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domingo, 17 de abril de 2011

Jacques Prévert

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JACQUES PRÉVERT

JACQUES PRÉVERT (Neuilly-sur-Seine, 1900 - Omonville-la-Petite, 1977) foi, entre outros ofícios, poeta, argumentista (de películas dirigidas por Jean Renoir e Marcel Carné, entre outros), letrista (de canções interpretadas por artistas como Juliette Gréco ou Yves Montand), tendo-se popularizado nestas duas artes ainda antes de ser conhecido como poeta. O seu primeiro livro de versos foi um sucesso de vendas e um fracasso de crítica. A editora francesa Gallimard, actual responsável pela reedição da obra poética de Prévert, recusou o seu primeiro livro “Paroles”, na pessoa de Jean Paulhan, com o argumento de que considerava os seus versos quotidianos “repugnantes”. Instigado por Henri Michaux (Namur, Bélgica, 1899 – Paris, 1984), Prévert cedo havia abraçado o surrealismo, no caso concreto, como se verá, com a dose certa de sarcasmo, absurdo e humor. A fotografia que ilustra este post é disso mesmo testemunho. Os poemas que se seguem foram retirados do livro "Poemas de Jacques Prévert”, edição Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2000), numa selecção e tradução de Silviano Santiago. Alguma sensação de estranheza que possa resultar, para o leitor português, da leitura deste ou daquele verso, nesta tradução para português do Brasil, é abundantemente suplantada pela informadíssima introdução e avisada selecção operadas por Silviano Santiago, a quem passo a roubar, com a devida vénia, estas três traduções. A primeira, devolve-me à memória certas telas de René Magritte; a segunda, certos poemas de Daniil Harms. Isto anda realmente tudo ligado.




PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Para Elsa Henriquez


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

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