coisa no amor, que começa com uma atração involuntária – a que a gente está destinada – e depois se converte, através do livre-arbítrio, numa forma de liberdade.

BM O senhor utilizou a palavra condenada. Em que medida existe um livre-arbítrio?

OP Trata-se de uma questão tão antiga quanto a filosofia. Não há resposta e as respostas que eu encontrei me parecem igualmente insatisfatórias. Há uma eterna relação entre a palavra “destino” e a palavra “liberdade”. Os gregos viram isso muito bem. Para que o destino se realize, é necessário que ele conte com a cumplicidade dos homens. Para que Édipo [2] cumpra o seu trágico destino, ele tem que escolher voluntariamente, sem saber o que está fazendo, claro. Quero dizer que em cada ato humano há uma dose de determinismo, mas este não pode se realizar sem a liberdade, que, por sua vez, necessita do destino para se realizar. Podemos dizer que, se a liberdade é uma condição da necessidade, o inverso também é verdadeiro. Não há como considerar separadamente a palavra destino e a palavra liberdade. Os dois termos estão perpetuamente em luta; e um não vive sem o outro.

BM Agora que o senhor já escreveu o livro com um “desespero alegre”, talvez seja possível me dizer por que escolheu o amor como tema.

OP Eu o escrevi com um “desespero alegre” porque o escrevi no final da minha vida. Mas o que importa é que eu o escrevi. Por que o fiz? Desde que comecei, quisera ser, quisera ter sido… a gente até começa a falar no passado… bem, quisera ter sido poeta. Os meus melhores poemas foram de amor. Às vezes foram poemas eróticos. O tema do amor é uma das minhas obsessões, um dos eixos em torno dos quais girou a minha vida pessoal e também a minha vida intelectual.

BM Sim, mas por que o senhor escreveu um ensaio?

OP Porque queria explicar o amor para mim mesmo. Quando comecei a escrever poemas, eu me disse que precisava escrever algum ensaio para justificar o ato aparentemente absurdo de escrever poemas. O mesmo ocorreu com o amor.

BM O senhor afirma que Platão [3] teria ficado escandalizado com o que nós chamamos amor. Seria possível comentar essa frase?

OP Para Platão, o amor não tinha o sentido que damos a ele e que surgiu na Idade Média com a poesia provençal. O amor, para Platão, era o erotismo, a ação de Eros, o deus da luz e da escuridão, o mensageiro, a força atuante. Platão concebia o amor como um desejo de beleza que terminava na contemplação das ideias eternas. Ademais, o amor não se dirigia a uma mulher, e sim aos efebos. O amor de que falamos, e que hoje pode ser homossexual, nasceu como uma paixão heterossexual. Nele existe um gosto pelo sofrimento, pela tragédia – como em Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta [4] –, que teria escandalizado Platão. O amor também escandalizou os cristãos, pelo fato de se colocar numa criatura humana o que é próprio da divindade. Lope de Vega [5] diz que, no amor, a gente busca o eterno no que é perecível. O amor é uma blasfêmia para a Igreja; ele é subversivo diante da filosofia e da religião.

BM O senhor diz que o amor é uma aposta extravagante na liberdade, pois o livre-arbítrio transforma uma atração involuntária entre duas pessoas em união voluntária. Isso é bastante claro quando pensamos em Tristão e Isolda ou em Romeu e Julieta. Mas o romance História de O [6] não é uma aposta extravagante na servidão?

OP A questão é muito interessante. Mas O decide, porque ama René, que deseja se deixar escravizar. Os estoicos pensavam que só se pode afirmar a liberdade dentro dos limites do destino. Epicteto [7] dizia que o escravo tem a liberdade, pelo menos no seu interior, de dizer não. O mesmo ocorre com O, que é uma mulher livre e se vale da liberdade para se converter numa escrava.

BM Cabe perguntar se O teria podido dizer que não queria ser escrava ou, em outras palavras, se ela teria tido a possibilidade subjetiva de escolher a posição de quem não é escrava.

OP Sim, poderia ter recusado o amor. Falei algumas vezes com Paulhan sobre isso. No meu livro sobre Sade [8], eu desenvolvo a ideia. O livro se chama Um mais além erótico: Sade, e também acaba de sair pela Gallimard. Contém um poema e dois ensaios. A parte final trata da História de O. Creio que O escolhe a servidão porque está apaixonada. Todos os apaixonados, no fundo, seguem O, na medida em que todos aceitam a servidão. Na poesia provençal, que codificou o amor, se diz que o apaixonado é um vassalo e a amada é uma senhora. Mas o apaixonado decidiu se converter em vassalo, por estar apaixonado, ele não nasceu escravo. A origem de O se encontra na poesia provençal. Se O fosse somente masoquista, ela seguiria suas inclinações eróticas e ponto final, mas ela está apaixonada…

BM O senhor não acha que o amor implicaria uma revisão completa da noção de escolha?

