Pesquisar este blog

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Grande Jorge de Lima

JORGE DE LIMA

(1895 — 1953)





Jorge de Lima nasceu em União dos Palmares (AL), em 23 de abril de 1893. Filho de José Mateus de Lima, um senhor de engenho, e de Delmina Simões de Mateus de Lima. Cursou parte do primário no município natal, e viria a ser completado no Instituto Alagoano, em Maceió. Transferiu-se para o Colégio Diocesano de Alagoas, onde completou os “preparatórios”. Iniciou, em 1911, a faculdade de Medicina, em Salvador BA, concluindo-a em 1915, no Rio de Janeiro. Ainda em 1915 retorna a Maceió para exercer a medicina. Em 1919, elegeu-se Deputado Estadual pelo Partido Republicano de Alagoas, assumindo a Presidência da Câmara por dois anos. Em 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro por desavenças políticas, e ali na Capital exerceu a clínica médica e foi professor de Literatura Brasileira na Universidade do Brasil. O seu consultório na Cinelândia tornou-se famoso como centro de reunião de intelectuais e amigos. Após a queda do Estado Novo, militou na política, elegendo-se vereador no antigo Distrito Federal, pela UDN. Em 1944, candidatou-se sem êxito à Academia Brasileira de Letras. Em 1952, é fundada a Sociedade Carioca de Escritores (SOCE), da qual foi o primeiro presidente provisório. Faleceu em 15 de novembro de 1953 após longa enfermidade.



Em entrevista ao jornal Folha da Manhã, em 1952, Jorge de Lima disse que acordava às quatro da manhã; que só fazia visitas como médico; ouvia Mompou, Strawinsky, Bach, Mozart, Beethoven; Stendhal era o escritor estrangeiro de sua predileção. Sobre o Brasil, declarou que “É um país semicolonial, com as maiores possibilidades de ser uma verdadeira democracia e o maior país do futuro”.





Para nós, todavia, pelo menos neste momento de nossa própria evolução, é Jorge de Lima o maior, o mais alto, o mais vasto, o mais importante, o mais original dos poetas brasileiros de todos os tempos.

Mario Faustino



Tudo entra no poema de Jorge de Lima concebido na febre que exalta, no sonho que dilata, no transe que confunde. E o passado junta-se ao presente. Memória e invenção, sonho e realidade, história e futuro, infância e ancestralidade confundem-se, como se, em verdade, o poeta formasse com o seu poema uma espécie de caos preparatório de onde surgirá um dia uma ordem ideal.



João Gaspar Simões, da apresentação ao livro Invenção de Orfeu



A partir do instante que ninguém tiver medo de assumir que reconhece e compreende a sua obra, aí Jorge de Lima estará sagrado como o poeta brasileiro que melhor sintetiza as possibilidades de invenção da língua portuguesa em terras brasileiras.

Salomão Sousa



Bibliografia: XIV Alexandrinos, Artes Gráficas, 1914; O Mundo do Menino Impossível, Casa Trigueiros, 1925; Poemas, Casa Trigueiros, 1927; Novos Poemas, Pimenta de Melo & Cia., 1929; Poemas Escolhidos. Andersen Editores, 1932; Tempo e Eternidade, Livraria do Globo, 1935 - em colaboração com Murilo Mendes; A Túnica Inconsútil, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938; Poemas Negros, Revista Acadêmica, 1947; Livro de Sonetos, Livros de Portugal, 1949; Vinte Sonetos, ilustrações do autor, Editor V. P. Brumlik, 1949; Obra Poética, Editora Getulio Costa, - inclui produção anterior, juntamente com Anunciação e Encontro de Mira-Celi, 1950; Invenção de Orfeu, ilustração de Fayga Ostrower; Livros do Brasil, 1952. Constam aqui apenas as primeiras edições de sues livros de poemas, cabendo sinalizar que ele escreveu um livro sobre Castro Alves (Castro Alves — Vidinha), um sobre Anchieta (Anchieta), alguns outros ensaios, e cinco romances (Salomão e as mulheres, O anjo, Calunga, A mulher obscura, e Guerra dentro do beco). Sua obra tem gerado apresentações teatrais e musicais, cabendo destacar o espetáculo O Grande Circo Místico, de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda, que está registrado em disco.



Página gentilmente organizada por Salomão Sousa.







