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sexta-feira, 25 de março de 2011

São Babão

Sei da tua história oh! São Babão.
Sei que fostes bobo da corte de Panfuncio I
e eras o maior dos maiorais
entre todos os puxa sacos
foste tu oh! São Babão
o tampa de crush
o mão lizinha
o medalha de ouro
na arte de puxar culhão de chefe
__coisa qua a gente não deve de fazer__>
Mas para entrares do céu
não foi fácil São Babão
tivestes que iludir São Pedro
com falsos elogíos mil
é assim pela porta dos fundos
adentrastes o paraíso
Ó São Babão!
...e hoje sois
o padroeiro:
dos xirimbabas
dos pirus (com i mesmo).
dos balança ovo
dos puxa sacos
A pior espécie humana
na face da terra.

Oração de São Babão

Oh! meu santinho
protetor dos Puxas saco
vós que depois de muita lábia
e falsidade adentrastes
o o reino,o paraíso
fazei com quer o meu chefinho de-me pelo menos
um bom dia para eu poder
começar minhas artemanhas
da arte da puxassão.
Dai-me mãos macias e sedosas
para que seja nobre o meu amulegar de ovos.
Dai-me uma cara de pau
e os olhos de vidro
para suportar com resignação
os esporros do patrão.
Aquela promoção eu preciso tanto,eu preciso muito
meu São Babão,o (pobrema é que eu só tenho
o curso de datilografia (incompreto)
feito pelo Instituto Universal Brasileiro).
Tô lascado meu São Babão meu QI é pouco!
por isso preciso de outro QI (Quem Indica).
Arregale os olhos do meu querido chefinho
e se ele me promover
juro meu São Babão
que não haverá
mãos mais macias do que as minhas
nem elogio mais ligeiro que os meus.
Tenho certeza da graça alcançada
e na puxassão virá
minha promoção.Amém

quarta-feira, 16 de março de 2011

Oração da Madrugada

Senhor,Ah Senhor se tu pudesses calar esses apitos desnecessários
que assolam a minha rua nessas horas de madrugadas não dormidas.
Todos dormem na minha rua:
a fofoqueira da esquina
o galhofeiro do quinto andar
o zelador meu único amigo
meu filho inocente ainda
e minha mulher.
Estou aqui,Senhor alma inquieta
com meus pensamentos escatológicos
sobre a ação do homem.
Penso no Japão,Senhor.
Na altivez daquele povo.
Terra de Mishima e Matsuo Bashô.
Como não pensar no código de honra dos samurais
a morte por haraquiri.
Duvido,Senhor,e tu também duvidas
que algum puxa saco
tenha a coragem de morrer por alguém
ou alguma causa!
São como lesmas,sebentos,
escorregadios fugidios,Senhor.
Quanta falta de dignidade humana
essa laia empesteia a terra
com sua lábia frouxa e subserviência.
Como é torpe,Senhor
a cambada dos puxa sacos.
É alta madrugada,Senhor!
Daqui a pouco os galos começam o canto
de acordar manhã.
E ja vejo ele,o espúrio o biltre
o nefelibata o energúmeno indo em direção
ao nobre saco do seu chefe.
Os mesmos elogios repetidos
e ele imbécil rindo pela centésima vez da velha piada
do seu senhor,Oh Senhor!
Pái não perdoai
essa raça
tão degradante a dignidade humana.
Senhor,como fizesses com Sodoma e Gomorra
manda uma nuvem de sal
e varre da terra para sempre
todos
os magotes de puxa sacos,Senhor
__e assim verás a vida mais amena e poética
Óh Pai!