OP Sim, porém o amor lança luz sobre a relação entre necessidade e liberdade, sobre o livre-arbítrio, o grande tema do teatro espanhol.

BM O amor move o sol e as estrelas, mas não se dissocia do ódio e pode se tornar mortífero. Por que o senhor só fala do amor como um bem?

OP Mencionam com freqência o caráter mortífero do amor. Possivelmente, eu falo dele, sobretudo como um bem por reação contra essa predileção do século XX, predileção pelos lados negros do amor. Trata-se também de uma reação contra a exaltação do Marquês de Sade… Mas eu penso que o ódio é inseparável do amor.

BM Existe mesmo o conceito de hainamoration, em Lacan [9].

OP O quê?

BM Hainamoration, um neologismo que junta o ódio (haine) e o amor (amour).

OP Os psicólogos dizem de modo mais ou menos pedante o que os poetas dizem de forma simples. Catulo [10] diz num poema famoso: “Amo e odeio ao mesmo tempo/ Por que?/ Não sei,/ mas eu disso padeço”. É magnífico, em quatro versos, diz o que os psicólogos e os psicanalistas precisam de mil páginas para dizer.

BM (Risos) O senhor diz, no seu livro, que o amor é incompatível com a infidelidade. Isso significaria que a revolução erótica deste século [11] não mudou em nada a noção tradicional de infidelidade?

OP A revolução erótica nos trouxe uma ideia mais limpa do corpo… O amor não existe sem a liberdade feminina. Por isso, desde sempre, os grandes períodos do amor coincidiram com a liberdade da mulher ou com a sua rebelião. Afinal de contas, Isolda se rebelou, Julieta também…

BM Voltando à questão anterior, eu lhe pergunto se um simples encontro erótico é um ato de infidelidade.

OP Sim, em geral sim, porque o amor está fundado na união do corpo e do espírito. No passado, havia o problema da paternidade. Hoje, a infidelidade é menos grave, porque não interfere na procriação, mas o amor parte da decisão de que “iremos juntos até o final”.

BM Será mesmo que a revolução erótica não implica que possa haver fidelidade do espírito e liberdade do corpo?

OP Parece complicado. As experiências dos que tentaram esse tipo de amizade amorosa não deram certo. É muito difícil evitar o sofrimento do companheiro. A infidelidade, em si mesma, poderia não ser grave, mas fere profundamente o outro. Isso, todos nós sabemos pela experiência.

BM Os autores árabes celebram os amores castos. Qual a diferença entre a erótica árabe e a platônica?

OP A ideia da castidade é uma ideia muito antiga. No Oriente, nasce da ideia de que toda descarga sexual implica perda de vida. É preciso ser casto para conseguir mais vida. A castidade é uma receita de imortalidade. No taoísmo e na ioga [12], a castidade existe para que o sujeito tenha mais controle sobre si mesmo. No caso de Platão, a castidade está ligada ao dualismo do corpo e da alma e à necessidade de salvar esta última. Cada ato sexual, para ele, é uma queda no mundo informe da matéria. Nós amamos uma forma; porém, no momento em que a abraçamos, ela se dissolve. Isso, para mim, é maravilhoso, porque é um contato com o universo.

BM O senhor escreve que a maior defesa contra a Aids é o amor, por implicar a fidelidade. A sua posição é a do papa.

OP Possivelmente. Mas D. H. Lawrence [13] já dizia que o papa sabia mais de sexo e erotismo do que os tratados todos.

BM Segundo o seu livro, o último grande movimento estético do século XX teria sido o surrealismo, e o movimento beat [14] foi uma derivação daquele. Seria possível explicar isso?

OP Toda a doutrina da beat generation parte da espontaneidade da escrita, que é uma ideia dos surrealistas.

BM Obrigada pela entrevista.

OP Você quer tomar um café?

BM Aceito.



NOTAS



1. Do português Fernando Pessoa (1888-1935), considerado um dos maiores poetas da lusofonia, Octavio Paz traduziu Antología, lançado em 1984. Figura inaugural do modernismo em Portugal, Pessoa é ele mesmo e seus heterônimos – os principais sendo Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, que são personagens ficcionais com vida, obra e estilo próprios. Já os poemas do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e do pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) – ambos modernistas – aparecem no volume Versiones y diversiones, livro de 1974, que recebeu forma definitiva em 2001, no projeto de edição da obra completa de Paz, da Editorial Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores de Barcelona. Esse título inclui agora todas as traduções feitas pelo autor mexicano.

2. Édipo é personagem central da peça Édipo rei, de Sófocles (496 a.C.-406 a.C.), que foi considerada por Aristóteles o exemplo máximo da tragédia. Ele procura decifrar o assassinato de seu pai, Laio, governante de Tebas. Para seu horror, ele descobrirá ter matado o pai e se casado com a mãe, Jocasta. A dor o leva a arrancar os próprios olhos.

