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domingo, 30 de janeiro de 2011

Canto para o Povo Guarany

MISSA DA TERRA SEM MALES


Pedro CASALDÁLIGA

Texto: Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra
Música: Martín Coplas





Apresentação



Memória e Compromisso

Os cristãos estamos habituados a reconhecer e a celebrar somente os mártires que outros nos fazem. Ignoramos tranqüilamente os muitos mártires que nós fazemos.
Aquí, no Brasil, 1978 foi "Ano dos Mártires" da Causa Indígena. Celebravam-se trezentos e cinqüenta anos dos tres Mártires Riograndenses, Roque González, Afonso Rodriguez e João Castilho. O CIMI -Conselho Indigenista Missionário- achou que era de justiça que não se celebrasse apenas a morte dos tres missionários jesuítas. Porque os mortos eram muitos mais. Devia-se também celebrar a morte de milhares de índios, sacrificados pelos Impérios Cristãos da Espanha e Portugal.
Uns e outros, Mártires da Causa Indígena. A Cruz, no meio deles todos. Aqueles, morrendo pelo amor do Cristo. Estes, massacrados "em nome" do Cristo e do Imperador:


... mártires indefensos
pelo Reino de Deus feito Império,
pelo Evangelho feito decreto de Conquista.
Vítimas dos massacres que ficaram com nome glorioso
na mal contada Historia,
na mal vivida Igreja...

("Proclama Indigena")


As Ruínas de São Miguel, no Rio Grande do Sul, "monumento-ferida em desafio", são o testemunho central do intento missionário das "Reduções Indias" dos Jesuítas, nos séculos XVII e XVIII. A famosa República dos Guarani, que mereceu os elogios insuspeitos de Voltaire e de Montesquieu. Essas Ruinas são também o testemunho constrangedor da barbárie dos cristianíssimos colonizadores ocidentais, nossos avós espanhois e portugueses. Sepe Tiaraju, luzeiro na testa, "São Sepé" para a fé do Povo, corregedor da Missão de São Miguel e o mais ilustre chefe guerreiro guarani, foi assassinado, juntamente com outros mil e quinhentos companheiros, pelos Exércitos de Espanha e de Portugal, irmanados na hora da barbárie. Nos campos de Caiboaté, dia 7 de fevereiro de 1756. Nessas Ruínas históricas e nesse Ano dos Mártires da Causa Indígena, nasceu a idéia da Missa da Terra- sem- males.
Pensou-se, primeiro, numa Missa "missioneira" em torno as Missões dos Sete Povos Guarani. Assim me pedia o irmão marista Antônio Cechin, gaucho "arrependido", revisador da Historia "mal contada", cronista apaixonado da caminhada do Povo, catequista da Libertação, também perseguido "no Templo e no Pretorio".
Eu cultivo a convicção de que América Latina -América Amerindia, mais na raiz- ou se salva continentalmente ou continentalmente se afunda. Seu passado de cativeiro é um saque continental. Continental deve ser a marcha de seu futuro de libertação.
Os Povos Indígenas do Continente, alem do mais, tão diversificados em sua cultura e em suas realizações, foram reduzidos, pelos Povos Conquistadores, a categoria anónima e arrasada de "Indios". Conhecidos como Indios apenas, como Indios foram depredados e confinados aos manuais e as vitrines. Sua Memória, então, devia ser celebrada numa só Missa, una e comum, um Sangue só e uma igual Esperança: a Missa Amerindia.


Eu sou América, sou o Povo da Terra,
da Terra-sem-males,
o Povo dos Andes,
o Povo das Selvas,
o Povo dos Pampas,
o Povo do Mar...
Do Colorado,
de Tenochtitlan,
do Machu-Pichu,
da Patagônia,
do Amazonas,
dos Sete Povos do Rio Grande...


Os Guarani, filhos da grande nostalgia, buscadores incansáveis da "Terra-sem-males", dariam o utópico tom político e também escatológico. A Terra-sem-males, que a mística guarani secularmente vem procurando, num êxodo comovente, é uma Terra possível, o dever fundamental da História Humana, a tensa alegria de nossa Esperança em Jesus Cristo, o Senhor Ressuscitado, o Novo Céu e a Terra Nova que o Pai Deus jurou dar a seus filhos.
Eu, missionário, espanhol -no caso, ser catalão não fez diferença-, diria minha parte de contrição, em nome da Espanha colonizadora e em nome da Igreja missionária. Pedro Tierra -entranhável pseudónimo de Hamilton Pereira da Silva-, brasileiro telúrico e vítima heróica da Repressão neo-colonizadora, diria sue parte, em nome do Brasil, com a força irada de seus homens novos. E Martín Coplas, argentino, descendente de quechua e aymara -pseudônimo com sabor de alma musical popular e que carrega o respaldo prócero de Martín Fierro- diria, em solfa, em varias músicas aborígenes do Continente, a parte mais profunda. Por Martín falariam outra vez as flautas dos Andes emudecidas e o amedrontado tambor do coração de seu Povo.
O mais, a História ja o contou, bem ou mal. Os Museus exibem-no com sacrílega passividade. E os novos Impérios -nacionais e multinacionais- da cobiça da terra, madeira, minério e mão-de-obra barata- continuam a executá-lo, perante os olhos impassíveis da Civilização Ocidental Cristã.
Verdade é que a última palavra ainda está por dizer:


"América Ameríndia,
aínda na Paixão:
um dia tua Morte
terá Ressurreição!"


Esta Missa ja escandalizou a alguns. E não apenas à TFP, (Tradição, Família e Propriedade) que a tachou de "sacrilega" e "blasfema". (Falando em TFP e Causa Indígena, lembro-me daquela charge que explica tudo. O Indio pergunta ao heraldo da TFP, que pregona pelas ruas, estandarte em alto, sua ordem conservadora:
"O TFP, tu vai defender também meu Tradição, meu Família e meu Propriedade...?"
Imagino que escandalizará tambem a alguns dos meus nostálgicos patrícios. Foi cantada tão belamente a epopéia hispánica da Descoberta da América! ("Llevaban la Espiga y la Rosa / y los Mandamientos y el Ave María...").
O etnocentrismo e o lucro capitalista -e todo tipo de egoísmo pessoal, étnico ou econômico-impedem entender e assumir não apenas esta Missa, mas toda Missa. Porque toda Missa verdadeira escandaliza necessariamente. A Missa é sempre uma ruptura, um Sacrificio, uma Passagem libertadora da Morte para a Vida: PASCOA.
Os cristãos primitivos tinham uma consciência mais clara do risco que significava celebrar a Ceia Pascal do Senhor, aquela "memória perigosa".
Para nós -cristãos menos lúcidos ou menos honestos- a Missa tem sido, por tempo demasiado, um sossegado espetáculo litúrgico a que se assiste passivamente e com o qual se cumpre uma prescrição eclesiástica. Por tempo demasiado viemos passando pela Missa como se passa por um coquetel social, sem nos marcar a vida com o Sangue da Aliança, sem abrir mão da nossa segurança egoísta em favor do Reino da Liberdade. Fechados num clima contraditoriamente "católico", que nega o Ecumenismo e a autêntica Catolicidade, que desconhece, de fato, o valor universal da Encarnação do Filho de Deus e sua Oblação em prol de todos os irmãos dispersos. Neste clima, os Indios, evidentemente, não têm nada a fazer numa Missa...
A revista missionária "Sem Fronteiras", cenário de uma pequena polêmica em torno a Missa da Terra-sem-males, pediu-me que mediasse no assunto. Isso fiz com uma simples carta, da qual são os parágrafos seguintes:
"Acredito na missão que foi a vocacão de Jesus, que e essência da Igreja, no dizer do Vaticano II. E me sinto herdeiro dos missionários de ontem -de seus pecados e de seus méritos. O "nós" da "Memória Penitencial" da Missa e um nós eclesial, coletivo. Que cristão pode negar, que cristão não deve assumir reparadoramente os erros cometidos ontem e hoje pela Igreja de Jesus, às vezes com a melhor boa vontade?
Os homens erram e os cristãos continuam humanos. Paulo repreendeu a Pedro por tentar acobertar a transmissão da cultura judaica na transmissão do Evangelho livre de Jesus Cristo. Foi em nome da Civilização Ocidental, chamada de "cristã", que os Conquistadores, acompanhados dos Evangelizadores, destruiram de fato, nao apenas Culturas mas Povos inteiros. Segundo estatísticas sérias, dentro das várias opiniões, o Brasil, na época da conquista, teria cinco milhões de Indios... Hoje tem cento e oitenta mil. Devo julgar o passado pelos olhos que hoje tenho. Antropologicamente, teologicamente. O que não significa culpar as intenções dos homens do passado. Se não pudessemos julgar assim, nem adiantaria estudar a História nem caminhariamos. O Novo Testamento é um juizo do Testamento Velho, feito pelo próprio Filho de Deus.
Perder a terra, perder a língua, perder os costumes, é perder o chão da vida, deixar de ser. Deixar de ser aquele Povo e, geralmente, deixar de ser mesmo. Quem não respeita uma Cultura, quem age etnocentricamente, "escraviza", sim. O Evangelho é Fé, não cultura. O Evangelho deve se encarnar em todas as Culturas de todos os Tempos. Todas elas humanas, todas susceptíveis de um aperfeiçoamento superior: a Graca do Verbo, encarnado nelas."
Acredito que a Missa da Terra-sem-males seja ortodoxa. Os quase quarenta bispos que participaram de sua primeira celebração, na catedral da Sé, de São Paulo, no dia 22 de abril de 1979, não reclamaram, muito pelo contrário. A Missa respeita o esquema litúrgico. Não é um oratório apenas, menos ainda um "show". É um texto musical e recitado, que ambienta e traduz indigenisticamente a Celebração Eucarística real.
Apaixonadamente, isso sim. Por ser a gente o que é e porque, no dizer do teólogo evangélico francês Georges Casalis, um escrito teológico -ou litúrgico ou pastoral- sem paixão, ja não mais refletiria a prática, a morte e a vida de Jesus de Nazaré.
A Missa tem dois momentos maiores, como textos indigenistas: a "Memória Penitencial" e o "Compromisso Final". A Memória, num diálogo entre América Amerindia e a coletiva conscência de nossa Civilização -colonizadora, missionária. O Compromisso, alternando trágicas referências históricas, algumas bem recentes, com o grito coletivo e compungido da Comunidade celebrante: "Memória, Remorso, Compromisso!"
Através da Missa toda, a Morte do Cristo e sua Ressurreição, sua Páscoa pessoal já completa, contrasta-se com a Páscoa Amerindia, carregada de mortes, mas "ainda sem Ressurreição". Toda a Missa, entretanto, vem traspassada de uma incontida Esperança, contrariamente ao que alguém quis entender. Traspassada também de um inevitável compromisso político, que torne acreditável e eficaz, agora e aquí, essa Esperança, escatológica em última instância.
A Missa invoca seus Santos: do lendário Montezuma até o missionário João Bosco, fuzilado, a meus pés, pela Polícia Militar, na delegacia de Ribeirão Bonito. Um canto emocionado à Mãe Padroeira da América define aquele espírito continental de que antes falei, a vontade de convocar, de congregar todos os Povos do Continente, numa só marcha de Libertação:


