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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O mestre José Paulo Paes

JOSÉ PAULO PAES (1926-1998) Poeta, tradutor, ensaísta. Nasceu em Taquaritinga, São Paulo. Na casa em que veio ao mundo havia livros de seu avô para lera desde criança... Estudou química industrial em Curitiba e iniciou-se na literatura nos círculos paranaenses em voga em meados dos anos 40 que freqüentvam o Café Belas Artes. Publicou seu primeiro livro de poema em 1947 – O aluno. Mas é em São Paulo, a partir de 1947, que amadurece em convivência com personalidades fulgurantes como Oswald de Andrade e outros modernista, depois pela amizade com os concretistas sem nunca chegar a filiar-se a tais grupos. São muito conhecidos e admiradas suas traduções de poetas latinos e de poesia erótica. Toda sua vasta obra poética, foi competentemente revisada e selecionada pelo crítico Davi Arrigucci Jr., com um alentado e revelador ensaio sobre a obra e a vida do autor, ara a coleção Os Melhores Poemas, da editora Global pouco antes do passamento do grande poeta. “Pode-se ler a poesia de José Paulo Paes, breve e aguda a cada lance em sua tendência constante ao epigrama, como se formasse um só cancioneiro da vida toda de um homem que respondeu com poemas aos apelos do mundo e de sua existência interior”. Davi Arrigucci Jr. TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL Veja também POESIA INFANTIL MADRIGAL Meu amor é simples, Dora, Como a água e o pão. Como o céu refletido Nas pupilas do um cão. DE SENECTUTE já antecipa a língua afeita à alegoria na carne da vida o verme da agonia já tritura o olho no gral da apatia o carvão da noite a brasa do dia já se junta um pé a outro em simetria de viagem além da cronologia já por metafísico o medo anuncia sua máquina de espantos à alma vazia À MODA DA CASA feijoada marmelada goleada quartelada SEU METALÉXICO economiopia desenvolvimentir utopiada consumidoidos patriotários suicidadãos ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA a poesia está morta mas juro que não fui eu eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car- los drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos não adiantou nada em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada de ferro araraquarense porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece nunca ter existido nem eu A Casa Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha. Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão. Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família. Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo. No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha. E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos. Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa. Antes que ele acorde e se descubra também morto. GRAFITO neste lugar solitário o homem toda a manhã tem o porte estatuário de um pensador de Rodin neste lugar solitário extravasa sem sursis como um confessionário o mais íntimo de si neste lugar solitário arúspice desentranha o aflito vocabulário de suas próprias entranhas neste lugar solitário faz a conta doída: em lançamentos diários a soma de sua vida TERMO DE RESPONSABILIDADE mais nada a dizer: só o vício de roer os ossos do ofício já nenhum estandarte à mão enfim a tripa feita coração silêncio por dentro sol de graça o resto literatura às traças! Outros poemas de José Paulo Paes podem (e devem!) ser lidos na antologia: Os melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção Davi Arrigucci Jr. – 5ª. Edição. São Paulo: Global, 2.003. 