Jorge de Lima, "Cavalos Alados", 1940



Injustamente, Jorge de Lima anda esquecido, mas venerado por especialistas e leitores mais bem informados. Ana Maria Paulino, em sua obra: JORGE DE LIMA, por Ana Maria Paulino. São Paulo: Edusp, 1995. (Col. Artistas Brasileiros, 1) atribui o fato ao “epíteto de “poeta cristão” a ele dedicado e a qualidade de “poesia religiosa” conferida a seus versos” que teria afastado “deles o leitor dos anos 60. Leitor mais interessado em obras cujo tema abordasse o momento político-social vivido pelo país.” E atualmente? A poesia atual descolou-se de ismos e se enveredou por caminhos heterodoxos, mas Jorge Lima é sempre uma referência para poetas jovens, a notar por sua presença em blogs e revistas eletrônicas.

Como disse o iluminado poeta:

“Como conhecer as coisas senão sendo-as?”

Outra faceta pouco conhecida do poeta é a de artista plástico, que fazia montagens e pintava telas, a exemplo desta imagem a seguir, colhida no supra citado livro de Ana Maria Paulino, exemplar da Col. A.M., cedida pelo bibliófilo Oto Reischneider Dias.



TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EM ESPAÑOL

Veja também: TEXTS IN ENGLISH



O ACENDEDOR DE LAMPIÕES



Lá vem o acendedor de lampiões de rua!

Este mesmo que vem, infatigavelmente,

Parodiar o Sol e associar-se à lua

Quando a sobra da noite enegrece o poente.



Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite, aos poucos, se acentua

E a palidez da lua apenas se pressente.



Triste ironia atroz que o senso humano irrita:

Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.



Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade

Como este acendedor de lampiões de rua!





CANTIGAS



As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.

As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras ficam tão tristes, tão pensativas!



As cantigas tangem os bois dos boiadeiros! ¬

Os bois são morosos, a carga é tão grande!

O caminho é tão comprido que não tem fim.

As cantigas são leves ...

E as cantigas levam os bois, batem a roupa das lavadeiras.



As almas negras pesam tanto, são

Tão sujas como a roupa, tão pesadas como os bois ...

As cantigas são tão boas ...

Lavam as almas dos pecadores!

Lavam as almas dos pecadores!





ALTA NOITE QUANDO ESCREVEIS



À senhora Heitor Usai



Alta noite, quando escreveis um poema qualquer

sem sentirdes o que escreveis,

olhai vossa mão — que vossa mão não vos pertence mais;

olhai como parece uma asa que viesse de longe.

Olhai a luz que de momento a momento

sai entre os seus dedos recurvos.

Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate

e a faz deslizar sobre o papel estreito,

com o clamor silencioso da sabedoria,

com a suavidade do Céu

ou com a dureza do Inferno!

Se não credes, tocai com a outra mão inativa

as chagas da Mão que escreve.





XV



A garupa da vaca era palustre e bela,

uma penugem havia em seu queixo formoso;

e na fronte lunada onde ardia uma estrela

pairava um pensamento em constante repouso.



Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela

que do fundo do sonho eu às vezes esposo

e confunde-se à noite à outra imagem daquela

que ama me amamentou e jaz no último pouso.



Escuto-lhe o mugido ? era o meu acalanto,

e seu olhar tão doce inda sinto no meu:

o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.



Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:

semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu

o leite e a suavidade a manar de dois seios.





VINHA BOIANDO O CORPO ADOLESCENTE...



Vinha boiando o corpo adolescente,

belo pastor e sonho perturbado.

Deus abaixou-lhe os cílios alongados

para que ele dormindo flutuasse.



Ressuscita-o, Senhor, essa medusa

de sangue juvenil em rosto impúbere,

desterrado da vida, flor perdida,

irmão gêmeo de Apolo trimagista.



Seca-lhe a espuma que lhe inunda o peito

e as convulsões mortais que o imolaram

às Sodomas ardidas em seu leito.



Anjo adoecido, alheio dançarino

que dançasse em Gomorras incendiadas,

estás cansado; deita-te, menino!





A TRISTEZA ERA TANTA, TANTA A MÁGOA...



A tristeza era tanta, tanta a mágoa

que seu anjo da guarda resolvera

lutar com ele, lutar para lutar,

que o interesse da vida perecera.



Ave e serpente, círculo e pirâmide,

os olhos em fuzil e os doces olhos,

os laços, os vôos livres e as escamas.