Morena de Guadalupe,
Maria do Tepeyac,
congrega todos os Indios
na estrela do teu olhar,
convoca os Povos da América
que querem ressuscitar.


No mais, o que importa é celebrar comprometidamente a Missa, toda Missa, comprometendo-se com a Causa dos Povos Indígenas, com a Causa-raíz da América. E viver e se "des-viver" por encontrar a Terra-sem-males e construí-la imediatamente, dia após dia, e espera-la ainda sempre, contra toda esperança, e anunciá-la fidedignamente com o limpo testemunho da própria existência.
Guarani de Deus todos nós, um dia a alcançaremos.
"Uirás " sempre a procura
da Terra que virá,
Maíra nas origens,
no fim Marana-tha!"

Pedro Casaldáliga
São Félix do Araguaia, MT




A Missa da Resistência Indígena

A Missa da Terra-sem-males começou a brotar sobre a pedra das ruínas de São Miguel, no Rio Grande do Sul. Terra de fronteira entre a América espanhola e portuguesa, estas duas Américas que são uma só. América dividida pelo fogo dos conquistadores.
O templo semidestruído de São Miguel é um monumento testemunho do massacre do Povo Guarani, testemunho da resistência e da grandeza dos Povos Indígenas de toda a América. As pedras escurecidas pelo fogo e pelos séculos narram com seu terrível silêncio a passagem dos bandeirantes, a devastadora passagem dos exércitos de Portugal e Espanha.
A própria História da Resistência dos Povos Indígenas aos conquistadores gestou no sangue esta Missa da Terra-sem-males. A marcha dos Povos Indígenas do Continente, buscando seu próprio rosto, sua identidade, arrancou dos massacres sepultados pela história oficial toda a força de sua esperança num Continente libertado.
Quem busca sua identidade volta-se necessariamente para o passado. Para extrair dele o metal das armas que empunhará na construção do futuro. Neste poema vulcânico, a América mergulha suas raízes na terra-mãe-ameríndia e retira dela a seiva elementar que nutre o sonho e a marcha de seus filhos.
A Missa da Terra-sem-males é uma missa de memória, remorso, denúncia e compromisso. Ela nos atira no rosto esta realidade fatal: de todos os continentes escravizados -Asia, Africa e América- a América e o único que não retornará a seus filhos. Não se trata de sonhar o impossível sonho de uma América puramente índia. Trata-se de constatar a inenarrável violência com que os conquistadores saquearam este Continente.
A Asia se levanta e seus filhos a terão um dia. Os povos negros da Africa reconquistam palmo a palmo o Continente devastado pelo colonialismo. A América, contudo, jamais retornará as mãos dos povos indígenas, sepultados pelos massacres de Cortez, Pizzarro, Valdívia, Raposo Tavares. Devorados pelas minas de Potosí, escravizados pelas bandeiras, exterminados em todo o Continente pela peste que o branco trouxe no sangue. Sem retórica, cabe dizer que os conquistadores Ingleses, Espanhois e Portugueses se lançaram sobre o Continente americano como uma malta de saqueadores, reduzindo a escombros tres impérios riquíssimos e exterminando, num espaço de quatro séculos, cerca de noventa milhões de índios.
A Missa da Terra-sem-males brotou em terra Guarani, o Povo-aliança da América India. No centro do Continente, os Guarani foram duplamente submetidos. O conquistador, português ou espanhol, converteu a terra guarani em campo de batalha até a destruição completa de tudo quanto representasse trabalho humano ou humana aspiração.
Contra toda a violência, contra todo o sangue derramado, o Povo Guarani foi capaz de sonhar a Terra-sem-males. Nao foi um "Ceu-sem-males", foi uma Terra-sem-males, a utopia possível. A utopia construída pela luta de todos os oprimidos. A pátria libertada de todos os homens.
Poderia ter sido um poema, uma cantata, mas nasceu missa. Porque é impossível separar a historia dos Povos Indígenas da América da presença da Igreja entre eles. A mesma Igreja que abencoou a espada dos conquistadores e sacramentou o massacre e o extermínio de povos inteiros, nesta missa se cobre de cinza e faz sua própria e profunda penitência. A penitência por si só não conduz a nada, nem sequer alivia a responsabilidade histórica que a Igreja assumiu ao lado do branco colonizador. Contudo, a História marcha e a Igreja mantém um laço profundo com os oprimidos da América. Que esta penitência contribua para que este laço se converta em compromisso com a marcha do Povo a caminho de sua libertação.
A Missa da Terra-sem-males so se apossará de toda a sue dimensão quando alcançar sua vestimenta continental. É profundamente significativo que ela tenha sido escrita em português, idioma deste Brasil-quase-continente, oprimido e instrumento de opressão, gigante e escravizado, historicamente empregado de seus irmãos, vítimas do mesmo saque, combatentes da mesma resistência.
A Missa da Terra-sem-males é uma convocação a todos os oprimidos da América que marcharam durante séculos e marcha hoje em busca da Terra-sem-males libertada.


Pedro Tierra
Goiânia, 8 de outubro de 1979




Texto da Missa da Terra sem Males


Abertura

Todos (Canto)

Em nome do Pai de todos os Povos,
Maíra de tudo,
excelso Tupã.

Em nome do Filho,
que a todos os homens nos faz ser irmãos.
No sangue mesclado com todos os sangues.
Em nome da Aliança da Libertação.


Em nome da Luz de toda Cultura.
Em nome do Amor que está em todo amor.


Em nome da Terra-sem-males,
perdida no lucro,
ganhada na dor,
em nome da Morte vencida,
em nome da Vida,
cantamos, Senhor!



Memória Penitencial

Todos (Canto)


Herdeiros de um Império de extermínio,
filhos da secular dominação,
queremos reparar nosso pecado,
viemos celebrar a nova opção: Ressurreição.


Na Ceia da Morte e da Vida,
a antiga memória perdida;


a morte dos Povos do passado
na Festa do Povo esperado: Ressurreição;


a História da América inteira,
nesta Memória de Libertação;


na Páscoa do Ressuscitado,
a Páscoa Ameríndia
ainda sem ressurreição... ressurreição,
sem ressurreição...


Solo indígena, ou recitado (R) ou cantado (C). Todos (Canto)


Eu sou América,
sou o Povo da Terra,
da Terra-sem-males,
o Povo dos Andes,
o Povo das Selvas,
o Povo dos Pampas,
o Povo do Mar...


(R)


Do Colorado,
de Tenochtitlan,
do Machu-Pichu,
da Patagônia,
do Amazonas,
dos Sete Povos do Rio Grande...


(Vozes individuais)


Eu sou Apache.
Eu sou Azteca.
Eu sou Aymara.
Eu sou Araucano.
Eu sou Maia.
Eu sou Inca.
Eu sou Tupi.
Eu sou Tucano.
Eu sou Yanomani.
Eu sou Aymore.
Eu sou Irantxe.
Eu sou Karaja.
Eu sou Terena.
Eu sou Xavante.
Eu sou Kaingang.


Solo (R)


Eu, Guarani.
E é com canto Guarani
que todo o resto do Continente,
todos os povos do meu Povo,
cantam agora seu lamento.


(C)


Irmãos, vindos de fora,
se quereis ser irmãos,
escutai o meu canto!


Todos


Queremos escutar,
de coração aberto,
com a mão do remorso
sobre a ara do peito.
Queremos reparar
a História desta Terra,
massacre secular.


Solo (R)


Eu tinha uma cultura de milênios,
antiga como o sol,
como os Montes e os Rios de gran de Lacta-Mama.
Eu plantava os filhos e as palavras.
Eu plantava o milho e a mandioca.
Eu cantava com a língua das flautas.
Eu dançava, vestido de luar,
enfeitado de passaros e palmas.
Eu era a Cultura em harmonia com a Mãe Natureza.


Todos


E nós a destruímos,
cheios de prepotência,
negando a identidade
dos Povos diferentes,
todos Família Humana.


Solo (R)


Eu era a Paz comigo e com a Terra...


Todos


E nós te violamos
ao fio das espadas,
no fogo do arcabuz
queimamos teu sossego.


Solo (R)


Eu conhecia o ouro, o diamante, a prata,
a nobre madeira das matas,
mas eram para mim os enfeites sagrados
do corpo da Terra Mãe.
Eu respeitava a Natureza
como se respeita a própria esposa.