terça-feira, 15 de março de 2011

Oração da Tarde

Senhor, no calor dessa tarde estou aqui a pensar
já que a noite se avizinha.
Penso na sua solidão,Senhor
diante da grandeza do que tu tudo criaste.
Mas a maior das maravilhas de tua criação foi sem dúvida o homem
que dotaste de inteligência e coube a ele
a primazia de nomear tudo que criaste,Senhor.
Mas em tudo tem sempre um porém,aquele pontinho a mais.
Por causa do Pai Adão alguns de nossos irmãos
não dotado de muito talento criaram aqui na terra
uma profissão:
A de Puxa Saco,Senhor!
Andei olhando as escrituras e não ví nenhum
dos teus escolhidos para tal aptidão.
Pedro as vezes escorregava mas o Teu Filho
O Mestre, puxava-lhe as orelhas.
Agora,Senhor,sem puxar sardinha pru meu lado,
tudo mesmo começou foi com aqueles menestréis preguiçosos
que iam de reino em reino e tome loas,coplas rondos,gazeis
para los tiranos.
Mas hoje a raça de puxa sacos
institucionalizou-se:
advogados,blogueiros,jornalistas
eis aí Senhor o triunvirato da bajulação
(mais temos raras exceções Divino Pai).
E a bajulança adentra os nobres escritórios de norte a sul.
Piedade,Senhor para essa raça safada
desprovida de dignidade humana.
Piedade,Senhor,
porque grandes são os esporros que esses trastes levam.
Um dia em uma missa o padre disse:''O Senhor esteja convosco
e um puxa saco olhou para seu chefe e falou:
E com vossa excelência também!''
Assim é de lascar,Senhor!
Assim não tem cunhão que aguente,ou desculpe-me,cristão.
Assim O Senhor vai ter que aumentar o tonel de merda lá do
velho Purgatório.
Onde isso vai parar,Senhor
Fico pensando cá com meus botões
talves vez isso seja uma maldição de família,
porque conheço puxas,baba ovos,xerimbabas__
que essa história vem do velho pai__.
Em Murici tem um monte da porra,Senhor!
Agora dizem os mais letrados que a maior concentração
mundial dessa laia é Brasília.
Logo lá,Senhor,a capital da esperança.
Pois virou a capital mundial dos baba ovos.
Vou ficando por aqui,Senhor,
pois gosto muito do Senhor
e já tô virando um poeta babinha.Brincadeirinha
Senhor!

Ilimitado

Ilimitado:do latim ilimitatu. No filme O Céu Que Nos Protege, do cineasta italiano Bernardo Bertolucci,há uma sequência memorável,inspirada em Jorge Luís Borges, em que é dito:''Por não
sabermos quando morreremos, achamos que é vida é inacabável, mas algumas coisas acontecem de vez em em quando,poucas,aliás.Quantas vezes você vai lembrar de uma certa tarde na infância,uma tarde que faz parte de você tanto que não imagina a vida sem ela.Mais umas quatro ou cinco vezes,talvez nem isso.Quantas vezes vai ver a lua cheia.Umas vinte, talvez,ainda assim tudo parece ilimitado''.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Meu São McLuhan

Meu São MacLuhan
o que será de nós com essas malditas operadoras
saí da TIM porque aqui em São Paulo é celulage,
o cara tem que tá se atrepando como macaco para pegar sinal.
Num belo dia de fúria joguei o aparelho na lata do lixo
em plena Avenida Braz Leme.
A OI eu nem tentei porque o nome dá a idéia de dor.
Fui pra Claro foi um horror
por 5 meses briguei para não pagar o que não usei.
Vim para @vivo
conversa bonita etc. coisa e tal
e eu pensei comigo mesmo:agora tô no céu!
Céu uma cebola,fiz um contrato de 102,00 reais
agora eles tão me cobrando 480,00 reais.
Pago uma porra,um caralho de asa!
Vá fazer de besta o cão!
Viro caloteiro,marginal!
Meu São McLuhan,vou reclamar pra quem
se a ANATEL e nada é a mesma coisa!
Meu São McLuhan
já que o mundo virou uma aldeia global
vou voltar pro meu sertão,vou criar bodes,
tocar minha viola contemplar o luar.
Mas a @vivo não vai ver esse dinheiro.
Vou virar romântico,escreverei cartas mandarei telegramas
vale até pombo correio.
Mas a @vivo não me pega!
Mas a @vivo não me alcança!

