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sexta-feira, 29 de abril de 2011

alguns poemas de Brecht para clarear as mentes

Bertold Brecht

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis


Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem


O Vosso tanque General, é um carro forte

Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar


Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas


Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã


Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?


Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

salve meu parceiro marcelo dolabela

Baladilha à maneira de W. M.

eu tenho mais versos pra escrever
que dor ou arrependimento
se tu me dizes que me amas
penso sempre em fingimento
mas se berras que me odeias
eu tenho o mesmo sentimento

eu tenho mais boca pra comer
que dente sal e alimento
se eu não divido minha cama
é porque adoro o relento
e quando serves a ceia
prefiro um outro argumento

pois eu tenho mais versos pra escrever
com o nanquim do meu tormento

Marcelo Dolabela. Lorem Ipsu

O ABISMO E O ABISMO

tire o seu abismo do
abismo que eu quero passar com o meu
abismo hoje pra você eu sou
abismo
abismo não machuca
abismo eu só errei quando juntei meu
abismo ao seu
abismo não pode viver perto de
abismo
é no
abismo que eu vejo o meu
abismo o meu
abismo e os meus
abismo s rasos d'
abismo eu no seu
abismo já fui um
abismo hoje sou
abismo em seu
abismo


marcelo dolabela

MALETTA REVISITED

MALETTA REVISITED # 86

eu estou: nas maravilhas do mundo
no Coliseu da cidade
no naufrágio dos poetas
ouvindo scherherazade

é o zum-zum da matilha do mundo
da Muralha da China, o barulho,
a baunilha dos vagabundos

única geração que ouve
a triste balada dos mouros
o transplante das décadas
a arcádia sem fé e sem ouro.


marcelo dolabela

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Grande Tasso Da Silveira

A DANÇA EM FACE DE DEUS*

1

Senhor, em presença de tua Face,
eu dançarei.
Porque toda alegria e toda beleza
é ritmo e dança.
E a alegria absoluta
e o absoluto esplendor
são uma dança eterna.
Senhor, em tua divina presença,
eu dançarei.
Dançarei como as frondes, como as flores,
às brisas matinais.
Dançarei como as ondas, como as nuvens,
como os ventos oceânicos,
à ebriez dos horizontes sem fim.
Dançarei como os mundos,
as sagradas estrelas,
à hipnose da grande noite.
Senhor, em presença de tua Face
dançarei, dançarei,
dançarei....
dançarei....


2
Cantarei as estrelas, Senhor,
perpetuamente cantarei!
Porque elas são e serão sempre
o augusto deslumbramento,
o milagre, a alegria.
Porque elas permancerão para sempre intactas,
inatingíveis aos golpes
do nosso ímpeto de negação e destruição.
Porque elas são tua imagem,
teu símbolo na matéria.
Quando o homem houver despido
do seu manto de encantamento e de beleza
todas as mais esplêndidas realidades
deste mundo,
Quando houver desnudado de sentido
as árvores, os passários, as flores,
as montanhas, o mar, os ventos,
ainda as estrelas guardarão
seu perene fascínio,
seu magnetismo sobrenatural.
Quando em mais nada neste mundo
descobrir o homem vestígios
dDo absoluto do teu Ser,
- ainda as estrelas lhe dirão,
na sua pulsação infinita
e nos seus insondáveis abismos,
que tu existes, Senhor,
e és absoluto e eterno.
Até meu último canto
cantarei as estrelas.
Dos meus poemas humildes
nem todos se apagarão
na lembrança dos homens.
E nos poucos que fiquem
ainda estarei cantando
a estrelas eternas.
Senhor, até o fim de tudo
cantarei as estrelas,
perpetuamente as cantarei...

3
Senhor, esta água
clara e humilde que bebo
para matar a sede,
transubstancia esta água no teu sangue!
Senhor, este ar
que aspiro sôfrego
Porque meus pulmões sufocam,
Transubstancia este ar na tua alma!
Senhor, as cores e as formas,
as linhas puras de beleza
de todas as coisa do mundo
e que meu olhar procura ansiadamente,
e as harmonias, as músicas,
que são a água para a sede meus ouvidos,
transubstancia tudo isto no teu corpo,
como fazes com o pão e o vinho.
Torna eucarístico
tudo o que está em permanente contacto
com meu corpo eminha alma,
afim de que em tudo eu te sorva
e de ti me nutra
e me encha de ti a cada instante
Porque, senão, eu apodrecerei de todo.
Porque, senão, eu me desfarei em poeira,
Em poeira tão tênue
Que nem teus dedos sentirão...

