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quinta-feira, 5 de maio de 2011

alguns poemas do Chacal

O OUTRO

só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro


(De BELVEDERE (1971-2007). Rio de Janeiro: 7 LETRAS; São Paulo: COSACNAIFY, 2007)





SENTINELA



teu jeito de elefanta contraído me angustia.

quem sou eu, quem és tu nessa manhã que se anuncia?

sentinela, minha nega, estou tomado pelo teu sentimento.

posso dizer que um elefante passa em mim.

com seu passo lerdo, um tanto tardo de ser.

quando tu assoas tua tromba, sentinela, me assombra.

quem não ficaria sem ar com o teu passar resfriado

com teu ventre que abrange o mundo paralisado?

sentinela. sentinela quem te deu esse nome bacana?

por que sais de manhã toda trêfega e sós voltas sei lá quando?

sentinela, esse jeito avoado de quadrúpede no cio me assanha.

alguns te chamam elefanta, outros aliá e todos tem razão

menos eu sentinela, menos eu que sou assolado pelo

teu sentimento.

por que não vieste a esse mundo, um walk talk, um disc man ?

assim poderia operá-la ou escutar hendrix quando quisesse.

mas não. vieste elefante e para escutar teu berro lancinante



teu ronco visceral, fico impassível como um hidrante.

vai, sentinela, vai !

cambaleante pelas tuas do rio. boa sorte. seja feliz. até logo.



[da revista Inimigo Rumor n. 17, 2005]



DENTES DE AÇO

eu te arranco um pedaço com meus dentes de aço

e faço e refaço no peito e no braço

e te arranco um pedaço com meus dentes de aço



e você acha pouco e diz que eu sou muito louco

mas eu não dou carne a gato

e não vou pagar o pato dos teus sais dos teus ais



eu quero é mais

planetas estrelas cometas

virgínia Sofia Roraima



bem... não se fala mais nisso

até que você descubra

que a bomba H a bossa nova

está na ponta da língua


OSSOS DO OFÍCIO

sempre deixei as barbas de molho

porque barbeiro nenhum me ensinou

como manejar o fio da navalha



sempre tive a pulga atrás da orelha

porque nenhum otorrino me disse

como se fala aos ouvidos das pessoas



sou um cara grilado

um péssimo marido

nove anos de poesia

me renderam apenas

um circo de pulgas

e as barbas mais límpidas da Turquia



PAPAGAIO

estranho poder o do poeta.

escolhe entre quase e cais

quais palavras lhe convêm.

depois as empilha papagaio

e as solta no céu do papel



UMA OUTRA

se você acha que morar num apê

encardido we abafado rua Siqueira

campos um cabeça de porco botar

gravata todo dia para ir de ônibus

trabalhar na rua senador Dantas e

quando pinta tempo e grana batalhar

uma trepada se você acha que dormir

puto e acordar puto é uma eu já acho

é outra.





UMA PALAVRA

uma

palavra

escrita é uma

palavra não dita é uma

palavra maldita é uma palavra

gravada como gravata que é uma palavra

gaiata como goiaba que é uma palavra gostosa








De
NARIZ ANIZ

(da trilogia CARA A CORES)
Capa – desenho PicassoCapa
impressa em silk screen1979





vamos bater 1 papinho

bem popinho

vamos bater 1 pozinho



***



homem com cheiro de peixe

peixe com cheiro de homem



um por dentro do outro

nas marés de lua cheia

na praia dos idos de março

no píer da praça quinze

no barco



***



esses garranchos

como garrincha

garrelincha

e mata um João.



***



na prefeitura qui loucura;

entre os presidentes

os descontentes, cadê meus

dentes? Perdi

num acidente.



***



ontem hoje amanhã e sempre

a mesma coisa

às vezes varea

escassa rarea

vaza enche esvazia

depende do dia

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