domingo, 13 de março de 2011

Oração do Dia

Bom dia vida!
Bom dia Mundo!
Bom dia migente!
Senhor,
já é um novo dia e por isso
quero agradecer-te a dádiva
de fazer parte do teu universo
da tua criação.
Agora, Senhor,
haja chá de hortelã
e magnésia bisurada
para aquentar o maldito
cordão do puxa saco
que tá empesteando as midias sociais.
Eles,os puxas! Como se proliferam!
Coelho,perde,Senhor,para essa raça safada!
E tenho certeza,Meu Pai! que deixastes essa gente vil
vir ao mundo
para ver até aonde vai
a degradação humana!
Senhor,eles,os puxa sacos
achando pouco o estrago no mundo real
cairam com força total no mundo virtual.
Se ao menos ficassem eles os puxas
lá no Orkut
__aonde a lavagem de roupa é uma quimera__!
Não!
Apois essas pestes,Senhor,invadiram o facebook
e o sacrossanto twitter!
Que fazer,Oh Pai
contra esses biltres,energumenos,nefelibatas
e circuscisflauticos!
Dai-me senhor um saco mor,
não para eles puxarem,Tu Me Livres!
Apenasmente para suportar a gana bajulatória
dessa (raça safada)!
Ah Senhor!
Belos eram aqueles dias em em as Midias Sociais
eram um céu
de corversa amena,filosófica!
Agora,não!
É uma raparigagem da porra!
Uma viadagem do cacete!
Ah Senhor,Tua terra tá doente,e por isso treme geme de dor.
Por isso te peço oh Pai!
Deixa teu filho longe bem longe daqui.
E como dizia Zaratrusta:
quem for podre que se quebre
pois o mar não tá pra peixe!!!

a bodarrada

A Bodarrada - de Luiz Gama (Romantismo)
escrito em segunda 19 outubro 2009 22:13

Romantismo, Cânone, Negritude, Luiz Gama, Sátira
Quem Sou Eu?

Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra — Ninguém! —
A. E. ZALUAR - Dores e Flores



Luiz Gama...
(...)
O que sou e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos,
Hão de chamar-me tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu, que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode,
Pouca importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muita vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais.
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos. —
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deu Mendes, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada!

________________________
Poema publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino* (1861) e mais conhecido pelo título de "Bodarrada".

sábado, 12 de março de 2011

Oração da Noite

Senhor,
obrigado por mais um dia.
Irei repousar o meu corpo fatigado
pelas vicissitudes da lida
diária.
Passando minha vida 'a limpo agora,Senhor
percebo que me esforcei bem para cumprir
meus objetivos.
Não sacaniei ninguém
não proferi inverdades
e sobretudo,Senhor
fugi da balela e da falácia
assim como o demo foge da cruz!
Abominei mais uma vez,Senhor,
a mentira
o falso elogio e o que tem de mais
pernóstico da face da terra:
O Puxa Saco!
Ah Senhor!
porque permitiste
que fosse criado aqui na terra
tal categória de ser humano!
O Puxa saquismos hoje é uma entidade Nacional
com CNPJ
firma reconhecida etc. coisa e tal.
Alastra-se em todas as categorias de classe
e vai da esfera municipal a federal.
Só existe uma vacina para combater essa raça,laia,
magote.A meritocracia!
Tô bobo de ver,Senhor:
O PUXASAQUISMO já adentrou as midias sociais,Meu Deus!
É,Mestre,
vou deitar-me
tô rendido pelo cansaço
e amanhã nova luta:
tenho que encarar a @vivo
que quer me fazer de otário
e furar o meu olho e bolso.
Mais aqui vai meu pedido senhor:
Reserva aquele tonel cheio de merda
só para os puxasaco
no teu purgatório
e que lá fiquem até a última geração.
Boa noite,Senhor.