Que doida simetria nesses ódios!

Que forças transcendentes aros e ângulos

alguém quis que lutassem nesse dia!



Ave e serpente, círculo e pirâmide:



Que divina constante simetria

nessa luta soturna, nessa liça

em que Deus reconstrói o eterno cisne!





O grande desastre aéreo de ontem

Para Cândido Portinari



Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.





XVIII



Éguas vieram, à tarde, perseguidas,

depositaram bostas sob as vides.

Logo após as borboletas vespertinas,

gordas e veludosas como urtigas



sugar vieram o esterco fumegante.

Se as vísseis, vós diríeis que o composto

das asas e dos restos eram flores.

Porque parecem sexos; nesse instante,



os mais belos centauros do alto empíreo,

pelas pétalas desceram atraídos,

e agora debruçados formam círculos;

depois as beijam como beijam lírios.





XXVII



Há uns eclipses, há; e há outros casos:

de sementes de coisas serem outras,

rochedos esvoaçados por acasos

e acasos serem tudo, coisas todas.



Lãs de faces, madeiras invisíveis,

visão de coitos entre os impossíveis,

folhas brotando de âmagos de bronze,

demônios tristes choros nas bifrontes.



Tudo é veleiro sobre as ondas íris,

condores podem ser os baixos ramos,

montes boiarem, aços se delirem.



Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,

lábios sedentos, lírios com ventosas,

ódios gerando flores amorosas.





Essa Negra Fulô



Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!



Essa negra Fulô



Essa negrinha Fulô!

ficou logo pra mucama

pra vigiar a Sinhá,

pra engomar pro Sinhô!



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!



vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!



Essa negra Fulô!



"Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco".



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



Ó Fulô! Ó Fulô!

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

"minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou".



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô!)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?



— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!



O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa,



O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô).



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou!

Ah! foi você que roubou!



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.



Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!



Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?



Essa negra Fulô!





VII



Alegria achareis neste poema

como poema ilícito, como um

corpo casual ou vão, como a memória

dura e acídula, como um homem se

conhece respirando, ou como quando

se entristece sem causa ou se doente,

ou se lavando sempre ou comparando-se

às dimensões das coisas relativas;

ou como sente os ombros de seu ser,

transmitidos e opacos, e os avós

responsabilizando-se presentes.



São alegrias rápidas. Lugares,

reencontrados países, becos, passos

sob as chuvas que não vos molharão.





A MÃO ENORME



Dentro da noite, da tempestade,

a nau misteriosa lá vai.

O tempo passa, a maré cresce,

O vento uiva.

A nau misteriosa lá vai.

Acima dela

que mão é essa maior que o mar?

Mão de piloto?

Mão de quem é?

A nau mergulha,

o mar é escuro,

o tempo passa.

Acima da nau

a mão enorme

sangrando está.

A nau lá vai.

O mar transborda,

as terras somem,

caem estrelas.

A nau lá vai.

Acima dela

a mão eterna

lá está.





De

INVENÇÃO DE ORFEU



CANTO I



XXVI



Qualquer que seja a chuva desses campos

devermos esperar pelos estios;

e ao chegar os serões de os fiéis enganos

amar os sonhos que restaram frios.



Porém se não surgir o que sonhamos

e os ninhos imortais forma vazios,

há de haver pelo menos por ali

os pássaros que nós identificamos.



Feliz de quem com cânticos se esconde

e julga tê-los em seus próprios bicos,

e ao bico alheio em cânticos responde.



E vendo em torno as mais terríveis cenas,

possa mirar-se as asas despenadas

e contentar-se com as secretas penas.





CANTO III



XVIII



No dia seguinte:

chamados da terra,

o poema de leva,

te dana, te agita,

te vinca de cruzes,

te envolve de nuvens.

Quem sabe aonde vai

parar no outro dia?





CANTO VI



CANTO DA DESAPARIÇÃO



I



Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo

em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.

Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,

e nos vastos areais — ossadas de cavalo.



Entre as aves do céu: igual carnificina:

se dormires cansado, à face do deserto,

quando acordares hás de te assustar. Por certo,

corvos te espreitarão sobre cada colina.



E, se entoas teu canto a essa aves (teu canto

que é debaixo dos céus, a mais triste canção),

vem das aves a voz repetindo teu pranto.



E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,

tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão

esses corvos fatais. E esses corvos não vão.