Todos


Caravelas do Lucro,
viemos navegando,
para vender a Terra
para explorar lucrando.

Solo (R)


Eu vivia na pura nudez,
brincando, plantando, amando,
gerando, nascendo, crescendo,
na pura nudez da Vida.


Todos


E nós te revestimos
com roupas de malícia.
Violamos tuas filhas.
Te demos por Moral
a nossa Hipocrisia.


Solo (R)


Eu tinha meus pecados,
eu fiz as minhas guerras...
Mas eu não conhecia
a Lei feita Mentira,
o Lucro feito Deus.


Todos


E nos te revestimos
com roupas de malícia.


Solo (R)


Eu era a Liberdade
-não uma estatua apenas-,
Moara em came humana,
a Liberdade viva.
Eu era a Dignidade,
sem medo e sem orgulho,
a Dignidade Humana.


Todos


E nós te escravizamos.
E nós te sepultamos
na escurião das minas.
Dobramos o teu corpo
sob os canaviais.


E te jogamos contra
as árvores amadas,
para cortar madeira,
cortando o teu espírito,
o cerne do teu Povo.


Solo (R)


Meu tempo era o Dia e a Noite,
o Sol e a Lua,
as Chuvas e os Ventos gerais,
meu tempo era o Tempo, sem horas.


Todos


E nós te amarramos
ao tempo do relogio,
no nosso pouco tempo
de pressas e interesses,
ao tempo-concorrência.


Solo (C)


Eu adorava a Deus,
Maíra em toda coisa,
Tupã de todo gesto,
Razão de toda hora.


Eu conhecia a Ciência
do Bem e do Mal primeiros.
A Vida era meu culto,
a Dança era meu culto,
a Terra era meu culto,
a Morte era meu culto,
eu era um Culto vivo!


Todos


E nós te missionamos,
infiéis ao Evangelho,
cravando em tua vida
a espada de uma Cruz.
Sinos de Boa-nova,
num dobre de finados!


Infiéis ao Evangelho,
do Verbo Encarnado,
te demos por mensagem,
cultura forasteira.
Partimos em metades
a paz de tua vida,
adoradora sempre.


Solo (R)


O amor do Pai de todos
me batizou com água da Vida e da Consciência
e semeou em mim a Graça do seu Verbo,
Semente universal de Salvação.


Todos


Quando nós te ferramos
com um Batismo imposto,
marca de humano gado,
blasfêmia do Batismo,
violação da Graca
e negação do Cristo.


Solo (R )


Eu era um Povo de milhões de vivos,
de milhões e milhões de Gente Humana,
milhões de imagens vivas do Deus Vivo.


Todos


E nós te dizimamos,
portadores da Morte,
missionários do Nada.


Solo (R)


Eu vos dei a beleza do Mar e suas praias,
eu vos dei minha Terra e seus segredos,
os pássaros, os peixes, os animais amigos,
servidores.


O milho da espiga apertada e repartida,
o bulbo generoso da mandioca
o pão de cada dia,
o guaraná cheiroso da floresta,
o caldo assossegante do chimarrão do Sul.
O remédio da Terra enfermeira.
A canoa, voadora nas águas.
O Pau-brasil de fogo,
nome do coração do vosso País...


Todos


E nós te depredamos,
desnudando as florestas,
calcinando teus campos,
semeando veneno nos rios e no ar.
A Terra generosa
separando, por cercas,
os homens contra os homens:
para engordar o gado
da fome nacional
para plantar a soja
da exportacão escrava.


Solo (C)


Eu era a Terra livre,
eu era a Agua limpa,
eu era o Vento puro,
fecundos de abundância,
repletos de cantigas.


Todos


E nós te dividimos
em regras e em fronteiras.
A golpes de ganância
retalhamos a Terra.
Invadimos as roças,
invadimos as tabas,
invadimos o Homem.


Solo (R)

Eu fazia um caminho a cada vez que passava.
Era a Terra o caminho.
O caminho era o Homem.


Todos


Nós abrimos estradas,
estradas de mentira,
estradas de miséria,
estradas sem saída.
E fizemos do Lucro
o caminho fechado
para o Povo da Terra.


Solo (R)


Eu era a Terra inteira,
eu era o Homem Livre.


Todos


E nós te reduzimos
em Vitrina e Reserva,
em Parque zoológico,
em Arquivo-poeira.


Solo (R)


Eu era a Saúde dos olhos,
penetrantes como flechas,
dos ouvidos atentos,
dos músculos harmónicos,
da alma em sossego.


Todos


E nós te mergulhamos
nos vírus, nos bacilos,
nas pestes importadas.
Teu Povo reduzimos
a um Povo de doentes,
a um Povo de defuntos.


Solo (R)


Eu vivia embriagado na Alegria.
A aldeia era uma roda de amizade.


Meus Chefes comandavam,
servidores do Povo,
com a sabedoria e o respeito
de quem se reconhece igual ao outro.


Todos


E nós te embriagamos
de cachaça e desprezo.
Fizemos-te objeto
do Turismo impudente.
Tornamos os teus Povos
uma placa de rua,
e o teu Saber antigo,
Tutela de menores.
Pusemos as algemas
dos nossos Estatutos
na tua Liberdade.
Jogamos tua Língua
nas covas do silêncio,
e os teus Sobreviventes
à beira das estradas,
à beira dos viventes
mão de obra barata
nas fazendas e minas,
nos bordéis e nas fábricas;
mendigos dos suburbios
das cidades sem alma;
restos do Continente
da grande Lacta-Mama


(A música se torna diferente em tom de desafio e esperança) Solo (C)


Eu era toda América,
eu sou ainda América,
eu sou a nova América!

Todos


E nós somos agora,
ainda e para sempre,
a herança do teu Sangue,
os filhos dos teus Mortos,
a aliança em tua Causa.
Memória rediviva,
na Aliança desta Páscoa.



Aleluia

Todos (C)


Aleluia! aleluia! aleluia!
Todos os Povos da Terra,
da Terra-sem-males,
louvem ao Pai!


O Evangelho é a Palavra
de todas as Culturas.
Palavra de Deus na Língua dos Homens!


O Evangelho é a chegada
de todos os caminhos.
Presença de Deus na marcha dos Homens!


O Evangelho é o destino
de toda a História. História de Deus na História dos Homens!


Aleluia... etc...



Ofertório


Todos (R)


Erguemos em nossas mãos
a memória dos séculos,
reunimos na carne do pão
a história do Tempo
de Libertação.


Aqui vos entregamos,
a vida banhada de chuva,
o milho plantado na terra,
o amor em pão repartido.


Aqui vos entregamos
a esperança da Terra-sem-males,
a caça-alimento na boca de todos,
0 culto da dança de todas as noites.


Aqui vos entregamos
a paz da abundância,
a liberdade dos Homens,
a vida de Homens iguais.


Todos


Na herança do milho,
na massa do pão,
a Páscoa do Cristo
e a nossa união.


Na sorte do vinho,
na luta e na morte,
a Páscoa do Cristo
e a Libertação.


Todos


Erguemos em nossas mãos
a memória dos séculos,
recolhemos no sangue do vinho
a história de um tempo de escravidão.


Em nossas mãos vos entregamos
a cinza das aldeias saqueadas,
o sangue das cidades destruídas,
a vencida legião dos oprimidos.


Em nossas mãos vos entregamos
os seios exaustos das minas,
a água profanada dos rigs,
as madeiras-em-cruz deste martírio.


Em nossas mãos vos entregamos
as veias abertas de América,
a pedra calada dos templos,
o pranto da memória índia.


Todos (C)


Na herança do milho... etc.



Rito da Paz

Todos (Canto)


Shalom,
Sauidi,
a Paz!
A Paz de Deus,
na paz dos Homens.
O amor do Pai
entre os irmaos.


Todos os Povos num só Povo.
Porque o Senhor é nossa Paz.


Shalom,
a paz antiga.
Sauidi,
a paz perdida.
Em Cristo, a nova Paz!


Shalom, Sauidi, a Paz!



Comunhão

Todos (C)

Celebrando a Páscoa do Senhor
cantamos a Vitória
de toda a Humanidade.
Tribos de toda a Terra,
Povos de toda idade.
Na carne do Senhor
revive toda carne.
Por isso comungamos toda luta.
Por isso comungamos todo sangue.
Por isso comungamos toda busca
de uma Terra-sem-males.


Libertos do primeiro Cativeiro,
cantamos a Passagem.


Cantando atravessamos
o novo Mar Vermelho do teu Sangue.
Cantando comungamos
o Pão da Liberdade.


Cantando caminhamos à procura
de uma Terra-sem-males.


Celebrando a Páscoa do Senhor... etc.



Compromisso Final

Voz masculina (Voz masculina e voz feminina: recitado. Todos cantado)

Alimentados da Páscoa do Senhor
e na Esperança da Terra Prometida,
rejeitamos todas as cadeias e,
com os pés descalços sobre esta Terra nossa,
retomamos a marcha dos mortos redivivos.


Voz feminina


Com as claras estrelas dos Povos exterminados,
iluminamos a rota do ultimo Exodo,
buscando a Terra-sem-males.


Voz masculina


Como fogueiras ardendo no coração da noite,
a memória dos Povos perdidos
conduz o passo dos seus filhos.


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz feminina


Pelos Templos sem defesa saqueados,
por todas as Cidades destruídas,
pelos 90 milhões de índios massacrados.


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz masculina


Pelas ruínas do Império do Sol,
pelos Palacios Maias abolidos,
por todo o Povo Azteca escravizado,
pela desolação dos Sete Povos...