4
Senhor, dá-me paisagens
infinitamente puras.
Dá-me paisagens virginais
sobre as quais meu espírito corra como um vento
que nunca tenha roçado as paludes trágicas,
nem nunca se tenha embebido do perfume
das mancenilhas mortais.
Senhor, dá-me paisagens unicamente feiras
- como as do deserto enorme, -
de areias e estrelas.

5
Meu corpo como as areais
que as águas primordiais
- as grandes águas virginais do mundo –
lavaram.
Meu corpo como as areias puras.
Minha alma como as estrelas
distantes na noite,
límpidas.
Minha alma como as estrelas intactas.
Então virás, Senhor,
porque serei como um espelho
nítido,
em que poderá refletir-se
Tua Face...


6
Criar, modelar, construir
até o Fim.
capturar as imagens
de nítidosrecortes,
ágeis e vivas
como os tigres elásticos,
e as corças tímidas...
Criar pensamentos
que desejam como serenos pássaros,
do mar,
ou como os livres ventos oceânicos.
Porque só eles trazem nas asas
o vasto e puro alento
das distâncias eternas.
Não vazar nunca
no molde frágil
dos apodrecentes desejos,
do tédio ignóbil,
das cobardias inomináveis.
Modelas apenas
as sagradas argilas
que as mãos de Deus amassaram,
porque só delas é que nascem
As formas imperecíveis.
Criar apenas ritmos límpidos e puros.
Cantar somente os cantos matinais
claros e nus...

9
A Lua
(tão essencial,
tão de Deus...)
do céu puro alumia
a paisagem desnuda:
a paisagem de árvores desfolhadas
erguendo braços quase humanos
na solidão vazia:
de árvores tão simples e nuas,
tão essenciais,
tão de Deus!
Senhor, bem sei que este quadro
é uma palavra tua...
Que por ele me chamas
em verbo de beleza
para uma simplicidade mais límpida,
para uma renúncia mais heróica,
para um desnudamento mais total...
11
Chopin, nós ficaremos sozinhos!
Quando todos os homens
forem, por fim, ajustados
como peças inertes
à grande máquina terrível,
nós, e os nossos irmãos dolorosos,
ficaremos sozinhos.
Quando todos os homens
se houverem perdido de todo
do seu sentido de eternidade
e da sua vocação de beleza,
nós ficaremos
infinitamente sozinhos!
Mas ainda assim continuarão perpetuamente
a comunicar-se conosco
as profundidades de tudo.
Ainda assim continuaremos
a comungar com as essências,
a ouvir as vozes do chão e das estrelas,
a receber as mensagens
das coisas e dos mundos.
Ainda assim,
do seio de uma solidão infinita,
prosseguiremos
em nossa confidência comovida
com Deus...

13
Falar com Deus perdidamente,
na oração que nem sabe que é oração,
no misericordioso encontro eucarístico,
na hora da dor incoercível, em que nada mais me alivia
[no mundo,
na hora da ansiedade infinita, em que nada mais enche
[a minha alma no mundo,
na hora da serena, ou da profunda alegria,
em que está mais próxima a compreensão gloriosa
do absoluto e do eterno.
Criar sonho perpetuamente,
desentranhar perpetuamente a beleza
da substância de todas as coisas.
Procurar a inocência.
No mais secreto desvão de todas as almas
procurar incessantemente a inocência.
Andar, andar, sem parar,
perpetuamente descobrir
a inocência e a beleza.
Falar perdidamente com Deus...


15
O sopro criador não soprou apenas nas origens.
Perpetuamente continuou.
Os homens é que se petrificaram.
Fizeram-se inertes como os rochedos
sobre os quais passa inutilmente
o grande vento da infinita solidão.
O sopro criador era talvez mais tênue nas origens.
Depois cresceu, se amplificou.
Se os homens não tivessem descido todas as flâmulas
da alta torre do Espírito,
elas a esta hora tremulariam violentamente
ao vendaval do Criador.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

São Jorge De Lima

Canto III
Poemas relativos
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.

Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.

O sono está.
E um homem dorme.

II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.

Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.

E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.

III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.

Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.

Mas se não houvesse
propriamente voz...

Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.

Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.

Bom nos ecoarmos
na voz recebida.

E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.

Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.

IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.

Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.

Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.

V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.

VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.

Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.

VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.

São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.

VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos

IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.

Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.

Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.

X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.

XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.

Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.

XII

O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.

XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.

XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluísse;
se a pedra não fosse
o símbolo que era
pois tudo era um dia,
um dia sem dia,
porém com o poeta
que um dia seria.