__

pessoa em tantas pessoas

poema da noite
Esta velha angústia - Álvaro de Campos

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar-entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!



Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Algarve, Portugal, e depois se mudou para Glasgow, Escócia, onde foi estudar engenharia. Primeiro mecânica, depois naval. "Quase se conclui do que diz Campos, de que, o poeta vulgar sente espontâneamente com a largueza que naturalmente projetaria em versos como os que ele escreve; e depois, refletindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, em obediência a uma regra exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim" afirmou Ricardo Reis em um de seus apontamentos. Álvaro de Campos é um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa.



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domingo, 6 de março de 2011

Clássicos da Twitteratura

o lenço é unissex.
seca lágrimas femininas
e catarro masculinos.
@silviolach

diga-me com quem andas
e saberei com quem andas.
@alelex88

tem gente que pensa
que eu me acho.
mal sabem eles que
eu só me perco.
@pyttyleone

a censura é uma doença
que vive 'a base de tarjas pretas.
@amatos30

ir aonde ninguém vai!
E fazer o q ningém faz!
@eikebatista

o lugar mais perto
da Europa que
já cheguei foi
num filtro d água
@tiodino

não
@felipeneto

tem gente que te segue
no twitter
só pra te odiar
bem pertinho.
@LeoJaime

um picareta offline
é o mesmo picareta online
@poetacicero

você

você
que me observa de tão longe
que traz no alforge a esfinge da desconfiança
não repara
não sabe
da mentira do meu sorriso.
Você na sabe,nem imagina
a cratera dos meus sentimentos
e não digo nada a ninguém
_a minha putice é essa_.
Tô ligado nos meus nervos medos
na antiga mania de chutar tampinhas
da minha úlcera canônica
que me tortura
dos meus instantes de cólera
e que sozinho não sou de nada.
Fico fulo
de saber
que não precisas dos meus versos imprecisos
e que se viras tão sozinha.
Oh raiva! desse poema de agora
se rindo
se fazendo inútil
e me chamando de babaca.
Oh raios!
E tudo teimando ficar em seu lugar
e o bolso do meu eu
tão vazio de metáforas.



para
@crisbeltrao
só pra ela

ah baudelaire!

Charles Baudelaire
Elevação

Acima dos valões, acima dos quintais,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares,
Muito depois do sol, dos campos estelares,
Muito além dos confins das esferas astrais,

Espírito meu, voas com agilidade;
Como o bom nadador que na onda se excita,
Mergulhas com prazer na amplidão infinita,
Na indizível volúpia da virilidade.

Decola para longe deste chão doente,
Vai te purificar no ar superior
E sorver o límpido, divino licor
Da clara luz que inunda o espaço transparente.

Em meio a infortúnio, mágoa e veneno,
Que tornam mais pesada esta vida brumosa,
Feliz de quem puder com asa vigorosa
Alçar vôo no céu luminoso e sereno;

Quem tiver pensamentos como a passarada
Que no ar da manhã revoa em liberdade
– Quem planar sobre a vida, entender a verdade,
Na linguagem da flor e das coisas caladas!

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

quinta-feira, 3 de março de 2011

A Puta Morreu

Sete facadas.
O sangue-vida escorrendo na calçada.
A puta morreu
morreu a puta
a mais bela
a mais santa
__se é que no mundo existe santa.
A puta morreu
e nas esquinas
os homens falam de política
e futebol.
A puta morreu
um toco de vela arde em suas mãos.
O soluço das outras,
o rosto roto de batom e lágrimas.
A puta morreu
e deixou no mundo
muitos filhos da puta.
A puta morreu
O padre não lembrará
seu nome na homilia dominical
o prefeito não decretará
feriado municipal
a mãe do PAC
não descerrará uma placa em seu nome.
A puta morreu
__Quem a matou
__O gigolô
...e no enterro só as outras.
Onde estarão todos
Inclusive eu.
A puta,
morreu.


