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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Um poema de Maiakóviski

Extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha

A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato.
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.

[...]

Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.

[...]

Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.

[...]

Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
“Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.”
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

(Tradução e “intradução” abaixo de Augusto de Campos)

2 comentários:

  1. "... Confusão de poesia e luz,
    chamas por toda a parte.
    Se o sol se cansa
    e a noite lenta
    quer ir pra cama,
    marmota sonolenta,
    eu, de repente,
    inflamo a minha flama
    e o dia fulge novamente..."

    para ler estes versos valeu a parada antes
    do banho.

    "Brilhar para sempre,
    brilhar como um farol,
    brilhar com brilho eterno,
    Gente é pra brilhar
    que tudo o mais vá prá o inferno,
    este é o meu slogan
    e o do sol."


    Abrir a hora vespertina com o verso acima
    é coisa para deusas e deusas.
    Assim me sinto. Assim sinto o Poeta.


    AgraDEcida.

    Deixo abraços.

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  2. Vive dentro de mim a essência desses versos
    exaltados de esperança


    "... Basta-me ver um desses cães vadios,
    como aquele de junto à padaria,
    um verdadeiro vira-lata!
    e no entanto,
    por ele, arrancaria meu próprio fígado:
    Toma, querido, sem cerimônia, come!"
    maiakovski

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