3. Ateniense de estirpe nobre, Platão (428 a.C.-347 a.C.) foi discípulo de Sócrates (470 a.C.-399 a.C.). Depois da morte do mestre, fundou a Academia, onde foi professor de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). Sobre o amor, escreveu O banquete, em sua tradicional forma de diálogos, no qual aborda as manifestações e o significado do amor sensual. O tema volta a ser tratado em outros de seus diálogos, como Lísias e Fedro.

4. Tristão e Isolda e Romeu e Julieta poderiam ser chamadas de tragédias do amor proibido. A primeira foi celebrizada modernamente na ópera homônima de Richard Wagner (1813-1883). A lenda, de origem celta, remonta ao século IX e, a partir do século XIII, foi incorporada ao ciclo do Rei Artur e a Távola Redonda. Na história, Isolda é prometida em casamento ao príncipe Marke, que manda seu sobrinho, o cavaleiro Tristão, buscá-la na terra dela. A caminho, os dois bebem uma poção mágica e se rendem ao amor impossível. Segundo os especialistas em literatura trovadoresca e medieval, Romeu e Julieta, o drama eternizado por William Shakespeare (1564-1616), inspira-se na história de Tristão e Isolda, que foi tema de muitos poemas na Europa medieval. O amor dos dois, bloqueado pela inimizade entre suas respectivas famílias, acaba na morte dos amantes.

5. Lope de Vega (1562-1630), poeta e dramaturgo espanhol formado pelos jesuítas, foi secretário de poderosos da Igreja e da Coroa, emergindo como autor de sucesso em 1598. Tendo perdido a mulher e um filho, entrou em crise e resolveu ordenar-se. Foi nomeado para o tribunal da Inquisição. A adoção do hábito religioso não o impediu de casar-se várias vezes nem de ter numerosas amantes e de protagonizar situações escandalosas em Madri, onde viveu e apresentou a maioria de sua obra numerosíssima – segundo os estudiosos, com mais de 400 comédias, dramas épicos, volumes de poesia, inclusive o famoso Amarílis, em homenagem à amante morta.

6. História de O, relançado no Brasil em 2005, é obra de Anne Desclos (1907-1998), nome real da escritora e editora francesa DominiquebAury, que o assinou com o pseudônimo de Pauline Réage. Foi criado para provar a seu amante – o escritor Jean Paulhan (1884-1968), com quem ela trabalhava na Nouvelle Revue Française – que a literatura erótica não é exclusividade do homem. História de O é um romance sadomasoquista que escandalizou os franceses em 1954, ao ser lançado, e não demorou a ganhar o mundo. Em 1975, virou filme, dirigido por Just Jaeckin e estrelado por Corinne Cléry.

7. O filósofo grego Epicteto (55-135) viveu a maior parte de sua vida em Roma como escravo de um ex-escravo do imperador Nero. Foi seu senhor que lhe permitiu estudar com um filósofo da escola estoica, Musonius Rufus, e depois lecionar na cidade, já como liberto. Ele voltou para a Grécia e continuou a ensinar quando o imperador Diocleniano expulsou todos os filósofos de Roma, no ano de 94. Para os estoicos, que introduziram na ética a noção de responsabilidade, a virtude é o único bem – e, conseqentemente, o vício é o único mal. A virtude é identificada com a razão, ao passo que os afetos correspondem ao lado patológico da realidade humana. Seus escritos assumem a forma de máximas morais, com as quais pregava a reforma dos homens, propondo a austeridade e o desprendimento como o caminho para a felicidade, a realização pessoal e a tranqilidade de espírito.

8. Jean Paulhan (1884-1968), professor, crítico, editor e escritor francês. Estudou psicologia e desde cedo se envolveu com o editorial de revistas – de filosofia, de ciências sociais e de literatura, como Les Temps Modernes, de Sartre, e a Nouvelle Revue Française, na qual foi secretário e editor (1925-1940) e diretor de 1953 até sua morte. Pertenceu à Resistência Francesa e teve papel determinante em defesa da publicação das obras dos escritores colaboracionistas, que, tendo afinado com os nazistas durante a ocupação, eram bloqueados pelos editores no pós-guerra. Foi eleito para a Academia Francesa em 1963. Foi também um estudioso da literatura erótica e autor, em 1951, do ensaio Le Marquis de Sade et sa complice ou Les revanches de la pudeur (“O Marquês de Sade e seu cúmplice ou As revanches do pudor”). Paulhan foi ainda o inspirador do romance Histoire d’O. Ver Nota 6. O livro de Octavio Paz mencionado, Um mais além erótico: Sade, foi publicado no Brasil em 1999.