Cícero Gomes
poema publicado no jornal
O Trem Itabirano

terça-feira, 1 de março de 2011

Viscas Dantas Mota

Elegias do País das Gerais

Dantas Mota






SOLAR DE JUCA DANTAS

6.

Tarde já. Os fruitos e as crianças possuíam,
Nas primaveras frustras que então passei a ser,
Um sabor de saudade no mendigo que hoje sou,
A despeito de transunto de velhas glórias
E humanas lidas. E da caspa em desuso
Que pontilha de grisalho meus ombros chovendo,
Dando ao título de doutor de Sião
Este ar deficitário de despesa,
Que busca, na ausência de terras e de teres,
E na paciência com que suporto outros coronéis,
O sentido de sua própria escravidão.
Deste mundo não sou. E nem lhe temo a noite.
A noite com suas lenternas e seus ladrões,
Terramotos e valhacoutos.
Temo sim o dia que dela nasce,
E com ele a burra de dinheiro, agasalhada e fiel,
Cheia dos terrores noturnos de ontem,
Contendo, ensimesmadas, as mesmas manhãs,
Plásticas e portáteis de hoje,
E em que se enfeixam, de uma só vez,
O gado, a servidão de passagem, a infância,
O luto, a vida e o direito de chorar.

De Elegias do País das Gerais (1961)




"Alma,/ Pássaro solitário, / Como é difícil abranger-te!"
Quadro: Eleazar Saenz, Wind Singer



CANÇÃO DO EXÍLIO

Alma,
Pássaro solitário,
Como é difícil abranger-te!
Nem sei como defender-te,
Incomensurável que és.
Num só crepúsculo,
Passeias todas as paisagens,
Visitas todas as terras,
E te recolhes triste
À morada que te serve
De cárcere...

De Planície dos Mortos (1945)



CANÇÃO DA CASA VAZIA

I

O tempo parou e frio, lá fora,
é o sol das almas.
Verdadeiramente falando, este não é um tempo de...
preparação. Antes,
de quaresma e envelhecimento.
Exemplos: da cal nas paredes,
da moldura nos retratos,
das cadeiras nas salas,
do verniz nos móveis,
das construções nos prazos antigos,
da chuva nas calhas,
até mesmo da dor no corpo morrendo
Março Março Março: Pai,
olha, lá fora, como o vento do outono
brinca com as roupas nos varais!


II

O sol ainda não esquentou de vez, Pai,
Porém, se o sol se esquentar de vez,
As quaresmas lá fora se salientarão tanto,
Que a gente sentirá a tristeza da agonia,
A despedida da Terra.

Principalmente, Pai,
Se as cigarras derem de cantar.


De Esparsos



BREVIARIUM DE FREI JEREMIAS

Está amanhecendo o dia, minha amiga!
E os nossos sentimentos tão iguais!
Tão longas as nossas dores,
Tão breves os nossos risos.
Paira em tudo uma indecisão amarga
E eu não sei o que fazer
Nesta manhã tão clara, tão branca,
Em que as névoas são inúteis,
Os passarinhos proverbiais.
O sol, que nasceu ontem,
É o mesmo de hoje e será o mesmo
De amanhã, de depois, de depois.
Só nossos corpos em nossas almas
Se mudarão e com eles o mundo
Que é tão vasto e, entanto,
Não comporta minhas tristezas,
Minhas alegrias. Está amanhecendo!
O sono da noite, que correu bravia,
Não comporta os trabalhos do dia
E este sofrimento afinal não é tão breve.
Certo, amanhã morreremos e eu não deixarei
Mais fundas lembranças que não os teus
Outonos sobre as memórias repetidos,
Nem outro bem que não a amargura
De ter vivido.
Os amigos de São Paulo, Rio,
Belo Horizonte,
Pensam que este riso é meu,
E com eles até Israel, em Irati,
No Paraná.
Mercedes, porém, apesar de estúpida,
Sabe-o apenas um disfarce
Com que oculto esta tristeza,
Esta dor.