DEMOCRACIA



PUNHOS DE REDES embalaram o meu canto

para adoçar o meu país, ó Whitman.

Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,

catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,

carumã me alimentou quando eu era criança,

Mãe-negra me contou histórias de bicho,

moleque me ensinou safadezas,

massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,

bebi cachaça com caju para limpar-me,

tive maleita, catapora e ínguas,

bicho-de-pé, saudade, poesia;

fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,

dizendo coisas, brincando com as crioulas,

vendo espíritos, abusões, mães-d’água,

conversando com os malucos, conversando sozinho,

emprenhando tudo que encontrava,

abraçando as cobra pelos matos,

me misturando, me sumindo, me acabando,

para salvar a minha alma benzida

e meu corpo pintado de urucu,

tatuando de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,

de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de pagão.





De

ANUNCIAÇÃO E ENCONTRO DE MIRA-CELI

1943



25



O Avô tinha sido um ancião convencional,

que se aterrou de sobrecasaca e polainas;

e a avó – uma menina pálida que morreu ao pari-la;

o pai fez algumas balada;

contam que tinha uma luneta para olhar ao longe.

Daí – a mão dobra a página do livro,

e a história da tetraneta finda com uma estocada no ventre:

há destinos travados, lenços quentes de lágrimas,

Quando a mão dobra a página, á rastros de sangue no soalho.

Esta é a mais nova das cinco.

Veja que os seios são como neve que nós nunca vimos

e ninguém nunca viu o pai que lhe fez um filho;

e o filho desta menina é este moço de luto.

Agora vire a página e olhe o anjo que ele possuiu,

veja esta mantilha sobre este ombro puro,

e estes olhos que parecem contemplar as nuvens

através da luneta avoenga. Veja que sem o fotógrafo querer

as cortinas dão a impressão de caras impressionantes

por detrás da gravura: um estudante de cavanhaque e outro de

[capa.

Repare bem o braço que ninguém sabe de onde

circunda o busto da moça e a quer levar para um lugar esconso.

Fixe bem o olhar com o ouvido à escuta para perceber a respiração grossa,

os gritos, os juramentos . . . A saia negra parece um sino de luto,

e o decote é a nau que a levou para sempre. E este fundo de água

pode ser o mar muito bem; mas pode ser as lágrimas do fotógrafo.







51



ETERNIDADE





ELE REVIU-SE:

não era mais

nem corpo

nem sombra

nem escombros.



Como foi isso?

Tudo irreal:

um barco

sem mar

a boiar.



Ele sentiu-se:

recomeçava.

Vivera

morrendo

numa estrela.



Ele despiu-se

de quê

De tudo

que amara.

Surdo-mudo

cegara.

Agora vê.








TEXTOS EM ESPAÑOL





Retrato de Jorge de Lima aos 53 anos, por Silvia Meyer, 1946
De: JORGE DE LIMA, por Ana Maria Paulino. São Paulo: Edusp, 1995
(Col. Artistas Brasileiros, 1) Exemplar da Col. A.M., cedida pelo
bibliófilo Oto Reischneider Dias.




JORGE DE LIMA

(1895-1953)





Nacido en Maceió, estado de Alagoas, murió en Rio de Janeiro, víctima de cáncer y con elevado prestigio dentro de [as áreas de su ejemplar actuación médica, política y literaria. Artista multiforme (fue igualmente laborioso pintor y escultor), dejó una extraordinaria contribución poética, crítico-histórica y novelística. Ejerció también el magisterio y el periodismo, habiendo sido director de instrucción pública en su tierra natal y jefe de estudios de Ia Universidad de Brasil, en Rio de Janeiro. Descendiente de un antiguo linaje rural del Nordeste, su "infância de engenho", en Ia plantación paterna de cana de azúcar, explica su inclinación a Ia tierra natal y Ia simpatía hacia Ia raza negra. Se lanzó como escritor, siendo nino aún, con un soneto parnasiano, "O Acendedor de Lampiões", en 1907. "Essa Negra Fulô" (1928), que le granjeó éxito estupendo, nacional y mundial, tuvo en Ia artista argentina Berta Singerman una intérprete incomparable. A1canza, en sus años de madurez, el clímax deI verdadero genio. Inducido desde 1925 al Modernismo ya partir de los anos 30 a Ia militancia católica, suma a Ia herencia de los anos ochocientos sus bellos poemas regionales, nuevas conquistas formales y, en feliz asociación con Murilo Mendes, un libro de poemas religiosos: Tempo e Eternidade (1935). Otras dos ejemplos de esa religiosidad no sectaria son A Túnica Inconsútil (1938) y Anunciação e Encontro de Mira-Celi (1950). Pero ha de ser con Livro de Sonetos (1949) y Invenção de Orfeu (1952) que Ia excelsa inspiración del poeta alcanzará su punto culminante y su lugar definitivo, gracias a1 dominio técnico del verso, el poder onírico, Ia originalidad y el soplo épico bebido en Ias fuentes de Ia gran tradición del arte occidental. Obra completa publicada por Editora Nova Aguilar, de Rio de Janeiro.