9. Jacques Lacan (1901-1988) nasceu em Paris e se formou em medicina, especializando-se em psiquiatria antes de se tornar o psicanalista mais polêmico do século XX, desenvolvendo sua teoria e sua clínica em nome de um retorno a Freud. Para ele, o ser humano só se constitui como sujeito através da palavra e a estrutura do inconsciente é a da linguagem. Ao “Penso, logo existo” de Descartes, Lacan opôs um “Digo, logo existo”. A obra de Jacques Lacan e de grande parte de seus alunos vem sendo traduzida e publicada pela editora Jorge Zahar e pela Companhia de Freud, ambas do Rio de Janeiro.

10. Caio Valério Catulo (provavelmente 84.a.C-54 a.C.), pequeno nobre da província de Verona, foi um modernizador da poesia em Roma, onde viveu, trabalhando sobretudo com poemas líricos, curtos, dedicados a temas como o amor ou os pássaros e denominados “carmes” (do latim carmen, carminis, que quer dizer “poesia”). O erotismo é forte componente de seus versos. Nos anos 1930, Catulli carmina, os poemas eróticos de Catulo, foram transformados em cantata pelo compositor Carl Orff (1895-1982), formando um tríptico ao lado de Carmina Burana e Triunfos de Afrodite.

11. A expressão revolução erótica deste século faz referência aos novos comportamentos afetivos e sexuais decorrentes da eliminação ou abrandamento da repressão sexual, sobretudo na segunda metade do século XX, com o advento da pílula anticoncepcional, libertando a mulher do tabu da virgindade e do risco da gravidez involuntária. Além de afetar profundamente o relacionamento entre homens e mulheres, em decorrência das lutas por maior abertura comportamental e por novos direitos, encetadas pelo movimento feminista, a sociedade assistiu também aos movimentos de homossexuais e transgêneros por liberdade e igualdade de direitos.

12. Os adeptos do taoísmo, uma antiga religião chinesa, crêem que o tao (caminho) é a origem do universo e o criador de todos os seres. Pela prática da austeridade e do respeito a todas as criações e criaturas da natureza, o homem pode tornar-se imortal e converter-se em um ser celeste. Já a ioga é prática de origem indiana, que visa promover a união entre o ser humano e sua essência, mediante o equilíbrio de corpo e mente. Em ambas as linhas espirituais, assim como em várias crenças orientais, a castidade é vista como economia de energia.

13. David Herbert ou D. H. Lawrence (1885-1930), escritor britânico, aborda temas controversos, sobretudo de caráter sexual e relações destrutivas, tendo produzido em todos os gêneros literários – novelas, contos, poemas, peças de teatro, livros de viagens, traduções, livros sobre arte, crítica literária e correspondência. Entre suas obras mais conhecidas estão O amante de Lady Chatterley, que foi proibido e circulou clandestinamente na Inglaterra, Mulheres apaixonadas, Filhos e amantes e A serpente emplumada.

14. O surrealismo, considerado a última das vanguardas artísticas da Europa, propõe a libertação do criador em relação às normas e regras do pensamento racional, optando pela exploração do inconsciente e do subconsciente, como acaso, sonhos, alucinações, delírio e humor. Para tanto, trabalha com o automatismo como método (sem controle racional nem antes nem durante ou depois da criação) e, nas artes visuais, adota novas mídias, como colagem, foto-montagem, assemblage etc. São muitos e grandes os nomes que se ligaram ao surrealismo desde o Manifesto Surrealista, lançado pelo escritor francês André Breton em 1924. Nas artes visuais, Paul Klee, Joan Miró, Salvador Dalí, Marc Chagall, o cineasta Luis Buñuel, entre outros, enquanto na literatura comparecem Tristan Tzara, Paul Éluard, Louis Aragon, Guillaume Apollinaire. Quanto ao movimento beat, surgiu nos Estados Unidos nos anos 1950 como protesto contra o estilo de vida vazio e consumista do pós-guerra. O livro de Jack Kerouac On the road, traduzido no Brasil como Pé na estrada, é dado como seu ponto inicial. Allen Ginsberg, William Burroughs, Lawrence Ferlinghetti são alguns dos escritores do movimento, que foi intensamente ligado à música – inclusive à música oriental, que iria depois inspirar os Beatles e compor o universo da geração “paz e amor”, representada pelos hippies.

Betty Milan (Brasil, 1944). Romancista, ensaísta e dramaturga. Colaborou nos principais jornais brasileiros e atualmente é colunista da revista Veja. Sua bibliografia inclui títulos como O papagaio e o doutor (1991), Paris não acaba nunca (1996), e Fale com ela (2007). Entrevista realizada em 19/06/1994, publicada na Folha de S. Paulo, figura no livro A força da palavra (Editora Record, 1996). Contato: bettymilan@free.fr. Página ilustrada com obras do artista Edgar Negret (Colombia).