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz feminina


Pelo silêncio das flautas e tambores na noite,
pela morte da alma destes Povos,
pela palavra "resignação" dita aos escravos...


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz masculina


Pelo arcabuz dos bandeirantes e bugreiros,
pelos meninos escravizados,
pelas meninas defloradas,
pelas caravanas de moribundos rumo a São Paulo...

Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz feminina


Pela peste que trouxemos no sangue depurado,
pelas lanças quebradas na humilhacão,
pelas cabeças cortadas dos Aymoré...


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz masculina


Pelas cercas farpadas dos novos bandeirantes,
pela cachaça integradora,
na boca dos guerreiros,
pelo açúcar servido com cianureto
no paralelo onze,
pela prepotência da Tutela e
o sarcasmo da Emancipação...


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz feminina


Pela cruz inscrita na espada dos saqueadores,
pela devastadora Civilização
que se pretende cristã,
pelas catedrais assentadas no coração
dos templos índios
pelo Evangelho da Liberdade,
feito decreto de cativeiro.


Todos


Memória / Remorso / Compromisso!


Voz feminina (Música de suplica confiada)
Todos (Cantado)


Morena de Guadalupe,
Maria do Tepeyac:
Congrega todos os índios
na estrela do teu olhar;
convoca os Povos da América
que querem ressuscitar.


Vozes individuais (recitado)


Montezuma!
Atau Walpa!
Tupac Amaru!
Sepé Tiaraju!
Toríbio de Mogrovejo!
Rosa de Lima!
Bartolomé de las Casas!
José de Anchieta!
Roque!
João!
Afonso!
Rodolfo!
Simão Bororo!
João Bosco!


Voz masculina


E todos os Patriarcas, Profetas e Mártires
da Causa Indígena!


Todos (Recitado)


Prosseguiremos vossa caminhada!


Todos (Canto Final)


Unidos na Memória
da Páscoa do Senhor
voltamos para a História
com um dever major.
Unidos na memória
da Antiga Escravidão
juramos a Vitória
na nova servidão.


América Amerindia,
ainda na Paixão:
um dia tua Morte
terá Ressurreição!


A Páscoa que comemos
nos nutre de porvir.
Seremos nos teus Povos
o Povo que ha de vir.


Os Pobres desta Terra
queremos inventar
essa Terra-sem-males
que vem cada manhã.


Uirás sempre a procura
da Terra que vira...
Maíra, nas origens.
No fim, Marana-tha!








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Homenagem a Rubén Dario o Maior Poeta das Américas


Canción de Otoño en Primavera

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...

Plural ha sido la celeste
historia de mi corazón.
Era una dulce niña, en este
mundo de duelo y de aflicción.

Miraba como el alba pura;
sonreía como una flor.
Era su cabellera obscura
hecha de noche y de dolor.

Yo era tímido como un niño.
Ella, naturalmente, fue,
para mi amor hecho de armiño,
Herodías y Salomé...

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...

Y más consoladora y más
halagadora y expresiva,
la otra fue más sensitiva
cual no pensé encontrar jamás.

Pues a su continua ternura
una pasión violenta unía.
En un peplo de gasa pura
una bacante se envolvía...

En sus brazos tomó mi ensueño
y lo arrulló como a un bebé...
Y te mató, triste y pequeño,
falto de luz, falto de fe...

Juventud, divino tesoro,
¡te fuiste para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...

Otra juzgó que era mi boca
el estuche de su pasión;
y que me roería, loca,
con sus dientes el corazón.

Poniendo en un amor de exceso
la mira de su voluntad,
mientras eran abrazo y beso
síntesis de la eternidad;

y de nuestra carne ligera
imaginar siempre un Edén,
sin pensar que la Primavera
y la carne acaban también...

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer.

¡Y las demás! En tantos climas,
en tantas tierras siempre son,
si no pretextos de mis rimas
fantasmas de mi corazón.

En vano busqué a la princesa
que estaba triste de esperar.
La vida es dura. Amarga y pesa.
¡Ya no hay princesa que cantar!

Mas a pesar del tiempo terco,
mi sed de amor no tiene fin;
con el cabello gris, me acerco
a los rosales del jardín...

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...
¡Mas es mía el Alba de oro!



A MARGARITA DEBAYLE

Margarita, está linda la mar,
y el viento
lleva esencia sutil de azahar;
yo siento
en el alma una alondra cantar:
tu acento.
Margarita, te voy a contar
un cuento.

Éste era un rey que tenía
un palacio de diamantes,
una tienda hecha del día
y un rebaño de elefantes,

un kiosko de malaquita,
un gran manto de tisú,
y una gentil princesita,
tan bonita,
Margarita,
tan bonita como tú.

Una tarde la princesa
vió una estrella aparecer;
la princesa era traviesa
y la quiso ir a coger.

La quería para hacerla
decorar un prendedor,
con un verso y una perla,
y una pluma y una flor.

Las princesas primorosas
se parecen mucho a ti:
cortan lirios, cortan rosas,
cortan astros. Son así.

Pues se fué la niña bella,
bajo el cielo y sobre el mar,
a cortar la blanca estrella
que la hacía suspirar.

Y siguió camino arriba,
por la luna y más allá;
mas lo malo es que ella iba
sin permiso del papá.

Cuando estuvo ya de vuelta
de los parques del Señor,
se miraba toda envuelta
en un dulce resplandor.

Y el rey dijo: "¿Qué te has hecho?
Te he buscado y no te hallé;
y ¿qué tienes en el pecho,
que encendido se te ve?"

La princesa no mentía.
Y así, dijo la verdad:
"Fuí a cortar la estrella mía
a la azul inmensidad."

Y el rey clama: "¿No te he dicho
que el azul no hay que tocar?
¡Qué locura! ¡Qué capricho!
El Señor se va a enojar."

Y dice ella: "No hubo intento;
yo me fuí no sé por qué;
por las olas y en el viento
fuí a la estrella y la corté."

Y el papá dice enojado:
"Un castigo has de tener:
vuelve al cielo, y lo robado
vas ahora a devolver."

La princesa se entristece
por su dulce flor de luz,
cuando entonces aparece
sonriendo el Buen Jesús.

Y así dice: "En mis campiñas
esa rosa le ofrecí:
son mis flores de las niñas
que al soñar piensan en mí."

Viste el rey ropas brillantes,
y luego hace desfilar
cuatrocientos elefantes
a la orilla de la mar.

La princesita está bella,
pues ya tiene el prendedor
en que lucen, con la estrella,
verso, perla, pluma y flor.

Margarita, está linda la mar,
y el viento
lleva esencia sutil de azahar:
tu aliento.

Ya que lejos de mí vas a estar,
guarda, niña, un gentil pensamiento
al que un día te quiso contar
un cuento.



SONATINA

La princesa está triste... ¿qué tendrá la princesa?
Los suspiros se escapan de su boca de fresa,
que ha perdido la risa, que ha perdido el color.
La princesa está pálida en su silla de oro,
está mudo el teclado de su clave de oro;
y en un vaso olvidado se desmaya una flor.

El jardín puebla el triunfo de los pavos-reales.
Parlanchina, la dueña dice cosas banales,
y, vestido de rojo, piruetea el bufón.
La princesa no ríe, la princesa no siente;
la princesa persigue por el cielo de Oriente
la libélula vaga de una vaga ilusión.

¿Piensa acaso en el príncipe del Golconsa o de China,
o en el que ha detenido su carroza argentina
para ver de sus ojos la dulzura de luz?
¿O en el rey de las Islas de las Rosas fragantes,
o en el que es soberano de los claros diamantes,
]o en el dueño orgulloso de las perlas de Ormuz?

¡Ay! La pobre princesa de la boca de rosa
quiere ser golondrina, quiere ser mariposa,
tener alas ligeras, bajo el cielo volar,
ir al sol por la escala luminosa de un rayo,
saludar a los lirios con los versos de mayo,
o perderse en el viento sobre el trueno del mar.

Ya no quiere el palacio, ni la rueca de plata,
ni el halcón encantado, ni el bufón escarlata,
ni los cisnes unánimes en el lago de azur.
Y están tristes las flores por la flor de la corte;
los jazmines de Oriente, los nulumbos del Norte,
de Occidente las dalias y las rosas del Sur.

¡Pobrecita princesa de los ojos azules!
Está presa en sus oros, está presa en sus tules,
en la jaula de mármol del palacio real,
el palacio soberbio que vigilan los guardas,
que custodian cien negros con sus cien alabardas,
un lebrel que no duerme y un dragón colosal.

¡Oh quién fuera hipsipila que dejó la crisálida!
(La princesa está triste. La princesa está pálida)
¡Oh visión adorada de oro, rosa y marfil!
¡Quién volara a la tierra donde un príncipe existe
(La princesa está pálida. La princesa está triste)
más brillante que el alba, más hermoso que abril!

¡Calla, calla, princesa dice el hada madrina,
en caballo con alas, hacia acá se encamina,
en el cinto la espada y en la mano el azor,
el feliz caballero que te adora sin verte,
y que llega de lejos, vencedor de la Muerte ,
a encenderte los labios con su beso de amor!




YO PERSIGO UNA FORMA

Yo persigo una forma que no encuentra mi estilo,
botón de pensamiento que busca ser la rosa;
se anuncia con un beso que en mis labios se posa
al abrazo imposible de la Venus de Milo.

Adornan verdes palmas el blanco peristilo;
los astros me han predicho la visión de la Diosa;
y en mi alma reposa la luz como reposa
el ave de la luna sobre un lago tranquilo.

Y no hallo sino la palabra que huye,
la iniciación melódica que de la flauta fluye
y la barca del sueño que en el espacio boga;

y bajo la ventana de mi Bella-Durmiente,
el sollozo continuo del chorro de la fuente
y el cuello del gran cisne blanco que me interroga.