XV
De manhã estrelas verdes
na inocência do ar coleado,
intranqüilas e veementes.
Ao zênite e areia em sede,
asas das hastes pendidas,
as nuvens-castelas altas
como painas amealhadas.
De tarde a visão das velas,
nuvens baixas sobre as verdes
rosas das hastes fictícias;
os desejos dissolvidos
repousam abertamente;
e esse deserto de vozes
e estes cabelos perenes
de seus nervos para os dramas.
Mas se as palmas fossem isso,
as fontes seriam pratas,
e as pratas seriam o
puro sonho de quem vive.
Todavia o sonho é como
as palmas dessas palmeiras.
Eis as palmas.

XVI
Os dois ponteiros
rodam e rodam,
mostrando o horário
irregular.
Horas inteiras
despedaçadas,
horas mais horas
desmesuradas.
Com seu compasso,
lá vem a morte
pra teu transporte,
e com os dois braços:
esta é tua hora,
levo-te agora.

XVII
Um te exalou
nessa incidência:
céu, terra, mar;
impermanência.
Outro te andou
te indo e te vindo
pra te juntares,
te convergindo
Quem te volou,
esse te deu
o sono no ar.
Esse te entoou
e te nasceu
sem te acordar.

XVIII
No dia seguinte:
chamamos de terra,
o poema te leva
te dana, te agita,
te vinca de cruzes,
te envolve de nuvens.
Quem sabe aonde vai
parar no outro dia?
XIX
Roteiros vencidos
compassam a festa:
a noiva está fria
no véu lamentado.
Três potros desfraldam-se
três faces transcorrem
no coche morrido,
em vão galopado.
O nome do noivo?
O nome da noiva?
O nome do diabo?
Três nomes corridos,
três sombras penadas
no drama calado.

XX
Aqui e ali
me encontrareis,
entre um poema
ou em seu curso,
além e aquém,
oculto e claro,
vivo ou demente,
ou mesmo morto,
ou renascido
como meu sósia,
intermitente,
ferida tórpida.
pulso de febre,
nesse cavalo,
naquela tinta,
naquele poema
quase alicerce,
quase esse infante,
esse anjo surdo.
Ia esquecendo:
eu e meu sósia
somos momentos
entrelaçados.
Ei-lo veemente
volta a seu palco,
sobe a uma origem,
desce de novo,
envolto ou nu,
esse homem gêmeo,
jamais verdugo,
mas palma incerta,
sendo meu pai,
meu filho e neto
e aquele longe
porém limiar,
malgrado e clâmide
aberta e alípede,
foi argonauta,
podia se-lo
se esse jacinto
não fosse canto,
canto de galo
crepuscular,
profusamente
cedo se oculta
por essas laudas
sem perceber
seu fácil ímpeto
ante a palavra
visualizada;
mas de repente
desaparece.
Agora eu surjo
naquela esquina,
naquele pórtico
falam de mim;
ouço transido
esses vocábulos
desconhecidos,
emerjo em rios
que vão passar,
mergulho em rumos
acontecidos,
sucedo em mim,
depois vou indo
fundo e arrastado
na correnteza
que é de repentes.
Morto incorrupto
guardo meus naipes
mais pressentidos,
intercadentes,
desordenados,
não há atavios,
não há disfarces,
dissolução
dos prantos largos
manando laivos,
lanhando aspectos;
desacredito-me
perante os leves,
nem sabedor
de alas longevas,
se o porvindouro
é puro exórdio
precocemente
desencantado;
se os seus presságios
remanescidos,
salvo-condutos
manifestados;
correm desvios
vulgares trilhos,
que todavia
prossigo em mim,
minha progênie,
uns dementados,
outros co-réus,
reconciliando-me
com os mutilados
e este glossário
que é de meu sósia;
abastecido
alego dores,
crescentes cargas;
me patenteio,
fico exaltado
sem parecer;
depois me espreito
na curva adiante,
simbolizado,
metade em mim
inda nascendo,
a outra metade
superlotada;
então me sano
excluindo as nucas
executáveis;
não evidentes
nem aberrante
me envolvo de alma,
doce alimária
com alguns anexos
aparelhados
para colher
belas paisagens
e outros petrechos
do sósia amado;
quero sofrer-me,
quero imitar-me,
fico empunhado
meu corpo no ar,
dependurado,
meio aderido
a alguns palhaços
insimulados,
portanto, instáveis,
muito insossos,
muitos até
beatificados;
ventos corteses
bem-parecidos
vêm agitar
nosso espantalho,
enquanto as aves
canoramente
se desaninham
de nossos braços,
ossos atados
a chão deitados,
chãos contestados
por figadais,
mas afinal
chãos estrelados
de algumas plantas
ambicionadas
por umas moças
que andando sós
se despetalam
e virar brisas,
fagueiras asas,
pelas janelas
passam nos vidros,
vão aos relógios
param os cucos,
e a vila fica
inteiriçada.
dormindo dentro
desse poema
recomeçado
por novo sósia.