PORTADA DE LA PRESENTE EDICIÓN


El Proyecto Editorial Banda Hispánica crea su propia revista para atender la necesidad de circulación periódica de ideas, reflexiones, propuestas, acompañamiento crítico de aspectos relevantes en lo que se refiere al tema de la cultura en América Hispánica. Agulha Hispânica tratará de temas generales ligados al arte y a la cultura, constituyendo un forum amplio de discusión de asuntos diversos, estableciendo puntos de contacto entre los países hispano-americanos que posibiliten una mayor articulación entre sus referentes. Revista de circulación bimestral, invitará en cada edición un artista plástico para ilustrar integralmente sus páginas. Las materias a ser publicadas dependerán con exclusividad de la invitación de la coordinación general. Comentarios de lectores y colaboradores deben ser encaminados a bandahispanica@gmail.com.
Acompañamiento general de traducción y revisión a cargo de Gladys Mendía y Floriano Martins.

A SOLIDÂO

“A solidão, o sentir-se e saber-se só, desligado do mundo e alheio a si mesmo, separado de si, não é característica exclusiva do mexicano. Todos os homens, em algum momento da vida sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que vamos ser, futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que sente só e o único que é busca de outro. Sua natureza – se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao homem, exatamente o ser que se inventou a si mesmo quando disse “não” à natureza – consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e busca de comunhão. Por isso, cada vez que sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão”.

PAZ, Octávio. O labirinto da solidão e Post-scriptum; tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984. p. 175.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

@jlgoldfarb da campanha doeumlivro, numa entrevista supimpa fala de Murici AL

quero me encantar

quero que voce me leve
ao Rio
e eu menino com pares de sustos
quero conhecer o mar
do Rio
a estátua do Manequinho
a Cinelândia de Jorge de Lima
e de longe olhar o Cristo.

quero que voce me leve
prum chopp
antes de vibrar com o Glorioso.
quero que voce me leve
pruma visita breve.



para elena só pra ela

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Notícia da manhã

Eu sei que todos viram
e jamais esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormindos-e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la,
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração
a todos que não a viram
contratei desta manhã
-manhã é céu derramado
é cristal de claridão-
que reinou de leste a oeste
de morro e mar-na cidade.

Pois dentro deste manhã
vou caminhando.
E me vou tão feliz como uma criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo memino
(ele conhece caminhos
e mundo melhor que eu),

Amorosa e tranparente,
esta é a sagrada manhã
que o céu inteiro derrama
sobre os campos,sobre as casas,
sobre os homens,sobre o mar.
Sua doce claridade
já se espalhou mansamente
por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
vai lavando corações
(não o do menino,o meu,
que é cheio de escuridões).


Por verdadeira, a manhã
vai chamado outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e 'as vezes tarde despotam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens e das coisas
na roupa estendida 'a corda,
nos navios chegamdo
nas torres das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa,tão bonita!
A manhã está no chão, está nas palmeiras,
estáno quintal dos subúrbios,
está nas avenidas centrais,
está nos terraços dos arranha-céus.
(Ha muita,muita manhã
no menino,e um pouco em mim).

A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.


A manhã é geral.

As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com a cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde.
Os passarinho namorando
-ah! pois todas essas coisas
que a minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
'a mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança,
mais além uma coragem,
e além,aqui e ali
pelo campo pela serra,
aos mendigos, aos sovinas,
aos desgarrados, aos prósperos,
'as velhas virgens, 'as puras
e as doidivanas também,
a manhã vai derramando
ama alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.


E de repente a manhã
-manhã é céu derramado,
é claridade, claridão-
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão




Viva! Viva thiago de melo!!!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Poema Para Mozart Damasceno

Há um silêncio na casa 51
da Rua Durval de Goes Monteiro.
Despem os nossos olhos
penetrante e estranho halo.

__As carambolas,
as mangas e pitangas
prostadas sobre o chão
indegustáveis.

Mozart,
por ti ficaram inertes
teus pássaros acrobatas
sobre os nossos ombros.
Na tua longa mesa de tantos longos dias
já não se brinda o licor proposital,
da alegria cultivada,
irmanada.