ITE, MISSA EST

A Reynaldo de Rafael

Yo adoro a una sonámbula con alma de Eloísa,
virgen como la nieve y honda como la mar;
su espíritu es la hostia de mi amorosa misa,
y alzo al són de una dulce lira crepuscular.

Ojos de evocadora, gesto de profetisa,
en ella hay la sagrada frecuencia del altar:
su risa en la sonrisa suave de Monna Lisa;
sus labios son los únicos labios para besar.

Y he de besarla un día con rojo beso ardiente;
apoyada en mi brazo como convaleciente
me mirará asombrada con íntimo pavor;

la enamorada esfinge quedará estupefacta;
apagaré la llama de la vestal intacta
¡y la faunesa antigua me rugirá de amor!



CANTOS DE VIDA Y ESPERANZA
A José Enrique Rodó

I
Yo soy aquel que ayer no más decía
el verso azul y la canción profana,
en cuya noche un ruiseñor había
que era alondra de luz por la mañana.

El dueño fuí de mi jardín de sueño,
lleno de rosas y de cisnes vagos;
el dueño de las tórtolas, el dueño
de góndolas y liras en los lagos;

y muy siglo diez y ocho y muy antiguo
y muy moderno; audaz, cosmopollita;
con Hugo fuerte y con Verlaine ambiguo,
y una sed de ilusiones infinitas.

Yo supe de dolor desde mi infancia,
mi juventud... ¿fue juventud la mía?
Sus rosas aún me dejan la fragancia...
una fragancia de melancolía...

Potro sin freno se lanzó mi instinto,
mi juventud montó potro sin freno;
iba embriagada y con puñal al cinto;
si no cayó, fué porque Dios es bueno.

En mi jardín se vió una estatua bella;
se juzgó de mármol y era carne viva;
un alma joven habitaba en ella,
sentimental, sensible, sensitiva.

Y tímida, ante el mundo, de manera
que encerrada en silencio no salía,
sino cuando en la dulce primavera
era la hora de la melodía...

Hora de ocaso y de discreto beso;
hora crepuscular y de retiro;
hora de madrigal y de embeleso,
de "te adoro", de "¡ay!" y de suspiro.

Y entonces era en la dulzaina un juego
de misteriosas gamas cristalinas,
un renovar de notas del Pan griego
y un desgranar de músicas latinas.

Con aire tal y con ardor tan vivo,
que a la estatua nacían de repente
en el muslo viril patas de chivo
y dos cuernos de sátiro en la frente.

Como la Galatea gongorina
me encantó la marquesa varleniana,
y así juntaba a la pasión divina
una sensual hiperestesia humana;

todo ansia, todo ardor, sensación pura
y vigor natural; y sin falsía,
y sin comedia y sin literatura...:
Si hay un alma sincera, ésa es la mía.

La torre de marmil tentó mi anhelo;
quise encerrarme dentro de mí mismo,
y tuve hambre de espacio y sed de cielo
desde las sombras de mi propio abismo.

Como la esponja que la sal satura
en el jugo del mar, fué el dulce y tierno
corazón mío, henchido de amargura
por el mundo, la carne y el infierno.

Mas, por la gracia de Dios, en mi conciencia
el Bien supo elegir la mejor parte;
y si hubo áspera hiel en mi existencia,
melificó toda acritud el Arte.

Mi intelecto libré de pensar bajo,
bañó el agua castalia el alma mía,
peregrinó mi corazón y trajo
de la sagrada selva la armonía.

¡Oh, la selva sagrada! ¡Oh, la profunda
emanación del corazón divino
de la sagrada selva! ¡Oh, la fecunda
fuente cuyo virtud vence al destino!

Bosque ideal que lo real complica,
allí el cuerpo arde y vive y Psiquis vuela;
mientras abajo el sátiro fornica,
ebria de azul deslíe Filomela.

Perla de ensueño y música amorosa
en la cúpula en flor del laurel verde,
Hipsipila sutil liba en la rosa,
y la boca del fauno el pezón muerde.

Allí va el dios en celo tras la hembra,
y la caña de Pan se alza del lodo;
la eterna vida sus semilas siembra,
y brota la armonía del gran Todo.

El alma que entra allí debe ir desnuda,
temblando de deseo y fiebre santa,
sobre cardo heridor y espina aguda:
así sueña, así vibra y así canta.

Vida, luz y verdad, tal triple llama
produce la interior llama infinita.
El Arte puro como Cristo exclama:
¡Ego sum lux et veritas et vita!

Y la vida es misterio, la luz ciega
y la verdad inaccesible asombra;
la adusta perfección jamás se entrega,
y el secreto ideal duerme en la sombra.

Por eso ser sincero es ser potente;
de desnuda que está, brilla la estrella;
el agua dice el alma de la fuente
en la voz de cristal que fluye de ella.

Tal fué mi intento, hacer del alma pura
mía, una estrella, una fuente sonora,
con el horro de la literatura
y loco de crepúsculo y de aurora.

Del crepúsculo azul que da la pauta
que los celestes éxtasis inspira,
bruma y tono menor ¡toda la flauta!,
y Aurora, hija del Sol ¡toda la lira!

Pasó una piedra que lanzó una honda;
pasó una flecha que aguzó un violento.
La piedra de la honda fué a la onda,
y la flecha del odio fuése al viento.

La virtud está en ser tranquilo y fuerte;
con el fuego interior todo se abrasa;
si triunfa del rencor y de la muerte,
y hacia Belén... ¡la caravana pasa!



LOS CISNES

A Juan Ramón Jiménez

¿Qué signo haces, oh Cisne, con tu encorvado cuello
al paso de los tristes y errantes soñadores?
¿Por qué tan silencioso de ser blanco y ser bello,
tiránico a las aguas e impasible a las flores?

Yo te saludo ahora como en versos latinos
te saludara antaño Publio Ovidio Nasón.
Los mismos ruiseñores cantan los mismos trinos,
y en diferentes lenguas es la misma canción.

A vosotros mi lengua no debe ser extraña.
A Garcilaso visteis, acaso, alguna vez...
Soy un hijo de América, soy un nieto de España...
Quevedo pudo hablaros en verso en Aranjuez....

Cisnes, los abanicos de vuestras alas frescas
den a las frentes pálidas sus caricias más puras
y alejen vuestras blancas figuras pintorescas
de nuestras mentes tristes las ideas obscuras.

Brumas septentrionales nos llenan de tristezas,
se mueren nuestras rosas, se agostan nuestras palmas,
casi no hay ilusiones para nuestras cabezas,
y somos los mendigos de nuestras pobres almas.

Nos predican la guerra con águilas feroces,
gerifaltes de antaño revienen a los puños,
mas no brillan las glorias de las antiguas hoces,
ni hay Rodrigos ni Jaimes, ni han Alfonsos ni Nuños.

Faltos del alimento que dan las grandes cosas,
¿qué haremos los poetas sino buscar tus lagos?
A falta de laureles son muy dulces las rosas,
y a falta de victorias busquemos los halagos.

La América Española como la España entera
fija está en el Oriente de su fatal destino;
yo interrogo a la Esfinge que el porvenir espera
con la interrogación de tu cuello divino.

¿Seremos entregados a los bárbaros fieros?
¿Tantos millones de hombres hablaremos inglés?
¿Ya no hay nobles hidalgos ni bravos caballeros?
¿Callaremos ahora para llorar después?

He lanzado mi grito, Cisnes, entre vosotros,
que habéis sido los fieles en la desilusión,
mientras siento una fuga de americanos potros
y el estertor postrero de un caduco león...

...Y un Cisne negro dijo: "La noche anuncia el día".
Y uno blanco: "¡La aurora es inmortal, la aurora
es inmortal !" ¡Oh tierras de sol y de armonía,
aun guarda la Esperanza la caja de Pandora!



LOS MOTIVOS DEL LOBO

El varón que tiene corazón de lis,
alma de querube, lengua celestial,
el mínimo y dulce Francisco de Asís,
está con un rudo y torvo animal,
bestia temerosa, de sangre y de robo,
las fauces de furia, los ojos de mal:
¡el lobo de Gubbia, el terrible lobo!
Rabioso, ha asolado los alrededores;
cruel, ha deshecho todos los rebaños;
devoró corderos, devoró pastores,
y son incontables sus muertos y daños.

Fuertes cazadores armados de hierros
fueron destrozados. Los duros colmillos
dieron cuenta de los más bravos perros,
como de cabritos y de corderillos.

Francisco salió:
al lobo buscó
en su madriguera.
Cerca de la cueva encontró a la fiera
enorme, que al verle se lanzó feroz
contra él. Francisco, con su dulce voz,
alzando la mano,
al lobo furioso dijo: "¡Paz, hermano
lobo!" El animal
contempló al varón de tosco sayal;
dejó su aire arisco,
cerró las abiertas fauces agresivas,
y dijo: "!Está bien, hermano Francisco!"
"¡Cómo! exclamó el santo. ¿Es ley que tú vivas
de horror y de muerte?
¿La sangare que vierte
tu hocico diabólico, el duelo y espanto
que esparces, el llanto
de los campesinos, el grito, el dolor
de tanta criatura de Nuestro Señor,
no han de contener tu encono infernal?
¿Vienes del infierno?
¿Te ha infundido acaso su rencor eterno
Luzbel o Belial?"

Y el gran lobo, humilde: "¡Es duro el invierno,
y es horrible el hambre! En el bosque helado
no hallé qué comer; y busqué el ganado,
y en veces comí ganado y pastor.
¿La sangre? Yo vi más de un cazador
sobre su caballo, llevando el azor
al puño; o correr tras el jabalí,
el oso o el ciervo; y a más de uno vi
mancharse de sangre, herir, torturar,
de las roncas trompas al sordo clamor,
a los animales de Nuestro Señor.
¡Y no era por hambre, que iban a cazar!"