XXI
As portas finais,
os cantos iguais,
os pontos cardeais,
sempre obsidionais.
Os tempos anuais,
as faces glaciais,
as culpas filiais
sempre obsidionais.
Os dois iniciais,
as dores tais quais,
os juízos finais
sempre obsidionais.

XXII
Era uma vinda,
dadas as luzes,
dadas as faces
que ali se achavam,
nenhuma espúria,
nenhuma enferma,
dadas as cores,
dadas as falas
que ali se achavam;
dadas as provas
dessas presenças
deu-se o milagre
em aços doces,
em gumes brandos
em chamas graves;
formou-se um gênio
pentangular
que começava
com a estrela Vésper,
riscando a noite
sem se acabar;
formou-se um lírio
na suave treva,
gerou-se um grito
de tantas vozes,
criou-se um fogo
correspondente,
jorrou-se um pranto
desabitado.
Era uma tarde:
ninguém sabia
o que no mundo
ia acabar.
Sei que houve portas
escancaradas,
sei que houve apelos
antiencarnados.
E houve um dilúvio,
mas era um fogo
desabrochado.

Meu São Jorge de Lima

O Grande Circo Místico


O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps -
resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram a alma para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.

Páscoa

Páscoa

E, de repente, abriu-se o imenso mar;
Atrás, a dor, à frente uma esperança;
Da escravidão, somente uma lembrança,
Porém muito deserto a caminhar.

Mais tarde rola a pedra singular.
Eis que surge, do Pai, nova aliança:
O Filho nos concede como herança,
Um lugar lá no céu onde morar.

Novamente, porém, a caminhada
Torna-se necessária e perigosa.
Mas o Mestre deixou, na longa estrada,

As marcas de uma cruz vitoriosa.
E disse: - É só seguir minhas pegadas
Que a casa encontrareis esplendorosa.


Gilsos Faustino Lopoes

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Guardados na memória

minha primeira viagem de trem a Maceió
o dia em que a tv entrou lá em casa
o dia que o rádio pegou fogo na sala
a sanfona do meu pai
os fogos da noite de Santo Antonio
o dia em que um boi solto na rua chifrou minha irmã
os curiós papa-capins e caboclinhos
a primeira segunda-feira que saí de casa
os olhos tristes do meu pai
o espanto de Brasília
a beleza do Araguaia
meu encanto pela serra do Curral
o sorriso de wãpurã
a voz de Wãpurã
o primeiro poema de Amayi
os primeiros passos de Apoena
a geográfica distância de Thainan
o primeiro susto do primeiro beijo
o coqueiro que plantei no quintal com meu pai
e que um dia o Mundáu levou


hoje sou assim e assado
com um par de olhos tristes
breados de ventos na cara
e reconto os dias de trás pra frente

Queridos objetos

um anjo de cedro
que ganhei da Mari
numa viagem a Ouro Preto
uma garrafa de saquê vazia
uma crônica de Antonio Prata__
de que sou personagem__
emoldurada
uma lata de azeite Musa
uma lata de tomate pelado Mastroiani
a receita de sangria
e um desenho de Teresa Berlinck
a capa do LP Planet Waves
uma gravura de Alberto Martins
as bolachas de chope
que Ivana Vollaro me troxe de Buenos Aires
uma forquilha de estilingue
que eu mesmo coretei de um leiteiro
aos doze anos
um canivete francês
um azulejo do Marrocos
um galo colorido
feito de sobras de madeira
comprado em Mogi das Cruzes
um livro sobre raça de cavalo
uma foto dos meus pais adolescentes
um DVD da Brigitte Bardot

são minhas companhias
nas noites imprestáveis
e nas manhãs em que me sento para escrever



Fabrício Corsaletti

domingo, 17 de abril de 2011

Jacques Prévert

.