__Onde está o calcário homem
de olhar metálico

Há um silêncio que nos povoa a alma,
uma falta que clama por teu nome de argila




in colheita
cícero gomes

BICICLETA

__ Mamãe, mamãe... Papai Noel
me deu o presente errado.

aqui ó bh

e não deu tempo
pra gente se entender
trocar passos
na contorno
findar a noite
no macarrão do bola.
tão pouco tempo
pruma breja
no buléia,
uns lances de cinema
do maletta
e se encher pinga e poesia
no
lua nova.
não deu tempo pra nada
não houve tempo pra nada
e essa minha mania
de encurta estradas
e você com seu sorriso
de brevidade
e sua voz de encantar passarinho
foi embora numa manhã
e para sempre
me deixou sozinho

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

MURICY REVISITED

uma cidade não cabe em livro
por mais livre que seja
livro e cidade

não se traça uma cidade
com seus anos em conta
sua gasta geografia
não se conta uma cidade
pela mão da poesia
não se pinta uma cidade
com papel e tinta

(leit-motiv)

O POEMA NÃO CALA
BERRA
FALA


pálida te sinto cidade
cálida te vejo cidade


(Chão Usual)

o rio
os troços
os destroços

manhãs
mormaços
gasta bandeira
cana-bananeira


extasiadas as mornas
horas
na desordem dos dias


Murici
tudo em ti
tão parca poesia





in chão usual
cícero gomes

MURICI

Essa cidade me vence.
E de tal modo me envolve,
Que já não sei se habito
Ou se é ela que vive em mim.



diógenes tenório júnior

domingo, 19 de dezembro de 2010

Monólogo do Natal

Eu não gosto de você,Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel de vender ilusões 'a burquesia.
Se os garotos da cidade soubessem do seu ódio a humildade,
Jogavam pedras nessa fantasia.
Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa me tornei rapaz, sem esquecer no entanto o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, e a noite inteira eu esperei contente.
Chegou o sol e você não chegou.
Dias depois, meu pobre pai cansado, trouxe um trenzinho feio, empoeirado,
Que me entregou com certa excitaçãO.
fechou os olhos e balbuciou:__É pra você,Papai Noel Mandou!
E se esquivou contendo a emoção.
Alegre e inocente neste caso, eu pensei que meu bilherte com atraso,
chegara em suas mãos.
No fim do mês,
Limpei o trem, dei corda,ele partiu dando muitas voltas.
Meu pai sorriu e me abraçou pela última vez.
O resto eu só pude compreender quando cresci e comecei a ver todas
as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a seco:
__Onde tá aquele seu brinquedo,
Eu vou trocar por outro da cidade.
Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar e,
Como quem não quer abandonar um mimo
que nos deu, quem nos quer bem,disse:
__O Senhor vai trocar ele,
Eu não quero outro brinquedo eu quero aquele.
E por favor não vá levar meu trem.
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que,
Eu ainda creio, tanto e tão santo, só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou, ele não deu ouvidos.
saiu correndo e nunca mais voltou!
Você, Papai Noel, me transformou num homem que a infância aruinou.
Sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não um que sobre para a riqueza do menino pobre
Que sonha o ano inteiro com o Natal.
Meu pobre pai doente,mal vestido, para não me ver assim desiludido,
Comprou por qualquer preço uma ilusão e, num gesto nobre, humano e decisivo,
Foi longe pra me trazer um lenitivo, roubando o trem do filho do patrão.
Pensei que viajara, no entanto, depois de grande,minha mãe, em prantos,
Contou-me que fora preso.
E como réu ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia, da cela o libertou pro céu.
É por isso que eu não gosto de você, Papai Noel.





Mestre Aldhemar Paiva

Quazul

Azul e quando
sapituca tipiti.
Quazul e ando
noiteca peteleco.
Atrapalho alho
treco terereco.
Chaleirento ento.
Chaleirento que só:


__ Que só ela!

__ Que só vendo!






in galeio
francisco marques

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Murici,18 de Junho de 2010 'as 21:00 horas

O Rio Mundau
transbordou
entrou na cidade
derrubou casas
escolas
fez nosso povo gemer de dor.
Destruiu:
A Escola Juvenal Lopes de Omena
Creche Menino Jesus de Praga
Câmara municipal
Casa paroquial
Escola de segundo grau Professor Loureiro
A Bibliotreca Mozart Damasceno
perdeu todo seu acervo
e 2400 famílias perderam suas casas.

As famílias não só perderam
casas
perderam seus pertences
a mémoria de suas vidas
expostas em rôtas
fotografias.

A economia de Murici
foi abalada
(até hoje sofrem
os pequenos comerciantes)

Milhares de pessoas ainda vivem
sob quentes barracas.

Sou filho desta terra sofrida de
pessoas de coragem e trabalho.



Por isso lancei a campanha #doelivrospmurici
no twitter.
Vamos recriar o acervo da Biblioteca Muncipal Mozart Damasceno.

Envie livros para a Secretaria Municipal de Educação de Murici
aos cuidados de Maria da Glória
Murici Alagoas
cep:57820 000


E como dizia Monteiro Lobato
"Um país se faz com homens e livros"

BRUNA

O Jornalista Maurício Mello Jr., na época crítico literário do Correio Brasiliense e bom conhecedor da literatura do Rio Grande do Sul (com a motivação extra deser casado com uma gaúcha), esteve em Porto Alegre por volta de 1985 para entrevistar Mario Quintana.Depois de muita conversa séria, deixou para o fim uma questão que sabia ser do
interesse dos leitores.