Francisco responde: "En el hombre existe
mala levadura.
Cuando nace, viene con pecado. Es triste.
Mas el alma simple de la bestia es pura.
Tú vas a tener
desde hoy qué comer.
Dejarás en paz
rebaños y gente en este país.
¡Que Dios melifique tu ser montaraz!"

"Esta bien, hermano Francisco de AsIs."
"Ante el Señor, que toda ata y desata,
en fe de promesa tiéndeme la pata."
El lobo tendió la pata al hermano
de Asís, que a su vez le alargó la mano.

Fueron a la aldea. La gente veía
y lo que miraba casi no creía.
Tras el religioso iba el lobo fiero,
y, bajo la testa, quieto le seguía
como un can de casa, o como un cordero.

Francisco llamó la gente a la plaza
y allí predicó.
Y dijo: "He aquí una amable caza.
El hermano lobo se viene conmigo;
me juró no ser ya vuestro enemigo,
y no repetir su ataque sangriente.
Vosotros, en cambio, daréis su alimento
a la pobre bestia de Dios." "¡Así sea!",
Contestó la gente toda de la aldea.
Y luego, en señal
de contentamiento,
movió la testa y cola el buen animal,
y entró con Francisco de Asís al convento.

Algún tiempo estuvo el lobo tranquilo
en el santo asilo.
Sus bastas orejas los salmos oían
y los claros ojos se le humedecían.
Aprendió mil gracias y hacía mil juegos
cuando a la cocina iba con los legos.
Y cuando Francisco su oración hacía,
el lobo las pobres sandalias lamía.
Salía a la calle,
iba por el monte, descendía al valle,
entraba a las casas y le daban algo
de comer. Mirábanle como a un manso galgo.

Un día, Francisco se ausentó. Y el lobo
dulce, el lobo manso y bueno, el lobo probo,
desapareció, tornó a la montaña,
y recomenzaron su aullido y su saña.

Otra vez sintióse el temor, la alarma,
entre los vecinos y entre los pastores;
colmaba el espanto en los alrededores,
de nada servían el valor y el arma,
pues la bestia fiera
no dió treguas a su furor jamás,
como si estuviera
fuegos de Moloch y de Satanás.

Cuando volvió al pueblo el divino santo,
todos los buscaron con quejas y llanto,
y con mil querellas dieron testimonio
de lo que sufrían y perdían tanto
por aquel infame lobo del demonio.

Francisco de Asís se puso severo.
Se fué a la montaña
a buscar al falso lobo carnicero.
Y junto a su cueva halló a la alimaña.

"En nombre del Padre del sacro universo,
conjúrote dijo, ¡oh lobo perverso!,
a que me respondas: ¿Por qué has vuelto al mal?
Contesta. Te escucho."

Como en sorda lucha, habló el animal,
la boca espumosa y el ojo fatal:

"Hermano Francisco, no te acerques mucho...
Yo estaba tranquilo allá en el convento;
al pueblo salía,
y si algo me daban estaba contento
y manso comía.
Mas empecé a ver que en todas las casas
estaban la Envidia, la Saña, la Ira,
y en todos los rostros ardían las brasas
de odio, de lujuria, de infamia y mentira.
Hermanos a hermanos hacían la guerra,
perdían los débiles, ganaban los malos,
hembra y macho eran como perro y perra,
y un buen día todos me dieron de palos.

Me vieron humilde, lamía las manos
y los pies. Seguía tus sagradas leyes,
todas las criaturas eran mis hermanos:
los hermanos hombres, los hermanos bueyes,
hermanas estrellas y hermanos gusanos.
Y así, me apalearon y me echaron fuera.
Y su risa fué como un agua hirviente,
y entre mis entrañas revivió la fiera,
y me sentí lobo malo de repente;
mas siempre mejor que esa mala gente.
Y recomencé a luchar aquí,
a me defender y a me alimentar.
Como el oso hace, como el jabalí,
que para vivir tienen que matar.
Déjame en el monte, déjame en el risco,
déjame existir en mi libertad,
vete a tu convento, hermano Francisco,
sigue tu camino y tu santidad."

El santo de Asís no le dijo nada.
Le miró con una profunda mirada,
y partió con lágrimas y con desconsuelos,
y habló al Dios eterno con su corazón.
El viento del bosque llevó su oración,
que era: "Padre nuestro, que estás en los cielos..."




CANTO DE ESPERANZA

Un gran vuelo de cuervos mancha el azul celeste.
Un soplo milenario trae amagos de peste.
Se asesinan los hombres en el extremo Este.

¿Ha nacido el apocalíptico Anticristo?
Se han sabido presagios, y prodigios se han visto
y parece inminente el retorno del Cristo.

La tierra está preñada de dolor tan profundo
que el soñador, imperial meditabundo,
sufre con las angustias del corazón del mundo.

Verdugos de ideales afligieron la tierra,
en un pozo de sombras la humanidad se encierra
con los rudos molosos del odio y de la guerra.

¡Oh, Señor Jesucristo!, ¿por qué tardas, qué esperas
para tender tu mano de luz sobre las fieras
y hacer brillar al sol tus divinas banderas?

Surge de pronto y vierte la esencia de la vida
sobre tanta alma loca, triste o empedernida,
que, amante de tinieblas, tu dulce aurora olvida.

Ven, Señor, para hacer la gloria de ti mismo,
ven con temblor de estrellas y horror de cataclismo,
ven a traer amor y paz sobre el abismo.

Y tu caballo blanco, que miró al visionario,
pase. Y suene el divino clarín extraordinario.
Mi corazón será brasa de tu incensario.




LETANIAS DE NUESTRO SEÑOR
DON QUIJOTE

A Navarro Ledesma.

Rey de los hidalgos, señor de los tristes,
que de fuerza alimentas y de ensueños vistes,
coronado de áureo y yelmo de ilusión;
que nadie ha podido vencer todavía,
por la adarga al brazo, toda fantasía,
y la lanza en ristre, toda corazón.

Noble peregrino de los peregrinos,
que santificaste todos los caminos
con el paso augusto de tu heroicidad,
contra las certezas, contra las conciencias,
y contra las leyes y contra las ciencias,
contra la mentira, contra la verdad...

Caballero errante de los caballeros,
barón de varones, príncipe de fieros,
par entre los pares, maestro, ¡salud!
¡Salud, porque juzgo que hoy muy poca tienes,
entre los aplausos o entre los desdenes,
y entre las coronas y los parabienes
y las tonterías de la multitud!

¡Tú, para quien pocas fueron las victorias
antiguas, y para quien clásicas glorias
serían apenas de ley y razón,
soportas elogios, memorias, discursos,
resistes certámenes, tarjetas, concursos,
y, teniendo a arfeo, tienes a orfeón!

Escucha, divino Rolando del sueño,
a un enamorado de tu Clavileño,
y cuyo Pegas o relincha hacia ti;
escucha los versos de estas letanías,
hechas con las cosas de todos los días
y con otras que en lo misterioso vi.

¡Ruega por nosotros, hambrientos de vida,
con el alma a tientas, con la fe perdida,
llenos de congojas y faltos de sol;
por advenedizas almas de manga ancha,
que ridiculizan el ser de la Mancha,
el ser generoso y el ser español!

¡Ruega por nosotros, que necesitamos
las mágicas rosas, los sublimes ramos
de laurel! Pro nobis ora, gran señor.
(Tiemblan las florestas de laurel del mundo,
y antes que tu hermano vago, Segismundo,
el pálido Hámlet te ofrece una flor.)

Ruega generoso, piadoso, orgulloso;
ruega, casto, puro, celeste, animoso;
por nos intercede, suplica por nos,
pues casi ya estamos sin savia, sin brote,
sin alma, sin vida, sin luz, sin Quijote,
sin pies y sin alas, sin Sancho y sin Dios.

De tantas tristezas, de dolores tantos,
de los superhombres de Nietzsche, de cantos
áfonos, recetas que firma un doctor,
de las epidemias de horribles blasfemias
de las Academias,
¡líbranos, señor!

De rudos malsines,
falsos paladines,
y espíritus finos y blandos y ruines,
del hampa que sacia
su canallocracia
con burlar la gloria, la vida, el honor,
del puñal con gracia,
¡líbranos, señor!

Noble peregrino de los peregrinos,
que santificaste todos los caminos
con el paso augusto de tu heroicidad,
contra las certezas, contra las conciencias
y contra las leyes y contra las ciencias,
contra la mentira, contra la verdad...

¡Ora por nosotros, señor de los tristes,
que de fuerza alientas y de sueños vistes,
coronado de áureo yelmo de ilusión;
que nadie ha podido vencer todavía,
por la adarga al brazo, toda fantasía,
y la lanza en ristre, toda corazón!



ALLA LEJOS

Buey que vi en mi niñez echando vaho un día
bajo el nicaragüense sol de encendidos oros,
en la hacienda fecunda, plena de la armonía
del trópico; paloma de los bosques sonoros
del viento, de las hachas, de pájaros y toros
salvajes, yo os saludo, pues sois la vida mía.

Pesado buey, tú evocas la dulce madrugada
que llamaba a la ordeña de la vaca lechera,
cuando era mi existencia toda blanca y rosada;
y tú, paloma arrulladora y montañera,
significas en mi primavera pasada
todo lo que hay en la divina Primavera.



LO FATAL

A René Pérez.

Dichoso el árbol que es apenas sensitivo,
y más la piedra dura, porque ésta ya no siente,
pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo,
ni mayor pesadumbre que la vida consciente.

