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quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Grande Tasso Da Silveira

A DANÇA EM FACE DE DEUS*

1

Senhor, em presença de tua Face,
eu dançarei.
Porque toda alegria e toda beleza
é ritmo e dança.
E a alegria absoluta
e o absoluto esplendor
são uma dança eterna.
Senhor, em tua divina presença,
eu dançarei.
Dançarei como as frondes, como as flores,
às brisas matinais.
Dançarei como as ondas, como as nuvens,
como os ventos oceânicos,
à ebriez dos horizontes sem fim.
Dançarei como os mundos,
as sagradas estrelas,
à hipnose da grande noite.
Senhor, em presença de tua Face
dançarei, dançarei,
dançarei....
dançarei....


2
Cantarei as estrelas, Senhor,
perpetuamente cantarei!
Porque elas são e serão sempre
o augusto deslumbramento,
o milagre, a alegria.
Porque elas permancerão para sempre intactas,
inatingíveis aos golpes
do nosso ímpeto de negação e destruição.
Porque elas são tua imagem,
teu símbolo na matéria.
Quando o homem houver despido
do seu manto de encantamento e de beleza
todas as mais esplêndidas realidades
deste mundo,
Quando houver desnudado de sentido
as árvores, os passários, as flores,
as montanhas, o mar, os ventos,
ainda as estrelas guardarão
seu perene fascínio,
seu magnetismo sobrenatural.
Quando em mais nada neste mundo
descobrir o homem vestígios
dDo absoluto do teu Ser,
- ainda as estrelas lhe dirão,
na sua pulsação infinita
e nos seus insondáveis abismos,
que tu existes, Senhor,
e és absoluto e eterno.
Até meu último canto
cantarei as estrelas.
Dos meus poemas humildes
nem todos se apagarão
na lembrança dos homens.
E nos poucos que fiquem
ainda estarei cantando
a estrelas eternas.
Senhor, até o fim de tudo
cantarei as estrelas,
perpetuamente as cantarei...

3
Senhor, esta água
clara e humilde que bebo
para matar a sede,
transubstancia esta água no teu sangue!
Senhor, este ar
que aspiro sôfrego
Porque meus pulmões sufocam,
Transubstancia este ar na tua alma!
Senhor, as cores e as formas,
as linhas puras de beleza
de todas as coisa do mundo
e que meu olhar procura ansiadamente,
e as harmonias, as músicas,
que são a água para a sede meus ouvidos,
transubstancia tudo isto no teu corpo,
como fazes com o pão e o vinho.
Torna eucarístico
tudo o que está em permanente contacto
com meu corpo eminha alma,
afim de que em tudo eu te sorva
e de ti me nutra
e me encha de ti a cada instante
Porque, senão, eu apodrecerei de todo.
Porque, senão, eu me desfarei em poeira,
Em poeira tão tênue
Que nem teus dedos sentirão...

4
Senhor, dá-me paisagens
infinitamente puras.
Dá-me paisagens virginais
sobre as quais meu espírito corra como um vento
que nunca tenha roçado as paludes trágicas,
nem nunca se tenha embebido do perfume
das mancenilhas mortais.
Senhor, dá-me paisagens unicamente feiras
- como as do deserto enorme, -
de areias e estrelas.

5
Meu corpo como as areais
que as águas primordiais
- as grandes águas virginais do mundo –
lavaram.
Meu corpo como as areias puras.
Minha alma como as estrelas
distantes na noite,
límpidas.
Minha alma como as estrelas intactas.
Então virás, Senhor,
porque serei como um espelho
nítido,
em que poderá refletir-se
Tua Face...


6
Criar, modelar, construir
até o Fim.
capturar as imagens
de nítidosrecortes,
ágeis e vivas
como os tigres elásticos,
e as corças tímidas...
Criar pensamentos
que desejam como serenos pássaros,
do mar,
ou como os livres ventos oceânicos.
Porque só eles trazem nas asas
o vasto e puro alento
das distâncias eternas.
Não vazar nunca
no molde frágil
dos apodrecentes desejos,
do tédio ignóbil,
das cobardias inomináveis.
Modelas apenas
as sagradas argilas
que as mãos de Deus amassaram,
porque só delas é que nascem
As formas imperecíveis.
Criar apenas ritmos límpidos e puros.
Cantar somente os cantos matinais
claros e nus...

9
A Lua
(tão essencial,
tão de Deus...)
do céu puro alumia
a paisagem desnuda:
a paisagem de árvores desfolhadas
erguendo braços quase humanos
na solidão vazia:
de árvores tão simples e nuas,
tão essenciais,
tão de Deus!
Senhor, bem sei que este quadro
é uma palavra tua...
Que por ele me chamas
em verbo de beleza
para uma simplicidade mais límpida,
para uma renúncia mais heróica,
para um desnudamento mais total...
11
Chopin, nós ficaremos sozinhos!
Quando todos os homens
forem, por fim, ajustados
como peças inertes
à grande máquina terrível,
nós, e os nossos irmãos dolorosos,
ficaremos sozinhos.
Quando todos os homens
se houverem perdido de todo
do seu sentido de eternidade
e da sua vocação de beleza,
nós ficaremos
infinitamente sozinhos!
Mas ainda assim continuarão perpetuamente
a comunicar-se conosco
as profundidades de tudo.
Ainda assim continuaremos
a comungar com as essências,
a ouvir as vozes do chão e das estrelas,
a receber as mensagens
das coisas e dos mundos.
Ainda assim,
do seio de uma solidão infinita,
prosseguiremos
em nossa confidência comovida
com Deus...

13
Falar com Deus perdidamente,
na oração que nem sabe que é oração,
no misericordioso encontro eucarístico,
na hora da dor incoercível, em que nada mais me alivia
[no mundo,
na hora da ansiedade infinita, em que nada mais enche
[a minha alma no mundo,
na hora da serena, ou da profunda alegria,
em que está mais próxima a compreensão gloriosa
do absoluto e do eterno.
Criar sonho perpetuamente,
desentranhar perpetuamente a beleza
da substância de todas as coisas.
Procurar a inocência.
No mais secreto desvão de todas as almas
procurar incessantemente a inocência.
Andar, andar, sem parar,
perpetuamente descobrir
a inocência e a beleza.
Falar perdidamente com Deus...


15
O sopro criador não soprou apenas nas origens.
Perpetuamente continuou.
Os homens é que se petrificaram.
Fizeram-se inertes como os rochedos
sobre os quais passa inutilmente
o grande vento da infinita solidão.
O sopro criador era talvez mais tênue nas origens.
Depois cresceu, se amplificou.
Se os homens não tivessem descido todas as flâmulas
da alta torre do Espírito,
elas a esta hora tremulariam violentamente
ao vendaval do Criador.

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