__Fale a respeito de sua amizade com Bruna Lombardi.


Mario pensou um pouco, bem pouco, e expôs o seu lado:

__Pois é...Não sei o que ela quer comigo.
Mas eu estou cheio de más intenções...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

EVA

Dentro de mí
vive un bicho,
aprisionado
en el cuerpo,
que traigo
escondido,
bajo el yugo
de mi dorso,
y que amanso
y agrado,
cuandomme enrosca
el cuello,
cuando grita y amenaza
dejar a la vista
en mi cara
todo dolor
que me traspassa.

Dentro de mí,
como larva,
ese bicho
corrosivo
carcome el casco
de la barca
que me caga
los sentidos,
dejando el alma
a la deriva
al borde
de una carcaza.



amneres
poeta de brasília

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

SUPERQUADRAS

na entrada
um quebra-molas
e uma banca de jornal


blocos blocos blocos
blocos blocos blocos
blocos blocos blocos


não consigo
sair destas palavras:
setor comercial sul

em que banco eu pago
pra sair do
setor comercial sul?

em quantas prestações
eu saio do
setor comercial sul?

você quer 30%
do meu salário
pra me livrar do
setor comercial sul?

dois litros do meu sangue
todos os dias
pra me tirar do
setor comercial sul?


pra sair do
setor comercial sul
eu faço qualque negócio


só não vendo a alma




salve nicolas behr!
poeta porreta de brasília

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Harvard Square

passeando pela
Harvard Square
vi um cara diferente
com um violão diferente

ouvi uma canção diferente
sobre coisas diferentes

a platéia era diferente
e os transeuntes
diferentes também

na Harvard Square
todos parecem iguais
eis a diferença





miguel canguçu alves

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

GARÇA

Garça
branca
silenciosa
meditativa
de passos pensados
olhar esguio
Senhora suprema
do Araguaia
e desses lagos
mornos
cristalinos
Garça cor-paz
que voa
em câmera lenta
Pureza
beleza
deste sertão
Amiga do sol
do céu
Me quedo na harmonia
de teus passos calculados
Me perco na oração
do teu silencioso vôo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

1000

1000
vezes
o amor
chega
ao seu alcançe
num só lançe
de olhar nos
olhos

o amor, a poesia,as viagens

Atirei um céu aberto
na janela do meu bem:
caí na Lapa__um deserto
__Pará,capital Belém!...





manuel bandeira

o amor

"o amor é escolha.livre escolha,
talvez, da nossa fatalidade, súbita descoberta
da parte mais secreta e fatal do nosso ser"


octávio paz

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

com que roupa?

com roupa eu vou pru samba
lá do noel?
se meu feitiço
da vila
não me quer
em coversa de botequim.

Palavras

E as palavras riscam.
Passamos por todas aquelas
querelas
com seus pares de sustos.

O entojo do purgante-de-jalapa manicado.
O peixe remoso.
A fruta verdolenga.
O disparate do azul arregalado.
O frege,o galeio,o saracotico, o peteco.
Desbarrela, trubufu espandongado!
O destempero da velocidade.

Enguiçosas
as palavras espeticam
escarrapacham
espantalham


enquanto
arrastamos
o silêncio
com os pés




(francisco marques)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Escola

meu pouco estudo
minha leitura fraca
eu aprendi numa escola rural
__dessas pequeninas que cabem no bolso.
dessas que numa olhadela
cabe a escola todinha
e aguenta ainda litros de céu
árvores e árvores
cachorros e cocôs no corredor
e um menino com a cara breada de terra
brincando com os números.




(francisco marques)

um trato com nicolas behr

um trato
com vc
nicolas behr

cante sua
braxília
brasília
é luxo
é lixo
e tudo
fede ao poder.

um pacto com vc
nicolas behr
cante o cerrado
eu canto a mata
atlantica

chore
o guará
eu choro
o tamanduá


afogo minhas dores
no mundáu
e vc
no paranoá



eu falo com vc
nicolas behr
desta paulicéia
desvairada
onde assola
o crack
o mijo
a gasolina


e vc concreto
objeto
entre quadras
superquadras
na mais imperfeita rima



um trato com vc
nicolas behr

depois de muito anos
que tal um desafio:
eu vou de rimbaud
vc de mallarme

sábado, 4 de dezembro de 2010

os fazedores

os fazedores
de deserto
se aproximam
e os cerrados
se despedem
da paisagem
brasileira

uma casca grossa
envolve meu coração




(nicolas behr)

Ninã Morena Y Ágil

ninã morena y ágil,el sol que hace frutas,
el que cuaja los trigos, el que turce las algas,
hizo tu cuerpo alegre, tus luminosos ojos
y tua boca que tiene la sonrisa del agua.

un sol negro y ansioso se te arrola en las hebras
de la negra melena, cuando estiras los brazos.
ú juegas con el sol como un estereo
y él deja en los ojos os oscuros remansos.


mi corazón sombrío te busca, sin embargo,
y amo tu cuerpo alegre, tu voz suelta y delgada,
mariposa morena dulce y difinitiva,
como el trigal y el sol, la amapola y el agua.