Ser, y no saber nada, y ser sin rumbo cierto,
y el temor de haber sido y un futuro terror...
Y el espanto seguro de estar mañana muerto,
y sufrir por la vida y por la sombra y por

lo que no conocemos y apenas sospechamos,
y la carne que tienta con sus frescos racimos
y la tumba que aguarda con sus fúnebres ramos,
¡y no saber adónde vamos,
ni de dónde venimos...!




PROPOSITO PRIMAVERAL

A Vargas Vila.

A saludar me ofrezco y a celebrar me obligo
tu triunfo, Amor, al beso de la estación que llega
mientras el blanco cisne del lago azul navega
en el mágico parque de mis triunfos testigo.

Amor, tu hoz de oro ha segado mi trigo;
por ti me halaga el suave son de la flauta griega,
y por ti Venus pródiga sus manzanas me entrega
y me brinda las perlas de las mieles del higo.

En el erecto término coloco una corona
en que de rosas frescas la púrpura detona;
y en tanto canta el agua bajo el boscaje oscuro,

junto a la adolescente que en el misterio inicio
apuraré, alternando con tu dulce ejercicio,
las ánforas de oro del divino Epicuro.



NOCTURNO

A Mariano de Cavia.

Los que auscultasteis el corazón de la noche,
los que por el insomnio tenaz habéis oído
el cerrar de una puerta, el resonar de un coche
lejano, un eco vago, un ligero rüido...

En los instantes del silencio misterioso,
cuando surgen de su prisión los olvidados,
en la hora de los muertos, en la hora del reposo,
sabréis leer estos versos de amargor impregnados...

Como en un vaso vierto en ellos mis dolores
de lejanos recuerdos y desgracias funestas,
y las tristes nostalgias de mi alma, ebria de flores,
y el duelo de mi corazón, triste de fiestas.

y el pesar de no ser lo que yo hubiera sido,
la pérdida del reino que estaba para mí,
el pensar que un instante pude no haber nacido,
¡y el sueño que es mi vida desde que yo nací!

Todo esto viene en medio del silencio profundo
en que la noche envuelve la terrena ilusión,
y siento como un eco del corazón del mundo
que penetra y conmueve mi propio corazón.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

DA PAZ

  Eu não sou da paz.
  Não sou mesmo não. Não sou. Paz e coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma não,senhor. Não solto pomba nenhuma não,senhor.
Não venha me pedir para eu chorar mais.Secou.
A paz é uma desgraça.
    Uma desgraça.
    Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou  fazer essa cara.
Chapada. Não vou rezar, Eu é que não vou tomar a praça.
Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha
A paz fica bonita na televisão.Viu aquela atriz
No trio elétrico,
aquele ator
   Se quiser, vá você, diacho. Eu não vou. Atirar uma lágrima.A paz é muito organizada.
Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito.
E senador. E até jogador.Vou não.
     Não vou.
     A paz é perda de  tempo.
     E o tanto que eu tenho pra fazer hoje. Arroz e feijão. Sem contar a costura.
Meu juízo não tá bom.A paz me deixa doente. Sabe como é
Sem disposição.Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
     A paz nunca vem aqui no pedaço. Reparou
Fica lá.Esta vendo
Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta.
Não fede nem cheira.A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto:
esperança. A pz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara.
Sabe a madame
A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida.A paz precisa de sangue.
       Já disse. Não quero.Não vou a nenhuma passeata.Não saio não.
Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha bater na minha porta. Eu não abro.
Eu não deixo entrar. A paz está proibida. Proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que
a guerra é transferida. Viu
Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem
A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou
acompanhar andor de ninguém. Não vou.
       Sabe de uma coisa: eles que se lasquem.
       É.
       Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência.Não tenho. A
paz parece que está rindo de mim. Reparou
Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou
Vou fazer o quê, hein
       Hein
       Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim
Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando
na avenida a minha ferida. Marchar não vou,muito menos ao lado da polícia. Toda vez que eu vejo
a foto do Joaquim dá um nó. Uma saudade. Sabe
Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim.
Uma dor.
         Dor. Dor. Dor
         Dor



    in Rasif
       mar que arrebenta
       Marcelino Freire
  



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Eu desconfio

esse papo massa de pastel
__eu desconfio
é código de comunista__.
...e não é que andaram
se juntando
fuxicando
conspirando
'a beira mar
em Garça Torta.
Um povo de jornal
gente fera perigosa
uns dr. de direito
mas com pensamento
esquerdo
ficam se amoitando
combinando no twitter.
e papo vai
e papo vem
só fala em tal pastel.
Aos diabos com essa gente
tanta loa
quanta broma
e haja chopp!!!
O Omar é o mais afoito
mais afeito
tanto mais dissimulado...
Não sou lá um dedo duro
pra entregar essa cambada.
Só sei
que lá para as bandas de Garça Torta
mora uns infiltrados
descendentes dos Meninos da Albânia;
e se brincar essa cambada
implanta uma República Socialista.
E ai eu quero ver:
já tem hino brasão bandeira
futura junta provisória
__e Maceió que se cuide__!
Não se brinca com essa gente
distância com essa laia!
Eita povo perigoso
esse papo de pastel (é)
puro código comunista.

sábado, 22 de janeiro de 2011

La Boca

Boca que arrastra mi boca:
boca que me has arrastrado:
boca que vienes de lejos
a iluminarme de rayos.

Alba que das a mis noches
un resplandor rojo y blanco.
Boca poblada de bocas:
pájaro lleno de pájaros.
Canción que vuelve las alas
hacia arriba y hacia abajo.
Muerte reducida a besos,
a sed de morir despacio,
das a la grama sangrante
dos fúlgidos aletazos.
El labio de arriba el cielo
y la tierra el otro labio.

Beso que rueda en la sombra:
beso que viene rodando
desde el primer cementerio
hasta los últimos astros.
Astro que tiene tu boca
enmudecido y cerrado
hasta que un roce celeste
hace que vibren sus párpados.

Beso que va a un porvenir
de muchachas y muchachos,
que no dejarán desiertos
ni las calles ni los campos.

¡Cuánta boca enterrada,
sin boca, desenterramos!

Beso en tu boca por ellos,
brindo en tu boca por tantos
que cayeron sobre el vino
de los amorosos vasos.
Hoy son recuerdos, recuerdos,
besos distantes y amargos.

Hundo en tu boca mi vida,
oigo rumores de espacios,
y el infinito parece
que sobre mí se ha volcado.

He de volverte a besar,
he de volver, hundo, caigo,
mientras descienden los siglos
hacia los hondos barrancos
como una febril nevada
de besos y enamorados.

Boca que desenterraste
el amanecer más claro
con tu lengua. Tres palabras,
tres fuegos has heredado:
vida, muerte, amor. Ahí quedan
escritos sobre tus labios.


Miguel Hernández

O Grande Antonio Machado

Os poemas de António Machado foram transcritos da 2ª ed. (revista e aumentada) de uma Antologia Poética (com selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento), da editorial Cotovia (1999).
ANTÓNIO MACHADO
poeta sevilhano



Um dos poemas mais divulgados de António Machado concentra interessante conteúdo filosófico. A lembrar, por exemplo, a questão da prioridade essência/existência.


Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar. Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.



O poema transcrito faz parte de um conjunto de provérbios e cantares. Uma selecção de mais alguns do mesmo conjunto:


XXI
Ayer soñé que veía
a Dios y que a Dios hablaba;
y soñé que Dios me oía...
Después soñé que soñaba.

XXXVII
¿ Dices que nada se crea?
No te importe, con el barro
de la tierra, haz una copa
para que beba tu hermano.

XXXVIII
¿ Dices que nada se crea?
Alfarero, a tus cacharros.
Haz tu copa y no te importe
si no puedes hacer barro.

XLII
¿ Dices que nada se pierde?
Si esta copa de cristal
se me rompe, nunca en ella
beberé, nunca jamás.

XLVI
Anoche soñé que oía
a Dios, gritándome: ¡ Alerta!
Luego era Dios quien dormía,
y yo gritaba: ¡ Despierta!
XXI
Ontem eu sonhei que via
Deus e que a Deus falava;
e sosnhei que Deus me ouvia...
Depois sonhei que sonhava...

XXXVII
Dizes que nada se cria?
Não te importes, e com o barro
da terra faz uma taça
para que beba teu irmão.

XXXVIII
Dizes que nada se cria?
Oleiro, mãos ao trabalho!
Faz teu copo e não te importe
se não podes fazer barro.

XLII
Dizes que nada se perde?
Se esta taça de cristal
se me partir, nunca nela
eu beberei, nunca mais.

XLVI
À noite sonhei que ouvia
Deus, que me gritava: Alerta!
Depois Deus adormecia
e eu gritava: Desperta!


O sonho. O sonho é o "pano de fundo" de um dos poemas de António Machado de que mais gosto. Com referências filosóficas evidentes num invólucro poeticamente delicioso. Ou não fosse uma parábola...
Era un niño que soñaba
un caballo de cartón.
Abrió los ojos el niño
y el caballito no vio.
Con un caballito blanco
el niño volvió a soñar;
y por la crin lo cogía...
¡ Ahora no te escaparás!
Apenas lo hubo cogido,
el niño se despertó.
Tenia el puño cerrado.
¡ El caballito voló!
Quedóse el niño muy serio
pensando que no es verdad
un caballito soñado.
Y ya no volvió a soñar.
Pero el niño se hizo mozo
y el mozo tuvo un amor,
y a su amada le decía:
¿ Tú eres de verdad o no?
Cuando el mozo se hizo viejo
pensaba: todo es soñar,
el caballito soñado
y el caballo de verdad.
Y cuando vino la muerte,
el viejo a su corazón
preguntaba: ¿ Tú eres sueño?
¡ Quién sabe si despertó!
Era um menino a sonhar
com um cavalo de cartão.
O menino abriu os olhos
e não vui o cavalinho.
Com um cavalinho branco
ele voltou a sonhar;
pelas crinas o prendia...
Assim não te escaparás!
Mal o conseguiu prender,
logo o menino acordou.
Tinha a sua mão fechada.
O cavalinho voou!
O menino ficou sério,
pensando não ser verdade
um cavalinho sonhado.
Já não voltou a sonhar.
E o menino fez-se moço
e o moço teve um amor,
e dizia à sua amada:
Tu és de verdade ou não?
Quando o moço se fez velho
pensava: Tudo é sonhar,
o cavalinho sonhado
e o cavalo de verdade.
E quando chegou a morte,
o velho ao seu coração
perguntava: Tu és sonho?
Quem saberá se acordou!