241 p. JOSÉ PAULO PAES De PROSAS seguidas de ODES MÍNIMAS São Paulo: Companhia das Letras, 1992. CANÇÃO DO ADOLESCENTE Se mais bem olhardes notareis que as rugas umas são postiças outras literárias. Notareis ainda o que mais escondo: a descontinuidade do meu corpo híbrido. Quando corto a rua para me ocultar as mulheres riem (sempre tão agudas!) do meu pobre corpo. Que força macabra misturou pedaços de criança e homem para me criar? Se quereis salvar-me desta anatomia, batizai-me depressa com as inefáveis as assustadoras águas do mundo. CANÇÃO DO EXÍLIO Um dia segui viagem sem olhar sobre o meu ombro. Não vi terras de passagem Não vi glórias nem escombros. Guardei no fundo da mala um raminho de alecrim. Apaguei a luz da sala que ainda brilhava por mim. Fechei a porta da rua a chave joguei no mar. Andei tanto nesta rua que já não sei mais voltar. REENCONTRO Ontem, treze anos depois da sua morte, volte a me encontrar com Osman Lins. O encontro foi no porão de um antigo convento, sob cujo teto baixo ele encenava a primeira peça do seu Teatro do Infinito. A peça, Vitória da dignidade sobre a violência, não tinha palavras: ele já não precisava delas. Tampouco disse coisa alguma quando o fui cumprimentar. Mas o seu sorriso era tão luminoso que eu acordei. POESIA COMPLETA De José Paulo Paes POESIA COMPLETA Apresentação de Rodrigo Naves São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 514 p. ISBN 978-85-359-1338-5 “Na poesia como na vida, José Paulo Paes optou sempre pela discrição e o comedimento de quem desconfia das exaltações visionárias e das certezas inabaláveis. Ao seu primeiro livro deu o título de O aluno. Seu último poema, escrito na véspera da morte, chama-se “Dúvida”. Ser poeta para ele era um modo de continuar até o fim sua busca de aprendiz. / Em vez da retórica elevada, José Paulo adotou o tom menor do bom humor e da observação tão concisa quanto arguta.” RODRIGO NAVES O ALUNO São meus todos os versos já cantados; A flor, a rua, as músicas da infância, O líquido momento e os azulados Horizontes perdidos na distância. Intacto me revejo nos mil lados De um só poema. Nas lâminas da estância, Circulam as memórias e a substância De palavras, de gestos isolados. São meus também, os líricos sapatos De Rimbaud, e no fundo dos meus atos Canta a doçura triste de Bandeira. Drummond me empresta sempre o seu bigode, Com Neruda, meu pobre verso explode E as borboletas dançam na algibeira. L´AFFAIRE SARDINHA O bispo ensinou ao bugre Que pão não é pão, mas Deus Presente na eucaristia. E como um dia faltasse Pão ao bugre, ele comeu O bispo, eucaristicamente. TEXTOS EN ESPAÑOL Traducción de Margarito Cuellar Textos extraidos de ALFORJA – REVISTA DE POESÍA, mexicana, dirigida por el poeta José Àngel Leyva, n. XIX, invierno 2001. Número especial dedicado a la Poesía brasileña organizado por Floriano Martins. Fuera de cualquier sospecha La poesía está muerta pero juro que no fui yo yo hice lo mejor que pude para salvarla imité con diligencia a augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes vladimir maiakowski joão cabral de mello neto paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos no sirvió de nada desesperado llegué a imitar a cierto (o incierto) josé paulo paes poeta de ribeirão- zinho en la vía férrea araraquerense sin embargo ribeirãozinho cambió de nombre la vÍa férrea araraquarense se extinguió y josé paulo paes parece no haber existido ni yo La casa Vendan pronto esta casa, está llena de fantasmas. En la biblioteca hay un abuelo que hace tarjetas de felicitación con caracoles de purpurina. En la imprenta un tío que imprime avisos fúnebres y programas de circo. En la sala de visitas un padre que lee novelas policiacas hasta el fin de los tiempos. En el cuarto una madre que siempre está pariendo la última hija. En el comedor una tía que da brillo a su propio ataúd. En la despensa una prima que plancha todas las mortajas de la familia. En la cocina, una abuela que cuenta noche y día historias de otro mundo. En el patio un negro viejo que murió en la Guerra de Paraguay cortando leña. Y en el tejado un niño medroso que espía a todos ellos; sólo que está vivo: lo trajo hasta ahí el pájaro de los sueños. Dejen dormir al niño, pero vendan la casa, véndanla ya. Antes que él despierte y se descubra muerto también. Página ampliada e republicada em março de 2008, ampliada e republicada em abril 2009. Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato counter create hit Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web. Copyright © 2004 Antonio Miranda

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