(p. neruda)

Morena, La Besadora

Cabellera rubia, suelta,
corriendo como un esterro,
cabellera.

Uñas duras y doradas,
flores curvas y sensuales,
uñas duras y doradas.

comba del vientre,
condida,
y abierta como una fruta
o una ferida

dulce rodilla desnuda
apretada en mis rondillas,
dulce rodilla desnuda.

enredada del pelo
entre la oferta redonda
de los senos.

huella que dura en el lecho,
huella dormida en el alma,
palabras locas.

perdidas palabras locas:
rematarán mis canciones,
se morirán nuestras bocas.

morena, la besadora,
rosal de todas las roas
en una hora.

besadora dulce y rubia,
me iré,
te irás, besadora.

pero aún tengo la aurora
enredada en cada sien.

bésame, por eso,ahora,
bésame, besadora,
ahora y en la hora
de nuestra muerte.
Amén





(neruda)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Carlos Moura - "Água de cheiro"

SI TÚ ME OLVIDAS

quiero que sepas
una cosa.
tú sabes cómo esto:
si miro
la luna de cristal,la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas,luz, metales,
fueram pequeños barcos que navegam
hacia las islas tuyas que me aguardan.




(neruda)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

de trem para arapiraca

meu pai falou apressado:
__vamo de trem prarapiraca!

...e eu ali
na janela do vagão
ao vento minha camisa voltaomundo
e com olhos de espanto
decorando nomes
e paisagens.

o barulho do trem
e seu apito
balançavam
a minha meninice.

como achei grande
arapiraca
sua feira na segunda,
o mundo de tordas
enfileiradas,principalmente
o cheiro de fumo
eternizando no ar.

achei singela a igreijinha
do alto do cruzeiro.
a mesa farta de tio nezinho
a timidez de meus olhos
voltados para o chão.

foi a primeira vez que vi
a besta fera da televisão:
meus olhos quase pularam pra fora
com a correria dos cavalos
índios e tanto tiro.

ah! o tempo boi que traga tudo.
duas coisas achei grande por
demais no meu tempo de menino:
o mar de maceió
a feira de arapiraca.

Fina Inspiração

Mesmo sabendo que sou ausente,
Andarilho cheio de paixão
Relembrando beijos eloquentes,
Imortalizando-os em outros corações,
Agora peço-te que sejas meu...
Com voce seguirei eternamente,
Linda flor,inspiradora dos meus versos;
Estrela maravilhosa do universo...
Andando por eternas madrugadas,
Decifrando a vida já descrente,
Estarei te esperando quando quiser...
No mar...




(salve mellina freitas!)

a serenata

uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
quando ele vier, porque é certo que vem,
de modo que vou chegar ao balcão sem juventude
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
__só a mulher entre coisas envelhece.
de modo vou abrir a janela, se não for doida
Como a fecharei, se não for santa




(adélia prado)

Não ter onde morar

Eu moro em São Paulo
bairro de Jaçanã
eternizado por Adoniran.
Confusão na vila
nunca vi coisa daquela!
Em questão de instantes
acabou a favela.
Muitos barracos no chão
é a hora da desapropriação.
Cada tábua que caia,
doia no coração.
E a população
ficou sem eira,
nem beira,nem chão.
Houve até manifestação!
Sem ter onde morar
fiquei sem lar.
A favela era o meu lugar.
Agora só resta a mudança
acreditar na esperança
ainda sou uma criança
e espero a bonança.
Palavras do poeta
inspiram lembranças.
Saudosa maloca,maloca querida.
Lá na terra nóis passemo
dias feliz da nossa vida.
Quero um mundo melhor
e sair dessa pior.
Já são onze horas,não posso perder o trem
Que já vem...Que já vem...Que já vem...


(salve fábio henrique silva anjos, aluno
da e.e.f. frei antonio sant'ana galvão
cidade de são paulo)

HEXAGRAMA 65

Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.

1 dia
1 mês,1
ano



(salve paulo leminski)

pequenas coisas

pequenas coisas
deixavam meu coração
sossegado:
o cheiro da nossa velha casa
do café
do pão do Pinheiro.
o bom mesmo eram as madrugadas:
o barulho do trem
dos galos.
o coração disparado
no nascedouro das manhãs
na voz de espanto do meu pai
a nos acordar pra vida.