Madre España

Abrazado a tu cuerpo como el tronco a su tierra,
con todas las raíces y todos los corajes,
¿quién me separará, me arrancará de ti,
madre?

Abrazado a tu vientre, ¿quién me lo quitará,
si su fondo titánico da principio a mi carne?
abrazado a tu vientre, que es mi perpetua casa,
¡nadie!

Madre: abismo de siempre, tierra de siempre: entrañas
donde desembocando se unen todas las sangres:
donde todos los huesos caídos se levantan:
madre.

Decir madre es decir tierra que me ha parido;
es decir a los muertos: hermanos, levantarse;
es sentir en la boca y escuchar bajo el suelo
sangre.

La otra madre es un puente, nada más, de tus ríos.
El otro pecho es una burbuja de tus mares.
Tú eres la madre entera con todo su infinito,
madre.

Tierra: tierra en la boca, y en el alma, y en todo.
Tierra que voy comiendo, que al fin ha de tragarme.
Con más fuerza que antes, volverás a parirme,
madre.

Cuando sobre tu cuerpo sea una leve huella,
volverás a parirme con más fuerza que antes.
Cuando un hijo es un hijo, vive y muere gritando:
¡madre!

Hermanos: defendamos su vientre acometido,
hacia donde los grajos crecen de todas partes,
pues, para que las malas alas vuelen, aún quedan
aires.

Echad a las orillas de vuestro corazón
el sentimiento en límites, los efectos parciales.
Son pequeñas historias al lado de ella, siempre
grande.

Una fotografía y un pedazo de tierra,
una carta y un monte son a veces iguales.
Hoy eres tú la hierba que crece sobre todo,
madre.

Familia de esta tierra que nos funde en la luz,
los más oscuros muertos pugnan por levantarse,
fundirse con nosotros y salvar la primera
madre.

España, piedra estoica que se abrió en dos pedazos
de dolor y de piedra profunda para darme:
no me separarán de tus altas entrañas,
madre.

Además de morir por ti, pido una cosa:
que la mujer y el hijo que tengo, cuando pasen,
vayan hasta el rincón que habite de tu vientre,
madre.


Miguel Hernández

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Clássicos da Twitteratura

@silviolach
Seres humanos casados
se reproduzem em cativeiro.

@alelex
o maior risco
de ser uma pessoas
muito profunda
é cair em si.

@tiodino
Vou anotar toda
as soluções que as
pessoas têm para os
problemas dos outros.
Talvez alguma sirva
sirva pra mim.

@LeoJaime
Quando vejo duas pessoas
na rua se beijando eu sorrio.
Gol do meu time.

@eikebatista
Uma boa ideia
é sempre financiável.

@pittyleone
Os juizes de plantão só sabem das vezes
que eu disse sim
não sabem das tantas que eu disse não.

@felipeneto
Quando alguém deixa
de ser apenas uma piada
na Internet para se tornar
uma piada como pessoa
é realmente vergonhoso.

@amatos
pra ganhar dinheiro
trabalhe naquilo que você
faria até de graça.

@poetacicero
no amor ciúme não dar liga:
brincadeira terminada em briga.

Es una lástima

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cuatro
y acabo la planilla y pienso diez minutos
y estiro las piernas como todas las tardes
y hago así con los hombros para aflojar la espalda
y me doblo los dedos y les saco mentiras.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cinco
y soy una manija que calcula intereses
o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
o un oído que escucha como ladra el teléfono
o un tipo que hace números y les saca verdades.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las seis.
Podrías acercarte de sorpresa
y decirme "¿Qué tal?" y quedaríamos
yo con la mancha roja de tus labios
tú con el tizne azul de mi carbónico.




Poemas de Mario Benedetti

Canção do exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.


Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!


In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.


Murilo Mendes

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Phocás el campesino

Phocás el campesino, hijo mío, que tienes
en apenas escasos meses de vida, tantos
dolores en tus ojos que esperan tantos llantos
por el fatal pensar que revelan tus sienes...

Tarda a venir a este dolor adonde vienes,
a este mundo terrible en duelos y en espantos;
duerme bajo los Ángeles, sueña bajo los Santos,
que ya tendrás la Vida para que te envenenes...

Sueña, hijo mío, todavía, y cuando crezcas,
perdóname el fatal don de darte la vida
que yo hubiera querido de azul y rosas frescas;

pues tú eres la crisálida de mi alma entristecida,
y te he de ver, en medio del triunfo que merezcas
renovando el fulgor de mi psique abolida.




Poemas de Rubén Darío

domingo, 16 de janeiro de 2011

Clássicos da Twitteratura Brasileira

@pittyleone
e eu acho que a gente quer mesmo é morder a maçã
sem ser expulso do paraíso.

@eikebatista
Nunca perder a humildade,
o que automaticamente faz de você
uma pessoa mais flexível e tolerante.

@tiodino
A diferença entre
os mineradores chilenos
e eu é que eles têm prazo
para sair do buraco.

@LeoJaime
Se as mulheres acreditassem
em seus homens da mesma forma que acreditam
em seus cabeleireiros,
os relacionamentos seriam
muito mais simples.

@amatos30
Chatos exercem mais o
direito de vir
do que de ir.

@felipeneto
Tô me sentindo feliz...
Vou dizer que amo todos vocês
no próximo tweet.

@silviolach
Ficar sem dinheiro
é a única coisa que a gente brocha
e duro ao mesmo tempo.

@poetacicero
um dia atrás do outro piloto

sábado, 15 de janeiro de 2011

meu amor se pirulitou

assim e assado
deu na telha
e fez as malas
se pirulitou
e nem chorou
nem fez beicinhos
e sem mandou
pru SriLanka
e não levou o celular.
Assim é ela
ela é assim,
quanto ta com raiva
faz muito pouco de mim.
Apenas deixou um bilhete xoxo
na sacada do meu coração:
tô indo já fui
adeus solidão!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Releitura

Quem relê Drummond é sempre um outro.
Mesmos olhos que ganham,cada vez
lentes melhores,ou é o olhar que vê por outro ângulo.
Poesia de tantos anos, não se dissipa __muda de posição
alcança inesperado matiz na ponta do verso livre:
drummondicionário em perpétua elaboração,se reecreve
até quando a cor ecoa,livro aberto
que inaugura,iluminado de forma diferente
o sentido da página da vida em trânsito
os verbetes que vão da manhã porosa 'a noite emparedada.
Drummond difere,desfere,divaga,diverso
linha a linha,movendo seu traçado,de acordo
com a transformação que se imprime em nós,impressentida

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Salve Bacanudos !!!

Amigos,

Agora temos mais duas ferramentas de apoio a campanha #doelivrospmurici:

Estamos no twitter @amigosdabibliot

e no blog: doelivrosparamurici.blogspot.com

Quem é solidário não perde o Trem da História!

Salve bacanudos!!!

beijucas

cicero gomes

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Caso do vestido

Caso do Vestido

Carlos Drummond de Andrade



Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.


Texto extraído do livro "Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.

Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".









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Salve Lêdo IVo !!!

A QUEIMADA


Lêdo Ivo


Queime tudo o que puder :

as cartas de amor

as contas telefônicas

o rol de roupas sujas

as escrituras e certidões

as inconfidências dos confrades ressentidos

a confissão interrompida

o poema erótico que ratifica a impotência

e anuncia a arteriosclerose



os recortes antigos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados

nenhuma herança de papel.



Seja como os lobos : more num covil

e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.

Diga sempre não à escória eletrônica.



Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,

as variantes e os fragmentos

que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.

Não confie a ninguém o seu segredo.

A verdade não pode ser dita.



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domingo, 2 de janeiro de 2011

Salve Paulo Leminski!!! O Mais Bacanudos dos Poetas.

um bom poema

leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade, eu e você,

caminhando junto





SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO



Escrevia no espaço.

Hoje, grafo no tempo,

na pele, na palma, na pétala,

luz do momento.

Sôo na dúvida que separa

o silêncio de quem grita

do escândalo que cala,

no tempo, distância, praça,

que a pausa, asa, leva

para ir do percalço ao espasmo.



Eis a voz, eis o deus, eis a fala,

eis que a luz se acendeu na casa

e não cabe mais na sala.





ROUND ABOUT MIDNIGHT



um vulto suspeito

e o pulo de um susto

à solta no peito



no beco sem saída

caminhos a esmo

o leque de abismos

entre um eco

e seus mesmos





CURITIBAS



Conheço esta cidade

como a palma da minha pica.

Sei onde o palácio

sei onde a fonte fica,



Só não sei da saudade

a fina flor que fabrica.

Ser, eu sei. Quem sabe,

esta cidade me significa.






HEXAGRAMA 65




Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.

1 dia,
1 mês, 1
ano






DIONISIOS ARES AFRODITE



aos deuses mais cruéis
juventude eterna

eles nos dão de beber
na mesma taça
o vinho, o sangue e o esperma.




SACRO LAVORO

as mãos que escrevem isto
uma dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo

hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto



O que amanhã não sabe,
o ontem não soube.
Nada que não seja o hoje
jamais houve.





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