De Planície dos Mortos (1945)




"nas pensões mais imorais / há sempre um Cristo manso falando à Samaritana"
Quadro: Van Gogh, O Bordel (1888)



NOTURNO DE BELO HORIZONTE

O chope não me traz o desejado esquecimento
Os insetos morrem de encontro à lâmpada
Ou se açoitam no sofrimento destas rosas secas.
Vem do Montanhês este ar de farra oculta,
Bem mineira, e um trombone, atravessando
A pensão "Wankie", próxima à Empresa Funerária,
Acorda os mortos desolados na Rua Varginha.
Uma lua muito calma desce do Rola-Moça
E se deita, magoada, sobre os jardins da Praça,
O telhado do Mercado Novo, o bairro da Lagoinha.
Tísicos bóiam que nem defuntos na solidão
Dos Guaicurus. O próprio noturno de Belo Horizonte
Tem lá suas virtudes: nas pensões mais imorais
Há sempre um Cristo manso falando à Samaritana.
As mulheres do Norte de Minas, uma de Guanhães,
Duas de Grão-Mogol e três da cidade do Serro
Mandam ao ar esta canção intolerável
Que aborrece até mesmo o poeta Evágrio.
Pobre Evágrio, perdido na estação de Austin.
Triste e duro como uma garrafa sobre a mesa.
Entanto nada indica haja tiros, facadas, brigas
De amantes na Rua São Paulo, calma e sem epístolas.
O Arrudas desce tranqüilo, grosso e pesado,
Carregando cervejas, fetos guardados, rótulos de
Farmácia, águas tristes refletindo estrelas.
Tudo, ao depois, continuará irremediavelmente
Como no princípio. Somente, ao longe,
Na solidão de um poste, num fim de rua,
O vento agita o capote do guarda.

De Planície dos Mortos (1945)




NOTURNO PAULISTANO N° 1

No Madrugada's Bar ou no Bar Madrugada.
Entre a noite que veio e ela que não vem
E esta lua negra, de papelão, à parede,
As garrafas, sobre a mesa,
Formam um campo de petróleo.
A triste mulher da vida — Nilda —
Esculacha, bem em frente a mim,
O tango argentino intitulado A media luz.
As considerações, cada vez mais sábias,
E sombrias, à medida que a bebida
Vai aumentando o poder de certas dores,
Secretas e violáveis, contudo impublicáveis,
Provam apenas que o mundo continua,
E que as desgraças, como as despesas,
Inevitáveis, são sempre inúteis e iguais.

De Inéditos (1959)



TIRADENTES SOBE AO PATÍBULO
PRETENDE FALAR, NÃO O DEIXAM
SOFRE 3 SERMÕES

35. Jm. Jzé. da Sva. Xer.
dá entrada no LARGO DA LAMPADOSA,
e como que possuídos de furor histero-religioso,
os padres da Comunidade do Convento de Santo Antônio,
aumentando as suas vozes,
alteiam-n'as com a Recitação da Oração dos Agonizantes.


36. Subindo, rápido, ao patíbulo de 24 degraus,
Tiradentes quis falar.
Não o deixaram,
Sinal próprio das épocas em que os outros têm medo
da liberdade.

Deram-lhe, porém, ao invés da fala,
água, pois que suava com abundância.
Recusou-a.
Pediu que apressassem o bárbaro espetáculo.
Prolongaram-n'o.

1º — com dois sermões

2º — com o recitativo do Eu Pecador

3º — com a encomendação do seu corpo ainda vivo.


De Primeira Epístola de Jm. Jzé. da Sva. Xer. — o Tiradentes —
aos Ladrões Ricos (1967)


poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2009

Dantas Mota
• In Elegias do País das Gerais - Poesia Completa
José Olympio, Rio de Janeiro