Presentación: José Santiago Naud





LOS QUE ENCIENDEN FAROLAS



Traducción de Anderson Braga Horta

y José Jeronymo Rivera



!Viene el hombre que enciende farolas y puntúa

De luceros la calle, e infatigablemente

Imita al sol, y lunas y estrellas insinúa,

Cuando la vasta sombra ennegrece el poniente!



Una, dos, tres farolas enciende y continúa

Otras más encendiendo imperturbablemente,

Mientras la noche, poco a poco, se acentúa

Y la pálida luna apenas se presiente.



Triste ironía atroz que al alma humana irrita:

ÉI, que dora la noche y alumbra la ciudad,

Tal vez no tenga luz en la choza en que habita.



¡Tanta gente hay también que en las demás pretiende

Insinuar creencia, amor, felicidad,

Como ese hombre que pasa y farolas asciende!





CANTIGAS



Traducción de José Jeronymo Rivera



Las cantigas lavan la ropa de las lavanderas.

¡Las cantigas son tan bonitas, que las lavanderas quedan tan tristes,

tan pensativas!



Las cantigas tañen los bueyes de los boyeros!

¡Los bueyes son morosos, la carga es tan grande!

El camino es tan largo que no tiene fin.

Las cantigas son leves ...

Las cantigas llevan los bueyes, baten la ropa de las lavanderas.



Las almas negras pesan tanto, son

Tan sucias como la ropa, tan pesadas como los bueyes ...

Las cantigas son tan buenas ...

!Lavan la ropa de los pecadores!

!Lavan la ropa de los pecadores!





BIEN ENTRADA LA NOCHE CUANDO ESCRIBÍS



Traducción de Anderson Braga Horta

y José Jeronymo Rivera



Bien entrada la noche, cuando escribís un poema cualquiera

sin sentir lo que escribís,

mirad vuestra mano — que vuestra mano no os pertenece más;

mirad como parece un ala que viniera de lejos.

Mirad la luz que a cada momento

sale de entre sus dedos curvos.

¡Mirad la Gran Mano que sobre ella se abate

y le hace deslizar sobre el papel estrecho,

con el clamor silencioso de la sabiduría,

con la suavidad del Cielo

o con la dureza del Infierno!

Si no lo creéis, tocad con la otra mano inactiva

las llagas de la mano que escribe.





XV



Traducción de Anderson Braga Horta

y José Jeronymo Rivera





La grupa de la vaca era palustre y bella,

una pelusa había en su mentón hermoso;

y en la frente lunada donde ardía una estrella

flotaba un pensamiento en constante reposo.



Es su imagen tan pura y sencilla centella,

que del fondo del sueño a veces yo la esposo

y se mezcla de noche a la imagen de aquella

que ama me amamantó con pecho generoso.



Escucho su mugido —un himno suave y santo—

y su dulce mirada que en la mía se fijó:

seno y ubre natales irrigándome amenos.



Los mezclo en esta ganga informe que es mi canto:

gesto y leche, la vaca y la hembra que me dio

la leche y la dulzura manando de dos senos.





VENÍA BOYANDO EL CUERPO ADOLESCENTE…



Traducción de Anderson Braga Horta

y José Jeronymo Rivera



Venía boyando el cuerpo adolescente,

bello pastor y ensueño perturbado.

Dios bajó sus pestanas alargadas

para que él durmiéndose flotase.



Resucítalo, Dios, a esa medusa

de sangre juvenil en rostro impúber,

de la vida exiliado, flor perdida,

el gemelo de Apolo trismegisto.



Seca la espuma que le inunda el pecho,

la convulsión mortal que lo inmoló

a Sodomas ardidas en su lecho.