JACQUES PRÉVERT

JACQUES PRÉVERT (Neuilly-sur-Seine, 1900 - Omonville-la-Petite, 1977) foi, entre outros ofícios, poeta, argumentista (de películas dirigidas por Jean Renoir e Marcel Carné, entre outros), letrista (de canções interpretadas por artistas como Juliette Gréco ou Yves Montand), tendo-se popularizado nestas duas artes ainda antes de ser conhecido como poeta. O seu primeiro livro de versos foi um sucesso de vendas e um fracasso de crítica. A editora francesa Gallimard, actual responsável pela reedição da obra poética de Prévert, recusou o seu primeiro livro “Paroles”, na pessoa de Jean Paulhan, com o argumento de que considerava os seus versos quotidianos “repugnantes”. Instigado por Henri Michaux (Namur, Bélgica, 1899 – Paris, 1984), Prévert cedo havia abraçado o surrealismo, no caso concreto, como se verá, com a dose certa de sarcasmo, absurdo e humor. A fotografia que ilustra este post é disso mesmo testemunho. Os poemas que se seguem foram retirados do livro "Poemas de Jacques Prévert”, edição Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2000), numa selecção e tradução de Silviano Santiago. Alguma sensação de estranheza que possa resultar, para o leitor português, da leitura deste ou daquele verso, nesta tradução para português do Brasil, é abundantemente suplantada pela informadíssima introdução e avisada selecção operadas por Silviano Santiago, a quem passo a roubar, com a devida vénia, estas três traduções. A primeira, devolve-me à memória certas telas de René Magritte; a segunda, certos poemas de Daniil Harms. Isto anda realmente tudo ligado.




PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Para Elsa Henriquez


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

Auta de Souza

O BEIJA-FLOR
Auta de Souza (1876-1901)

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou... Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

O Grande Cruz e Souza

A Dor


Torva Babel das lágrimas, dos gritos,
Dos soluços, dos ais, dos longos brados,
A Dor galgou os mundos ignorados,
Os mais remotos, vagos infinitos.

Lembrando as religiões, lembrando os ritos,
Avassalara os povos condenados,
Pela treva, no horror, desesperados,
Na convulsão de Tântalos aflitos.

Por buzinas e trompas assoprando
As gerações vão todas proclamando
A grande Dor aos frígidos espaços...

E assim parecem, pelos tempos mudos,
Raças de Prometeus titânios, rudos,
Brutos e colossais, torcendo os braços!



Autor: Cruz e Souza

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Meu São Jorge de Lima

Poema do Cristão - Jorge de Lima

.Porque o Sangue do Cristo
jorrou sobre meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho todos os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, crendo na vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo através de toda a escuridão do mundo,
porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe,
cordeiro comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha,
sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Os textos de Jorge de Lima abrigam uma colossal possibilidade de leituras (a convivência entre a tradição e o novo, o vulgar e o sublime, o regional e o universal) refletem um artista em constante mutação, que experimentou estilos diversos como o parnasiano, o o regional o barroco, o religioso. Na sua multiplicidade, Jorge de Lima pertence a todas as épocas, mesmo se reportando a um tema ou uma situação específica, ao tocar em injustiças sociais que mudaram pouco desde o início da civilização e quando escreve sobre as grandes dúvidas de todos nós, "...da miséria humana, da tentativa de superação de nossas amarras e de nossas limitações.", explica o poeta e jornalista Claufe Rodrigues, leitor voraz de Jorge de Lima.

Ítalo Moriconi, poeta e professor de literatura brasileira na Uerj, autor, entre outros, de Como e por que ler a poesia brasileira do século XX, ao analisar a obra de Jorge de Lima (contrariamente à Ivan Junqueira quanto a questão de o poeta não ter alcançado fama por conta de sua obra ser, em parte, muitas vezes hermética e comprometida com o catolicismo), não acredita na hipótese de que a questão religiosa tenha atrapalhado a carreira do poeta: "Como poeta religioso Jorge de Lima nunca produziu nada com a qualidade de um Murilo Mendes em "Poesia liberdade". O lugar canônico de Lima vem dos sonetos, da sua primeira poesia modernista e, sobretudo de Invenção de Orfeu.".

Moriconi afirma que a maioria dos professores de letras não conhece bem nem Murilo Mendes nem Jorge de Lima e toca num ponto fundamental para a pouca visibilidade do poeta: "...como levar um poeta tão complexo a um currículo básico de graduação? Compartilhar Twitter Facebook
Tags: cristão, do, poema
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. Comentário de Marcilio Medeiros em 24 julho 2008 às 1:33 Nydia,
Jorge de Lima é um dos grandes da poesia brasileira, não é?
Como você também o admira, deixo aqui outro poema dele:

ANJO DALTÔNICO

Jorge de Lima

Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.

Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.

Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.

Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha. ..RSS
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