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domingo, 19 de dezembro de 2010

Monólogo do Natal

Eu não gosto de você,Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel de vender ilusões 'a burquesia.
Se os garotos da cidade soubessem do seu ódio a humildade,
Jogavam pedras nessa fantasia.
Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa me tornei rapaz, sem esquecer no entanto o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, e a noite inteira eu esperei contente.
Chegou o sol e você não chegou.
Dias depois, meu pobre pai cansado, trouxe um trenzinho feio, empoeirado,
Que me entregou com certa excitaçãO.
fechou os olhos e balbuciou:__É pra você,Papai Noel Mandou!
E se esquivou contendo a emoção.
Alegre e inocente neste caso, eu pensei que meu bilherte com atraso,
chegara em suas mãos.
No fim do mês,
Limpei o trem, dei corda,ele partiu dando muitas voltas.
Meu pai sorriu e me abraçou pela última vez.
O resto eu só pude compreender quando cresci e comecei a ver todas
as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a seco:
__Onde tá aquele seu brinquedo,
Eu vou trocar por outro da cidade.
Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar e,
Como quem não quer abandonar um mimo
que nos deu, quem nos quer bem,disse:
__O Senhor vai trocar ele,
Eu não quero outro brinquedo eu quero aquele.
E por favor não vá levar meu trem.
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que,
Eu ainda creio, tanto e tão santo, só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou, ele não deu ouvidos.
saiu correndo e nunca mais voltou!
Você, Papai Noel, me transformou num homem que a infância aruinou.
Sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não um que sobre para a riqueza do menino pobre
Que sonha o ano inteiro com o Natal.
Meu pobre pai doente,mal vestido, para não me ver assim desiludido,
Comprou por qualquer preço uma ilusão e, num gesto nobre, humano e decisivo,
Foi longe pra me trazer um lenitivo, roubando o trem do filho do patrão.
Pensei que viajara, no entanto, depois de grande,minha mãe, em prantos,
Contou-me que fora preso.
E como réu ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia, da cela o libertou pro céu.
É por isso que eu não gosto de você, Papai Noel.





Mestre Aldhemar Paiva

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