Ángel doliente, ajeno danzarín

que danzase en Gomorras incendiadas,

estás cansado y solo; ¡échate, niño!





TAL ERA SU TRITEZA, TAL LA PENA…



Traducción de Anderson Braga Horta

y José Jeronymo Rivera





Tal era su tristeza, tal la pena

que su ángel de la guardia resolvió

luchar con él, apenas por luchar,

que el gusto de la vida extinto estaba.



Ave y serpiente, círculo y pirámide,

los ojos en fusil, los dulces ojos,

el lazo, el vuelo libre, las escamas.



iQué loca simetría en esos odios!

iQué fuerzas transcendientes aros y ángulos

quiso alguien que lucharan ese día!



Ave y serpiente, círculo y pirámide:



iQué divina constante simetría

en la lúgubre lucha, en esa liza

en que Dios reconstruye el cisne eterno!





EL NOMBRE DE LA MUSA




Traducción deJorge Boccanera
y Saúl Ibargoyen




No te llamo Eva,

no te doy nombre alguno de mujer nacida,

ni de hada ni de diosa ni de musa ni de sibila ni de tierras

nl de astros ni de flores.

Pero te llamo la que descendió de la luz de la luna

para provocar las mareas

e influir en las cosas oscilantes.

Cuando veo los enormes campos de verbena agitando

las corolas

sé que no es el viento que sopla, sino tu que pasas

con los cabellos sueltos.

Amo contemplarte en los cardúmenes de las medusas

que van hacia los mares boreales,

o en la bandada de gaviotas y pájaros de los polos,

revoloteando sobre las tierras heladas.

No te llamo Eva,

no te doy nombre alguno de nujer nacida.

Tu nombre debe estar en los labios de ios niños

que nacieron mudos,

en las arenas movedizas y silenciosas que ya se fueron

al fondo del mar,

en el aire lavado que sigue a las grandes borrascas,

en la palabra de los anacoretas que te vieron soñando

y murieron al despertar,

en la parábola que los rayos describen

y que nadie leyó jamás.

En todos esos movimienïos hay apenas sílabas

de tu nombre secular

que escucharon cosas primitivas y no las transmiteron

a las generaciones.

Esperemos, amigo, que los sembrados gratuitos renazcan,

y los animales de la creación se reconcilien

bajo el mismo arco-iris:

entonces se oirá el nombre de esa a quien no llamo Eva

ni le doy nombre alguno de mujer nacida.



====================================================





Extraído de
Jorge de Lima
Antología personal
México, DF: Universidad Autónoma Metropolitana, 1989.
146 p. (Col. Molinos de Viento)





Lámpara marina



Las noches quedarán inmensas.

La tristeza de las cosas será cada vez más profunda.

Ahora paseas por los jardines intemporales.

Y aqui las noches serán inmensas

y la soledad del mundo tendrá una altura infinita.

Te veo desapareciendo, como arrastrada por lineas divergentes,

deshaciéndote misteriosamente como una sombra en la tarde.

Brujuleas muy lejos, lámpara marina,

bajo la última ventisca que te barrió de la tierra.

Las noches quedarán inmensas, oh, ¡ quedarán inmensas !
Inmóvil yaces mientras tanto, recostada y serena
y todo todavia está en ti: la misma boca amarga
los mismos ojos imprecisos, los mismos cabellos,
de tus innumerables retratos.
Y a través de esta inimaginable quietud serena
se desdobla tu infancia y todavia conservas
las manos transparentes,
de la primera comunión, los lábios entumidos
de prometida casi impúber
y la secuencia fotográfica de cuando ensanchaste tus senos
y tu vientre y tu alma para contener un hijo. —
¡ Ah, las noches serán inmensas
y la tristeza de las cosas llenará el mundo!
Ahora frecuentas los tiempos infinitos e ilimitados de Dios.
Pero todavía repesas tu cuerpo en la última noche
que te arranco de la vida.
Son los mismos senos, la misma frente, la misma
boca desmayada,
la misma secuencia de retratos que se
interrumpen en fin.
No hay un solo fragmento de carne ni siquiera
un miembro que más te pertenezca:
Dios te rapto en tu totalidad.
Y mientras todo en ti se detuvo para nosotros,
tu eres la bailarina que Él arrebató entre los
hombres y absorbió para Si
Y Ias noches quedarán inmensas y más tristes. ..

Nenhum comentário:

Postar um comentário